A BRUXA DE MONTE CRDOVA
Camilo Castelo Branco

Dcimo terceiro volume

Seleco e notas de Alexandre Cabral

Crculo de Leitores



NOTA INTRODUTRIA

Uma das particularidades do universo romanesco de Camilo Castelo Branco, nem sempre devidamente sublinhada,  a constante mutao dos cenrios em que se desenrolam as intrigas amorosas. A dramaticidade , como j sabemos, a marca de gua do autor; muitas vezes, porm, o vector principal no se relaciona exclusivamente com o enredo amoroso. Na tela aparecem outros condutores que so minimizados pelo leitor menos atento. Seduzido pelos episdios da efabulao passional, o leitor pode no se aperceber da existncia e sobreposio dos dois planos: o histrico ou social e o romanesco. As vicissitudes dos protagonistas, decorrentes do conflito amoroso, dissolvem os aspectos menos apaixonantes da histria, sendo eles, todavia, de certo modo, o suporte da intriga.

Em A Bruxa de Monte Crdova (1867), a aco abarca a

universalidade do territrio portugus na centria oitocentista, concretamente a guerra civil de 1832-1834 entre a faco absolutista (a dos carcundas) e a liberal (a dos malhados), terminando a narrativa dos eventos exactamente no ano em que est a escrever a obra, como  regra em Camilo.

A luta fratricida estende-se de norte a sul do pas, empapando a terra portuguesa do generoso sangue de seus filhos. Assiste-se s perseguies, s vinganas e s sevcias das parcialidades sobre os adversrios ideolgicos. Porque  disso efectivamente que se

trata neste romance: do confronto entre duas ideologias.

Perante os maus tratos inflingidos a frei Jacinto de Deus, observa Camilo, num desabafo irnico:

"Era aquele o povo cristianssimo deste ubrrimo jardim de Roma, regado com o sangue dos infiis. O pas da Inquisio [veja-se O Judeu, n. - XIII e XIV desta Coleco], dos evangelizadores de frica e ndia, dos quinhentos e trinta e sete mosteiros e conventos!"

Com efeito, anota-se n 'A Bruxa de Monte Crdova, de forma lapidar, a influncia que exerceu na carnificina a pregao fradesca, a intolerncia daqueles que queriam impor a verdade do seu credo pelos infalveis e repugnantes meios da forca, das perseguies e dios polticos, chegando-se j nesse tempo,  proclamao do execrando princpio do "quem no  por ns  contra ns".

Trata-se de um livro poltico e social, como aventou um crtico? Sem dvida que . No vasto painel que serve de enquadramento  Bruxa de Monte Crdova, sucedem-se verdicos episdios polticos e sociais da histria nacional, com uma fidelidade rigorosa -nos pontos essenciais -, ainda que com toda a evidncia no seja o escopo historiogrfico que esteja em causa.

Tanto assim que, a dada altura, perante a seriedade dos assuntos versados, o autor se penitencia das constantes derivaes:

"Pede-se vnia do extravio, e promete-se continuar com os

olhos postos no programa de frivolidades que determina a boa e aceitvel misso deste escrito. "

A verdade, porm,  que o romancista, sem o deixar de ser, cauteriza com experimentada mo de mestre o fanatismo dominante em certas classes, ociosas e privilegiadas: os monges ou frades.

A intolerncia poltica est expressa no axioma caverncola de Simedo, um fantico defensor do "trono e do altar" (como ento se usava dizer), que proclamava ser "preciso levantar duas forcas em basto para acabar com os malhados (os liberais e partidrios de Pedro e sua filha Maria II).

Por outro lado, o fanatismo religioso reflecte-se no procedimento de frei Silvestre do Corao Divino, o "fradinho arrbido ", que leva Anglica Florinda a repudiar do seu seio o prprio filho, porque era filho do pecado, isto , concebido fora do matrimnio.

Mas quem era frei Silvestre? Um vendilho do templo que "tinha distribudo no pas tal poro de falanges dos dedos de S. Bono presbitero e mrr, que preciso fora ter o santo mais braos que Briareu, para que todos os ossos fossem dele ".

Contra a superstio e a crendice derramadas a esmo entre as populaes crdulas e **ana@'abetas pela vesnia e irreligiosidade de frades estpidos, ergue-se a voz cominatria do austero frei Jacinto de Deus:

" Que santo  Vossa Reverncia, que veio aqui fazer o mal que nem as legies infernais confederadas conseguem vingar!" (Ao dirigir-se precisamente a frei Silvestre do Corao Divino.)

"Queria dizer-lhes que est ensopada em sangue a terra de Portugal por causa do fanatismo sacrlego dos frades que pregoaram a caridade das forcas e insinuaram nas almas ignorantes doutrinas sanguinrias [..], em que os visionrios da casta do arrbico [frei Silvestre do Corao Divino] tornaram escarnecveis todas as coisas sublimes da religio de Jesus Cristo. " (Ao dirigir-se s freiras de Santa Clara.)

Quem conhece suficientemente a Histria de Portugal e as

trevas que envolvem esse perodo que no romance se denunciam com no pequena coragem, sente em certas passagens o bafo odiento de Jos Agostinho de Macedo, como, por exemplo, quando se falseia a verdade (" bem que os frades do alto do plpito trovejassem que os celerados pedreiros-livres no respeitariam sexos nem idades").

A desmoralizao no interior dos conventos  imputada  "degenerada f e caridade dos monges e  lucrativa Roma, que abrira seu telnio sobre o sepulcro de Cristo, baque irremedivel dos mosteiros".

Mas h uma fraco do clero que pensa de maneira diversa, em unssono com o pulsar da poca. Toms de Aquino, o frei rebelde, considera, ainda colegial, a "liberdade, filha do Deus verdadeiro, o qual h dezanove sculos mandou  terra um filho plant-la".

Voltando  frivolidade novelstica (a teima de Camilo em chamar "frivolidades" s suas produes romanescas).  neste ambiente de turbulncia e intranquilidade ("o soturno remugir da cralera"), no meio da polvorada sangrenta dos combates, que

nasce e por fim se concretiza o amor de Toms de Aquino (frei Toms de S. Plcido), de 20 anos, por Anglica Florinda (a Anglica do Picoto), de 17.

Amores contrariados que acompanham e se entrelaam com

os sucessos histricos da guerra civil, j que Toms de Aquino, fugindo do convento, se alista nas fileiras da liberdade e bale-se contra os fanticos partidrios do senhor Miguel I, num comportamento de exemplar valentia.

Ao desembarcar no Porto, vindo da Terceira, reencontra Anglica, ento serva de freira abastada no Convento de Santa Clara, reaviva-se-lhe o amor da juventude, que nunca esfriara, e,  margem do sacramento cannico do matrimnio, constituem um lar, onde no h abastana mas h felicidade, Nasce-lhes um

filho, Jacinto de Deus e Aquino, que, por morte do pai em combate, fica ao desamparo.

Efectivamente sem amparo, porque sua me, presa na teia das supersties de " um santo fradinho ", frei Silvestre do Corao Divino, lhe exacerba, os sentimentos msticos, levando-a a repudiar a criana.


Obrigada a sair de Santa Clara, devido  misria a que voluntariamente se reduziu (recusara a herana da freira sua ama no

montante de quatro mil cruzados), Anglica Florinda percorrer um tormentoso calvrio at aparecer no Monte Crdova, onde granjeia fama de virtuosa, de santa e de bruxa.

Nesta situao a vai encontrar o filho, Jacinto de Deus e Aquino, regressado do Brasil, rico, casado e com quatro filhos, ornado, para cmulo, com o ttulo de baro de Burges.

Como acontece em todos os romances de Camilo Castelo Branco, tambm n'A Bruxa de Monte Crdova se detectam na talagara romanesca uns fios que definem contornos e exercem

papel preponderante na urdidura, merecedores de alguma reflexo.

Anotemos de passagem a referncia ao inevitvel "brasileiro", que neste romance surge incidentalmente: o tio materno de Anglica, "brasileiro" de Pernambuco, que pretendia casar-se com a sobrinha; outro "brasileiro" aspirava  mo de Mariana, filha do irmo de Anglica; finalmente, o baro de Burges, jacinto de Deus e Aquino, filho de Anglica. Por curiosidade, todos regressaram ricos, a medir "o dinheiro aos alqueires", como no romance se diz do primeiro.

Este ponto ser desenvolvido na Nota que acompanhar Os Brilhantes do Brasileiro (18.o da srie das Obras Escolhidas de Camilo Castelo Branco). Aproveitemos porm, e desde j, a oportunidade para colocar a questo pertinente: quando se estudar o problema da emigrao oitocentista atravs da novelstica camiliana? Sabemos que est feito o estudo do "brasileiro " em Camilo, como figura lterra, mas no  isso que se pede.

Outro vector, predominante tambm na novelstica camiliana: o saudvel e sbio bom senso popular, representado n'A Bruxa de Monte Crdova pela senhora Maria, ama do Jacintinho (depois baro de Burges), seu marido Bento Gomes e Joo Antnio. Frei Jacinto de Deus  o bom senso religioso.

A riqueza das personagens de extraco plebeia consubstancia-se no casticismo da expressado, na rudeza primria dos sentimentos, mas sempre francos e leais no seu relacionamento com os outros. No meio da degradao generalizada,  o segmento da sociedade que permanece inclume  progresso da gangrena.

Terminada a guerra civil, quando frei Jacinto de Deus e a

ama levam jacintinho a Santa Clara para visitar a me, a senhora Maria d provas de mau humor ao negarem-lhes a visita. A freira porteira, devota do preceito regenerador da forca e do cacete, diz-lhe, abespinhada:

"Mulher de mais m lngua nunca se viu neste ptio! Se fosse noutro tempo j estava na cadeia... "

A ameaa encolerizou a senhora Maria, que lhe replicou de pronto:

"Ouviu, senhora freira?... Viste-lo? Esse tempo j l vai. Estas santeiras de borra que os traziam aqui pelos muros da cerca a trepar l pra dentro... "

Na voz do povo, a verdade exprime-se rebelde e sem atavios de linguagem. Poder ser rude na elocuo, mas traduz objectivamente as ideias - naturalmente simples, precisas, correctas.

Antes de versar o ltimo vector, uma obrigatria e necessria chamada de ateno para um pargrafo importante que sintetiza de maneira breve mas lapidar toda a problemtica do Amor em Camilo, isto , do Amor na novelstica camiliana.  quando o autor descreve o contentamento de Anglica a

viver com Toms na pobre casinha da Torre da Marca, fora das normas sacramentais.

Reflicta o leitor nas palavras do romancista: "h uns alvoroos de mulher que dobradamente as aformosentam:  quando elas, voluntariamente prometidas para o noivado que a religio abenoa, ou para as npcias da sua escolha que a religio condena, se contemplam na hora de serem avinculadas a uma outra vida j de antemo espiritualmente duplicada

na sua."

E acrescenta ainda, como se fosse necessrio clarificar o claro pensamento:

"Jubilam [as mulheres amancebadas, como Anglica] por igual com as outras que vo do altar ao tlamo. No se estremam; nem entendem como  que a estola e o latim do padre endireitam o pudor do instinto pelos caminhos santos, onde o corao s consigo no pode ir, nem a sociedade consentir que v."

Abordemos, Porfim, o ltimo ponto: o amor de e  me. j registmos este vector na Nota sobre O Bem e o Mal, quando Casimiro encontra a me. (V respectiva Nota.) Pensamos no entanto justificar-se a insistncia.

No meio de sucessos No fabulosos como os que se arquivam n 'A Bruxa de Monte Crdova, h sempre um espao e um tempo em que se recorda a me -uma verdadeira obsesso no universo romanesco camiliano, que reflecte nas mais variadas circunstncias a fora irreprimvel de um sentimento enraizado no corao do romancista.

Os exemplos so comprovativos da existncia em Camilo dessa carncia afectiva: verdadeira, real, sentida.

Ao fugir do convento, pronto a expatriar-se, qual  o pensamento do frei rebelde?

"Minha santa me!... ", murmurou Toms. "E no poderei eu beijar-lhe a mo antes de me desterrar?"

No regresso  ptria, a militar no exrcito liberal, "levava Toms o seio trespassado de saudades de sua me" . (Soubera, nesse momento, que ela j era falecida.)

O amor de me recebe a bno religiosa, na veemente rplica de frei Jacinto de Deus, ao ouvir da boca de Anglica a blasfmia de que o confessor no quer que seu filho a visite no convento:

"Digo~te em nome de Deus que esse frade, se no  estpido,  infame. "

Ser ainda frei Jacinto quem sugere a Anglica que se transferira para outro convento, "onde possas amar e servir Deus sem romper os laos que te prendem ao teu filho ".

Tambm no romance se ouve a opinio de um homem do

povo sobre a santidade do amor de me. Contava Anglica a joo Antnio que no linha de se preocupar com o filho, porque "l est Deus, que  pai, e a Virgem Santa, que  me ".

Na emergncia, joo Antnio lembra-lhe "que a Virgem Santa, se  me dos filhos desamparados, no devemos crer que seja amiga das mes que os desamparam ".

Como quer que seja, Anglica reabilita-se da dureza do seu corao, fanatizada pelas prticas do "santo fradinho ", quando se encontra na capelinha do Monte Crdova com a famlia do bardo de Burges. Suspeitosa de que o bardo  o seu Jacinto de Deus, por uma aluso incidental a Toms de Aquino, arregaa-lhe as mangas da veste para lhe encontrar a tatuagem que Bento Gomes lhe fizera em criana. E pede-lhe, anskaa, perdo.

Mas da parte do baro  enternecedora a sua alegria em reencontrar a me:

"Minha me!", disse com muita ternura o filho, colocando- ~se diante dela, sem a largar dos braos. "Diga-me outra vez que eu sou o seu filho... Fale-me de meu pai... "

Ao ver a agonia da desgraada mulher, "rompeu em pranto desfeito, exclamando: ---Maldito seja quem me roubou as carcias de minha me... e a trouxe a esta penria!... ""

Escrito em 1867 e publicado provavelmente nesse ano pelo editor Manuel Antnio de Campos Jnior, A Bruxa de Monte

Crdova situa-se na 35.- posio da escala cronolgica, tinha Camilo 42 anos.

Alm de vrios lapsos cometidos pelo autor (ex.: chama por vezes frei Joaquim do Vale, a frei Antnio do Vale; frei Antnio do Sepulcro, a frei Joaquim do Sepulcro, etc.), h um, no final do romance, que exige referncia especial.

 o caso de Camilo afirmar que o baro de Burges partira

com a famlia para Frana em 1865, terem-lhe nascido l dois filhos e, de seguida, dizer que em 186 7 o bardo "b dois anos que voltou para Portugal".

Logicamente, o regresso, nas circunstncias registadas, deveria ter ocorrido pelo menos em 1869. Todavia, e apesar das dvidas de Henrique Marques, o romance  de 186 7.

Alexandre Cabral

A

LUS AUGUSTO REBELO DA SILVA

oferece

Camilo Castelo Branco

PRIMEIRA PARTE

A MOCIDADE DE UM HOMEM

1

ANGLICA

Quien viendo tan hermoso sujeto no quedra enamorado? Quien a tan superior belleza no se viera rendido, sin que le faltara el alma,  corriera peligro de insensible?

FRANCISCO DE LAS CUEBAS (Hipolit, y A in.)

O capito-mor de Cabeceiras de Basto morria por ela. Dois frades bentos de S. Miguel de Refojos andavam como

energmenos desde que a lobrigaram na sua igreja.

O juiz ordinrio, o alferes de milcias, o juiz dos rfos, o escrivo das sisas, o boticrio e o mestre-escola farejavam-na, tanto  inveja, que a rapariga, quando eles, um por cada vez, se lhe faziam encontradios, resmoneava, formando com os dedos uma figa oculta:

-Eu tarrenego, diabo! E apertava o passo com os olhos no cho e o credo na boca. Desculpemo-los sem excepo dos frades. Pobres moos!, nenhum ainda tinha vinte e seis anos. Espadados, vermelhaos, beios grossos e rosados, narizes de gua, sadios como duas montanhas! ... frades, sem f, sem esperana, sem caridade!

Desculpemo-los todos; que a culpa no na tinham eles nem ela.

A culpa era o fomes peccati, a "isca do pecado ", boas palavras com que os santos padres explicam uma coisa simplssima que os rouxinis dizem em regorjeados trilos, e os poetas em madrigais de esmadrigadas cantilenas, e os outros indivduos todos, a seu modo, desde o urro atroador do leo hircano at ao guincho estridente da gua do Hermnio.

Anglica Florinda era a tentao, dos homens e dos anjos, inclusos os seres intermdios do gnero humano e dos serafins: os frades.

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Alta, reforada, nalgas e espduas boleadas, breve cintura separando os tumentes seios das ancas macias e rotundas, cabelos em ondas lustrosas de azeviche, as sobrancelhas cerradas e indistintas, olhos pestanudos e piscos, dentes de imaculado esmalte, o beio superior orlado de um debrum penugento, e o inferior carnoso, cor de cravelina. A tez sobre o moreno, com sua zona rosada em cada face. A forma do rosto oblonga, testa escantuda, barba tirante a redonda e fendida a meio levemente no lbulo.

Eu no sei se este debuxo d a perceber os mais donairosos, engraados e louos dezassete anos de rapariga do concelho de Cabeceiras de Basto!

S. Pedro de Alvite era a freguesia dela. Tinha Anglica pai e me, lavradores medianos, conhecidos pelo assento de sua casa no cabeo de um oiteirinho. Da vinha chamarem-lhes: os do Picoto; ou ento, ao pai o Joaquim da Teresa, e  me a Teresa do Joaquim. Tem certa poesia este recproco senhorio dos nomes entre marido e mulher, l nas aldeias, onde nomes e almas, tanto monta, so bem e invejavelmente uma s alma e nome.

A filha, seis lguas em volta, era conhecida pela Anglica do Picoto.

Dizia o tio Joaquim da Teresa que a sua filha no casava com algum dos lavradores que lha tinham pedido, porque um tio materno, estabelecido em Pernambuco, a vira, quando veio  terra, tendo doze anos a moa, e prometera vir casar com a sobrinha, assim que ela perfizesse os dezanove.

Este almejado tio, no dizer do cunhado, media o dinheiro aos alqueires, tinha trs navios e duzentos pretos. Em prova do que, havia j mandado  sobrinha um caixo de caju, pitanga e goiabada, gulosinas que os velhos apresigavam com broa, pesarosos, ao que parecia, de no poderem apresigar tambm um papagaio e um sagui, bichos que distraam Anglica do trabalho '.

O casamento apalavrado era notrio, e mesmo assim os cas' Creio que o termo "apresigar" no corre autorizado pelos dicionalistas portugueses. "Apresigo", nas provncias do Norte, diz o mesmo que " conduto ".  boa palavra, porque tem a chancela do mais clssico povo de Portugal.

A BRUXA DE MONTE CRDOVA                          23

quilhos do concelho e os lavradores solteiros no desistiam de enviar-se  esposa prometida do brasileiro.

-Se ela no estivesse ajustada com o tio-dizia o pai
- quem na levava era o Barnab da botica. Aquilo  que  modo de vida! Com um gigo de ervas e seis garrafes de gua da fonte arranja caroo daquela casta! Anda a o escrivo das sisas atrs da moa: tambm no  mau modo de vida, escrivo; mas eu ladres c na minha famlia no nos admito. O mestre-escola  bom sujeito e devo-lhe obrigaes porque me ensinou a fazer bem ou mal uns garatujos para no assinar de cruz; e ensinou a rapariga tambm; mas tanto lhe faz saber ler como no: o pobre homem no tem tbua sua onde caia, se no for na cadeia... Andam estes badamecos a rentarem-me  rapariga e no se acabam de desenganar! Deus traga depressa meu cunhado a ver se ma deixam; que ela, a respeito de juzo,  at onde pode chegar! Quando algum fidalgote lhe diz praqui pracol, a rapariga, moita! Vocs bem sabem que ela no vai a espadeladas nem festas de ningum. Romarias  l uma ano a ano. O seu regalo  ir s festas de igreja do mosteiro. Isso vai a todas, e raro  o ms que l se no confessa...

Estava mal informado o tio Joaquim da Teresa, no artigo confisso. Anglica Florinda no exercitava to louvveis espiritualidades. s festas ia; mas, fora da Quaresma e jubileus, a

moa parece que andava armazenando fazenda pecaminosa que assoalhasse no confessionrio.

Anglica do Picoto, imitante a qualquer donzela das que pisam tapetes e tm segredos com a Lua, sentia no ntimo peito uma tristeza alegre e uma alegria triste, um bem de que padecia e um mal que a consolava, enfim, um mal que a recreava e um

bem que a afligia: tudo isto cifra na saudade, como S. Bernardo a definiu, e depois do santo muitos  semelhana dele, salvante a

santidade 1.

'Publiquei algures um escrito recenseando os vrios escritores que em

portugus definiram a saudade com as sabidas antteses muito festejadas em

Almeida Garrett. Na escala ascendente lembraram-me, antes do cantor de

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A saudade de Anglica tinha sete anos de corao, enraizara-se, era dor sem esperana de remdio.

Quem no diria, vendo-a florir, nutrir, folgar honestamente? Pois violentava-se a moa. A natureza aformosentava-a, de fora e contra vontade dela; as cores salubrrimas eram dotes da juvenil matria que no tinha satisfaes que dar  alma; se folgava

com as suas amigas, cantando o S. Joo ou outras cantilenas assim msticas,  que a briosa rapariga forcejava por esconder a

sua mgoa dos outros e de si, delindo-a da lembrana.

A saudade, pois, de Anglica Florinda devia de ser ruim, que assim lhe dava pejo de que lha soubessem. Ai!, se era!

Ainda que Deus lha perdoasse, e mandasse anjos a publicar na terra o indulto da pecadora, o mundo no lhe perdoaria.

Porque ela, a querida do juiz ordinrio, do alferes de milcias, do juiz dos rfos, do boticrio, do capito-mor, do escrivo das sisas, do mestre-escola... amava... um frade bento!

Mas este frade no era algum dos dois que andavam perdidos por ela.

Era um terceiro frade de S. Miguel de Refojos. Trs! Que muito, se seria natural am-la o convento todo! Am-la toda a congregao de S. Bento! Amarem-na S. Pacmio, S. Antnio abade, S. Jernimo, o escarnado velho que vencia a

custo as volupturias lembranas das romanas!...

Aquilo era mulher de prova! No conhecia o diabo semelhante tipo, quando o Senhor lhe permitiu atanazar o inquebrantvel Job. Era mostrar-lhe a rapariga... e dispens-lo da lepra. Era dar-lhe umas comiches de alma que se no coam com telha,

O diabo, alm de mau,  tolo, e s vezes "velho parvo",

Cames, o sbio D. Francisco Manuel de Meio, e primeiro que ele Antnio de Sousa de Macedo, e mais antigo Isidoro de Barreira, e mais ainda Manuel Severim de Faria, e mais velho que todos Duarte Nunes de Leo. Parei neste, prometendo esquadrinhar quem ensinou Duarte Nunes. Ultimamente encontrei S. Bernardo. Mais tarde, se Deus quiser, direi onde o santo abade da Claravai achou a galantaria, que se me antolha ser antediluviana.

A BRUXA DE MONTE CRDOVA                          25

como lhe chama frei Joo de Ceita. Anda tanta gente a querer perder-se e infernar-se com as mulheres de certo feitio, e o parvo a dormir, e elas a fugirem da tentao! Entendam-no l!

H uma s explicao que o salva e abona; e  que modernamente os vcios so tantos, em comparao dos antigos, que hoje em dia alguns do mais trabalho a conseguir que propriamente as virtudes opostas. Conservando-se Satans neutral, a

honestidade  a mais barata das granjearias.

Bem no dizem os filsofos: a mulher emancipou-se. A formosa, creio que sim. As outras, duvido.

Figura-se-me que ainda colabora com elas coisa de tentao que as ala ao fastgio donde formosas e feias se despenham. O discrime est em que umas avoejam l com asas do cu, outras vo de gatinhas ou s cavaleiras do diabo.

H

O FRADE

Nuestro corazn es de figura redonda pirarnidal que tienQ Ia punta hacia Ia tierra, y con lo ancho mira el cielo, y de esta manera vive en continuo movirniento, sin haber cosa en esta vida que le pueda quitar, ni descansa     sino quando rnuere.

PADRE JUAN REBELIO (Vida y Comw de Christo)

Toms de Aquino, filho de gente afidalgada de Basto, e vizinho dos da casa do Picoto, era a saudade infantil e o amor do corao adulto de Anglica.

A moa aos dez anos tinha parecenas dos quinze, formas de mulher perfeitamente acabadas.

Toms gracejava com ela sem resguardo de seus pais, que eram padrinhos da galante pequena. Procurava-a nas devesas onde ela pascentava o gado, sentava-se  sua beira, sem testemunhas, e no sabia gracejar. Quedava-se sisudo ou silencioso.

Era a poesia em osso. s vezes inclinava-se sobre o brao direito, meio deitado no relvado, a olhar pelas quebradas e cabeos das montanhas. Anglica parava de torcer o fiado e seguia os olhos dele.

Ao pardejar da tarde, despediam-se tristes; e ao outro dia encontravam-se como amantes desafogados de longas saudades.

Estava destinado ao mosteiro o filho segundo. Chegou o tempo de noviciar. No se despediu dela; que no pde.

Aqueles inocentes afectos ningum os suspeitou. Prometiam acabar na obscuridade do seu nascimento.

Noviciou Toms em Tibes. Findo o ano, professou e

chamou-se frei Toms de S. Plcido. De Tibes transferiu-se para S. Miguel de Refojos a estudar humanidades.

A BRUXA DE MONTE CRDOVA                         27

O frade era taciturno, triste, pouco estudioso; todavia no se

estremava dos seus companheiros em matria de letras. Naquele tempo, 1828 provavelmente, os monges velhos pressagiavam destroo na casa do Senhor, e os novos tinham o ouvido colado  terra para escutar o soturno remugir da cratera.

Frei Toms escutava e dizia aos de sua idade: -Felizes os que nasceram h vinte anos, e gemem cativos nestes crceres do falso deus. Felizes porque eles sero livres pela Liberdade, filha do Deus verdadeiro, o qual, h dezanove sculos, mandou  terra um filho plant-la. A rvore fez-se cruz.

Foi porque a Liberdade, antes de bater a estas portas, tinha de chorar milhes de vtimas crucificadas. Dezenove sculos de lgrimas... Era tempo...

Um dos frades novos delatou estas blasfmias ao prelado. Toms foi repreendido e ameaado de maior pena.

Desde ento, o colegial filosofou em silncio, e odiou os velhos e os novos.

Dois amigos tinha ele: um era um donato, despenseiro do convento. Chamavam-lhe frei Joo do Socorro. Vestira a tnica de saragoa e escapulrio de estamenha no Mosteiro de Refojos para assim viver e acabar sob as telhas em que vivia frei Toms, o menino que ele vira nascer. O sexagenrio frei Joo servira cinquenta anos os avs e pais do monge 1.

1 Os donatos ou leigos eram admitidos sem luz alguma de estudo. Alguns nem ler sabiam; e, pelo muito, o convento lhes concedia aprenderem isso e

nada mais, salvo algum ofcio prestadio  comunidade. Era-lhes defesa com pesadas penas o ingresso na cela dos monges, exceptuado o caso de serem mandados servir algum frade provecto. Sujeito que tivesse compadres no mundo, ou

houvesse prometido casamento, era, pelas Constituies da Ordem, impedido de ser donato. Corria-lhes obrigao de se confessarem semanalmente. Rezavam muito, e por conta, uma hora antes de amanhecer, e jejuavam, como era

costume na ordem, higienicamente para no acumular indigestes. A cama, se

a no tinham melhor da que a regra lha dava. no h para que lha invejemos: era um enxergo de palha e trs mantas, e "durmarn", diz a Const., "com um

escapulrio pequeno cingido". Parece que os frades costumavam matraquear com chacotas estes pobres alvares; visto que a regra manda castigar os monges "que lhes chamarem nomes e os escandalizarem ". Vej. Constitutiones monachorum nigrorum, 1629, e Consi. da Ordem de S. Bento, 1590.

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Do outro amigo, falaremos ao diante. Frei Joo violaria a regra, se a relaxao da disciplina monstica o no dispensasse de engenhar traas de encontrar-se a mido com o seu Toms. O prelado no lhe ia  mo, atentas as raras virtudes de despenseiro econmico e fiei que o donato exercitava.

O velho via o abafado choro do moo e confrangia-se. Falava-lhe em cu, em pacincia, em sacrifcio. O frade agastava-se. Saa o donato com os olhos hmidos, e valia-se do patriarca S. Bento, pedindo-lhe que reduzisse o seu menino  conformidade e amor do hbito.

Frei Toms de S. Plcido viu um dia Anglica na igreja. Estava ele no coro e ela ajoelhada no altar de Nossa Senhora. Reconheceram-se. O frade saiu do coro e Anglica ficou orando.

Passados minutos voltou ele e j a no viu. A comovida moa tinha sado lavada em lgrimas. As vizinhas que a viram passar de rosto baixo no adro ficaram dizendo que a Anglica do Picoto dava em beata.

Recolheu-se frei Toms  cela. Entrou-se de angstias de outra condio mais brava. Dantes reconcentrava-se, padecia, pelejava consigo mesmo, e saa do seu recolhimento com aspeito sereno e resignado por algumas horas. A dor nova era um desesperado desassossego, um abafar, uma constrio que o atirava da cadeira ao leito, do leito  janela, aspirando a sorvos o ar que lhe escaldava o sangue.

O leigo encontrou-o assim nestes transportes de insano. Lanou-se a ele com impetuosa ternura. Rogou, chorou, arrancou-lhe o segredo.

-Vi Anglica! -soluou o frade. - Vi-a... e hei-de morrer sem tomar a v-Ia! ...

Frei Joo do Socorro no se espantou. A inocente amizade do estudante  afilhada de seu amo bem na tinha ele suspeitado. Aquela tristeza do novio em Tibes, onde o servo ia todos os meses, e perguntar-lhe ele se Anglica ainda l ia por casa, se

o tio brasileiro ainda estava na terra, e outras curiosidades, confirmavam-lhe a desconfiana. Falar-lhe nela, bem o faria o leigo,

A BRUXA DE MONTE CRDOVA                         29

se escrpulos o no amordaassem. Contra a paixo pecaminosa do amortalhado moo no ousava tambm frei Joo invectivar. Seria sarjar-lhe a chaga sem a certeza de cicatrizar o que o tempo no tinha conseguido.

Andava o consternado velho agora indeciso entre calar-se e

consol-lo. O silncio no prestava algum beneficio ao seu querido amo; ora, a consolao, como o frade a carecia, encontrava o

nimo religioso do leigo.

Neste meio tempo, Anglica voltou  igreja do mosteiro e

frei Toms de S. Plcido tomou a v-Ia. Deteve-se j imvel a

contempl-la. No fugiu  tentao: alheou de si a conscincia de monge, e fitou-lhe uns olhos amorosos, orvalhados de doce alegria como se fora homem, e dentro do peito sentisse alguma coisa mais sagrada que o hbito exterior.

A moa, depois que rezou  Virgem de sua devoo, sentou-se  espera da missa. A espaos relanava ao coro a vista com o recato e a modo de assustada. Deu tento de que a observavam de l. Reconheceu frei Toms algum tanto afastado de dois monges que tambm a lobrigavam por entre o gradeado de madeira. Temia-se destes, receosa de que a espiassem. E frei Toms, tambm, se eles o observavam de soslaio, voltava o rosto para no dar suspeitas.

Estes frades, guinando com os olhos entre a guapa rapariga e

Toms de S. Plcido, segredavam e sorriam, como se houvessem dado no disfarce dos dois, O discreto monge, desconfiando que os seus espies o delatassem, como j haviam feito das expresses blasfemas arguidas pelo dom abade, saiu do coro e foi espreitar doutra galeria a moa.

Tinha o frade im que norteava os olhos de Anglica. L o

enxergou atravs do rtulo da galeria. Como ela o conheceu! O amor , alm de tudo que est dito, uma coisa que falta dizer:  um telescpio. A saudade dos entes mortos alcana ainda mais pelo infinito dentro. Vem-se as almas na Via Lctea: diferenam-se as asas brancas de um querubim da lumieira alvacenta das mirades de estrelas. Dizem-no os poetas. Vem a prosa e desdenha, matraqueando, estes tresvalios da ptica. Que sabe-

30                CAMILO CASTELO BRANCO

mos ns, raa de aleijados, disso que poetas sabem e vem?! O cego que negasse a formosura de uma veiga de boninas e a copa de uma floresta banhada de luar far-nos-ia d. A cegueira do corao no deixa ver seno o que a cincia infere e a mo apalpa. Dizem por a "corao morto": no  morto;  cego. Eu, quando leio Dante ou Swedenborg, lastimo-me: no veio, no os entendo; e, todavia, creio. F em Deus e f nos poetas que so, uma ou duas primaveras de sua vida, emanaes puras de Deus. F, sem esperana de comungar com eles na mesa eucarstica do seu divino po. Injuriemo-los, se nos ri a inveja; admoestemo-los porque nos atiram flores ao nosso lameiral; apupem-se os plidos videntes que nos esfolham as suas rosas do cu e tecem dos nossos espinhos a sua grinalda; v!, que  prprio da nossa reles condio. Faamos camaradagem com os dois frades que estavam do canto do coro a espreitar, a cochichar e a rir de frei Toms de S. Plcido, bem que o monge no dissesse as suas estrofes seno a Deus.

As harmonias do rgo faziam consonncia s da sua romntica mandora. Se no fosse o rouquejar de algum frade gosmento, cuja garganta faria fugir Santa Ceclia do Cu, frei Toms de S. Plcido cuidaria que na fumosidade dos incensos iam evoladas duas almas pelo alto caminho da glria, a buscarem-se no foco luminoso donde tinham cado. Sem embargo dos catarrosos cantores, trs horas de sonho, de poesia, de luz passaram rpidas na arroubada contemplao do frade.

Anglica Florinda foi a ltima mulher que saiu da igreja. Frei Toms tambm ento saiu da galeria. Caminhava, como se o espertassem do primeiro sono, ao longo do dormitrio. Per~ passou pelo dom abade sem parar nem inclinar-se na reverente postura das Constituies. Isto feriu o esprito disciplinar do prelado e foi discutido na residncia abacial.

III

OS ESPIES

Sem amor e caridade, os mosteiros so inferno, e os

que neles moram so demnios.

FREI FAUSTINO DA MADRE DE DEUS (Florilgio **Espi,*.al)

Os dois frades colegiais, que andavam sempre malsinando frei Toms, eram pontualmente os mesmos espies do coro. Um chamava-se frei Joaquim do Sepulcro e o outro frei Antnio do Vale. O primeiro era sobrinho do abade: bajulavam-no todos em

lisonja do tio. O segundo era filho bastardo do marqus de Ponte do Lima: acatavam-no com respeito do sangue, e honra que adivinha de tal sujeito  congregao beneditina. Irmanavam-se os dois a primor de bestas consumadas. Andavam como

presos e ajoujados pelo tamanho das orelhas. No se apartavam um do outro seno  hora em que o preceito mandava cada frade a seu cubculo. De dia, raro iam ao refeitrio. Tinham eles guloseimas nas celas, onde, derrogadas as Constituies da Ordem, faziam manjedoura comum.

Frei Antnio do Vale, filho de uma fidalga da vila da Barca, recebia semanalmente de sua me uma canastra recheada de garrafas de ptimo Douro, de fiambre de Melgao, de frigideiras bracarenses, de lampreias e salmes de Viana no tempo, de todas as famigeradas comezainas de cada terra. O dom abade aquinhoava destas lambarices e mandava a sua paternal bno  me de frei Antnio.

Bem  de entender quanto poderiam com o prelado as insinuaes dos dois inimigos de frei Toms. A origem destas desavenas deram-na eles, acusando-o de mpio e profeta da runa dos mosteiros. Depois, foi frei Toms que lhes acendeu a raiva, desprezando-os. Por derradeiro, acerbara-lhes o dio o apareci-

32                CAMILO CASTELO BRANCO

mento de Anglica, o sentirem-se ambos cativos da estranha lindeza da rapariga, e o verem que ela,  sada da igreja, estivera no

adro conversando com o frade leigo, antigo criado e amigo de frei Toms de S. Plcido.

Com efeito, frei Joo do Socorro, tendo na mente empecer ao progresso da paixo de seu amo, achegou-se de Anglica e brandamente lhe pediu que no viesse s festividades do mosteiro, se

no queria mortificar o pobrezinho de frei Toms.

Anglica no se fez de novas nem fingiu espantos. Desatou a chorar, escondendo o rosto nas pontas do leno de seda. Palavras nem uma nem duas. Ficou entalada, e estugou o passo a fugir dos olhares de muita gente que via o lano de avizinhar-se dela o donato.

Recebeu logo o dom abade dois avisos a um tempo; a saber: que uma bela moa de S. Pedro de Alvite estivera em colquio amoroso de olhos com o colegial frei Toms de S. Plcido; e que frei Joo leigo estivera no terreiro conversando com ela.

Foi o donato chamado  cela do abade e mandado, em virtude de santa obedincia, declarar o que tinha que dizer  rapariga. Frei Joo expendeu com lisura de bom homem o que dissera e o fim para qu. Referiu o amor infantil de frei Toms  moa, e as saudades que o entristeciam e lhe amarguravam a vida claustral.

O prelado absolveu e elogiou o leigo, recomendando~lhe que aconselhasse o filho de seus amos a no dar escndalo na casa e a ser bem criado com seus superiores e companheiros, se no queria ir mudado para Travanca ou S. Romo de Neiva, onde se amaciavam as asperezas dos indceis.

O leigo, com os olhos turvos de lgrimas, entrou no cubculo de frei Toms. Encontrou-o no leito, de bruos, com o rosto sobre o travesseiro e as mos enclavinhadas no alto da cabea. Chamou-o do umbral da porta. O frade sentou-se de golpe e disse:

-Entre, frei Joo. Estava ansioso pela sua vinda. Falou com Anglica... eu vi... Que lhe disse?

-Que no voltasse  nossa igreja -respondeu austeramente o leigo.

A BRUXA DE MONTE CRDOVA                          33

-Porqu?! -acudiu o frade. -Que interesse tem frei Joo que ela aqui no venha?! Isso  uma crueldade estpida! ... Fez bem! ... Agora... saia daqui... e deixe-me! ... Que amigo!. .. Restava-me confiana neste homem que me viu nascer... At ele se bandeou do lado da minha desgraa! ... Pois que mal lhe fazia que Anglica viesse  igreja? ... Responda!

-0 mal no mo fazia a mim       ... a Vossa Paternidade muito grande... -respondeu o leigo. -Se no fosse ela, o meu amo

estava manso e quedo na casa de Deus.

-No lhe admito reflexes prvoas! -interrompeu desabrido o colegial. -V cuidar nas suas obrigaes, e faa de conta que me no conhece mais que aos outros frades...

-Senhor frei Toms... -tomou choroso e humilde o irmo leigo.

- Apre! -exclamou o monge esmurraando a banqueta. -Aqui nesta casa no h seno hipocrisia, ferocidade e estupidez! Casa de Deus... isto! Fora com a blasfmia! Vejam este homem que se meteu leigo para me ser til e consolar-me nesta vida cruel! Todos a flagelar-me... e ele mais que nenhum! Ningum se atreveu  violncia de mandar Anglica no voltar  igreja! Foi este meu particular amigo quem tomou  sua conta executar o tormento que ainda me faltava, sabendo quanto eu

era menos desgraado somente porque a via! Que perversa caridade foi essa sua, homem! -continuou frei Toms trejeitando desabridamente. - Quem o mandou pregar moral  rapariga?!

-Ningum, senhor frei Toms... Fui eu, por cuidar que fazia bem cortar a tempo a desgraa... -respondeu o leigo, com

respeitosa brandura. -E Deus tenha misericrdia de Vossa Paternidade, se o cobro que eu quis pr na sua paixo no remediar o mal...

- Que mal? - atalhou iracundo o monge. - Faltei s obrigaes de frade? Apostatei ou fugi da religio? Escandalizei algum destes santos que trazem Deus na boca e o demnio do dio no corao?

-Fale baixo, pelo divino amor de Deus! -acudiu o leigo, achegando-lhe dos lbios a mo trmula. -Fale baixo, senhor

34                CAMILO CASTELO BRANCO

frei Toms; que na casa do senhor dom abade repete-se tudo que Vossa Paternidade diz...

-Que me faz isso?... -insistiu o desvariado moo. -Pois, se me ouvem, que me respondam, j que voc no sabe o que h-de responder! Digam-me em que tenho ofendido as Constituies da Ordem? Digam-me que fiz eu para andar aqui feito pela atirada dos hipcritas para os idiotas, e dos devassos para os

virtuosos que os protegem? Quero saber isto! Quero que me expliquem os privilgios de frei Joaquim do Sepulcro e de frei Antnio do Vale. Porque tm eles banquete na sua cela, dispensa do coro e licenas frequentes de ir a ares? Os espies so assim galardoados na casa do Senhor? Ento vistam-me c tambm a libr dos servos de Satans, e corram os ferrolhos deste crcere que me quero ir l fora penitenciar com o sobrinho do abade e com o filho do marqus de...

- oh, senhor... - suspendeu o leigo afligidssimo. - Quer-se perder!, quer-se perder! ... misericrdia, meu Deus!

- Perdido estou! - bradou o frade -, perdido para esta vida e para a outra! So dois infernos que eu ganhei sem ter merecido nenhum!  isto o que meus pas me deram com a existncia! ... Se no era mais de agradecer que me estrangulassem no

bero! Era eu de mais para viver na casa onde nasci? Matassem-me, como se faz aos cachorros, quando a me no pode sustent-los todos! Esto aqui abertas estas voragens para engolirem os repulsos, os enjeitados do abrigo de seus pais. No  mais que vestir-lhes uma mortalha e dizer: "Morrei para a, envelhecei aos vinte anos; saia-vos o corao pelos olhos desfeito em lgrimas de sangue; amordaai-vos, porque Deus no quer vtimas que gritem; se tendes fogo na cabea, atirai com ela  peanha da cruz que  de rocha glacial... morrei para a... enquanto vossos irmos gozam muita vida, a sua, a da esposa, a

dos filhos!, morrei para a, vs, condenados por Deus que vos

fez nascer depois de vossos irmos! "

A voz do frade subia ao compasso da ira. Aos corredores dos dormitrios ia j saindo das celas a fradaria espantada, afilando a

orelha ao ponto donde soava a toada trgica de frei Toms de

A BRUXA DE MONTE CRDOVA                          35

S. Plcido. O leigo assomara tambm a cabea a espreitar as barandas da claustra; e, como visse j os monges em grupos, retrocedeu espavorido, ps-se em joelhos diante do alucinado colegial

e murmurou:

-Menino do meu corao, oua-me pelas cinco chagas de Jesus Cristo! No diga mais palavra, que eu lhe prometo que Anglica h-de voltar  igreja, tantas vezes quantas Vossa Paternidade quiser. Vou eu mesmo falar com ela, se for necessrio. Estou pronto para tudo, quer a minha conscincia escrupulize, quer no! ...

Frei Toms levantou nos braos o ancio, estreitou-o ao seio comovido e balbuciou:

- Perdoe-me, por quem , frei Joo! Vossemec no pode entender o amor que eu tenho  pobre Anglica...

-Fale baixo que est ali fora gente... -interrompeu pressurosamente o leigo.

Toms, levado de sua raiva aos escutadores, chegou ao limiar da cela, alongou a vista coriscante na extenso do dormitrio, e

viu que os espias mais convizinhos eram frei Antnio do Vale e frei Joaquim do Sepulcro. Ia transpor o umbral com desatinado propsito, quando o leigo o teve pelo hbito e tirou dentro a repuxes.

Frei Joaquim, o filho do marqus, voltou-se galhofeiro para o seu amigo e disse:

-No te pareceu, Vale, que ele fez um gesto de remessar-se

contra ns?!

-E c o tnhamos, se o no puxam de dentro!... - confirmou frei Antnio.

-Oh!, que fanfarro! -gargalhou o frade fidalgo esfregando as costas da mo esquerda com a palma da outra. -Ento o

homem  pimpo, pelos modos! ... Quem me dera amansar um daqueles touros! ...

Frei Toms escutava e ouviu a chacota, sem embargo das engenhosas diverses com que o leigo intentava lev-lo ao fundo da cela.

36             CAMILO CASTELO BRANCO

Tremia o monge com os cabelos arriados, e frei Joo retinha-o em apertado abrao.

Os outros no entanto saram do dormitrio, casquinando, e

entraram  cela do dom abade, compondo os semblantes hipocritamente.

IV

PERSEGUIO

Ora vedes a batalha que homem tem em seu estado.

FREI JACOPONE (Verso de Frei Marcos de Lisboa)

Frei Toms foi chamado  presena do prelado. -Que algazarra  essa na sua cela?-trovejou o abade.-Esta casa  mosteiro ou taverna? A comunidade sups que o senhor frei Toms estava estudando papel de tragdia. Que declamaes eram aquelas, senhor!?

- Queixava-me da minha m fortuna, nosso Padre Reverendssimo - respondeu humilde o colegial.

- Queixava-se? -replicou o abade.-E eu tambm me queixo da sua douda cabea e m educao, senhor frei Toms! A boa fortuna, que Vossa Paternidade queria, bem na sabe o convento escandalizado... Pois tenha pacincia. As janelas desta casa no so mirantes de enamorados: percebeu, senhor frade beneditino?... Calo-me por vergonha minha e sua... Outra cousa: o senhor frei Toms fez uns rompantes ameaadores contra alguns companheiros seus?

-Quis perguntar-lhes com que direito me espiam. -E com que direito ia Vossa Paternidade interrog-los? -Com o direito do meu pundonor. -Qual pundonor? -bramiu o prelado, levantando-se inteirio e vermelho de santa ira. -Aqui, a serpe da soberba, disfarada em pundonor, decepa-se com a espada da obedincia. Leia a Regra de So Bento, j que bazofeia de to letrado, senhor frei Toms... Numa palavra: valentes c no nos consinto. Se as foras lhe pedem folia, v abat-las no trabalho agrcola: tem muito onde as exercite a na cerca do mosteiro. Esta  a segunda

38                CAMILO CASTELO BRANCO

admoestao caritativa. No se fie na minha pacincia, senhor! A terceira, no darei tambm o escndalo da minha tolerncia...

- Permitia Vossa Reverendssima - disse o frade serenamente -que eu leve a nota das culpas em que incorri para me

saber emendar.

-A ignorncia, se no fosse fingida, seria bruta, senhor frei Toms. As suas culpas so das que andam numeradas nos sete

pecados capitais...

- Oh, senhor dom abade... -atalhou o colegial com irnico espanto.

- E ri-se?! - acudiu o prelado rijamente. - Pois este seu desprezar os seus condiscpulos que , se no soberba?

-  apenas acautelar-me das pssimas manhas deles, desde que me vieram acusar de ateu e impio  presena de Vossa Reverendssima.

-E o senhor colegial que queria? Catequiz-los com as suas

doutrinas revolucionrias?

-No, senhor: queria expender os meus erros a fim de que mos corrigissem caridosamente; no, porm, erros em matria de f ou disciplina; que no dei azo a que me taxassem de mpio ou indisciplinado. Se errei, foi meramente em poltica e governo.

- Que tem o senhor frei Toms com polticas e governos? - obstou o abade. - Que anda aqui o estudante de filosofia a pespontar de repblico, assim a modo de reformador do mundo? Vossa Paternidade no sabe que os revolucionrios do Porto so os pedreiros-livres?, os jacobinos?, os inimigos de Deus e do rei?, do trono e do altar? Responda a isto!

-Em Frana, onde os jacobinos se geraram, h Deus, h rei, altar e trono-replicou brandamente o colegial, amenizando a contradita com o tom doce das palavras.

-Que vem a dizer na sua? -Que a mudana nas instituies humanas no pode abalar as virtudes da terra, e ainda menos as cousas divinas. Penso que um zelo indiscreto faz Deus mais pequeno do que ele .

-Zelo indiscreto o meu?-bradou o prelado crescendo

A BRUXA DE MONTE CRDOVA                           39

para o frade. -A sua audcia  singular! Retire-se  sua cela, donde no sair sem minha ordem.

Frei Toms de S. Plcido fez profunda reverncia e saiu.
O abade limpava as camarinhas do suor. Que o frade colegial afrontasse Deus, rei e altar, inda v, atrever-se porm a matraquear a discrio do prelado, estorcegando-lhe a unhadas de ironia o amor-prprio, era essa uma injria imemorial, indita e sobre-horrenda no cenbio de S. Miguel de Refojos.

Corridas duas horas, foi o colegial intimado para ir ao refeitrio, depois que a comunidade tivesse sado da mesa.

Frei Toms respondeu que muito deveras agradecia ao seu prelado o favor de o separar de semelhantes comensais. A injria bateu na cara do convento em cheio. Todos os frades,  excepo de frei Jacinto de Deus, velhinho mui solitrio, pediam castigo exemplar. Ningum, salvo aquele, perdoava a injria pelo amor de Deus. A fradaria remexia-se de cela para cela, resmoneando pelos dormitrios e agrupando-se no claustro e cerca, j incitando o prelado a processar o criminoso, j conjurando-se para o acusarem de remisso ao dom abade-geral, residente no

Mosteiro de Tibes.

O leigo frei Joo ainda chegou ao limiar da casa abacial no intento de ajoelhar aos ps do prelado, exorando o perdo de frei Toms de S. Plcido; mas faleceu-lhe o nimo quando viu,  volta do abade, muitos dos mais venerandos monges requerendo que se instaurasse processo ao colegial injuriador dos cabelos brancos de seus superiores e mestres. Quedou-se o leigo em p, defronte da porta, com as mos sobre o peito e as faces cobertas de lgrimas. Deu tento dele o abade, mandou-o entrar e bradou-lhe asperamente:

- Olhe l, frei Joo do Socorro: quem entrar  cela de frei Toms sem licena minha,  removido ou despedido desta casa.

-Pois, nosso padre -disse o leigo inclinado profundamente -, licena venho pedir a Vossa Reverendssima para ir  cela do senhor frei Toms.

-No lha dou.

40              CAMILO CASTELO BRANCO

- Peo-a pelas chagas de nosso Senhor Jesus Cristo volveu soluando o leigo.

-No lha dou! - recalcitrou o abade. -Que lhe quer?
- Aconselh-lo  obedincia, nosso padre. -L tem as Constituies da Ordem Beneditina que o aconselhem: que as leia. V em paz, frei Joo, e... olhe por si ...

O leigo, feita a reverente curvatura, saiu s recuadas.

v

UM AMIGO

Queda-se riendo el demonio de veros errar tan neciamente.

FREI JOAN MARQUEZ (L@ Dos Estados)

Foi instaurado o processo. Desde a querela at  sentena condenatria, frei Toms de S. Plcido esteve como preso no seu quarto. Condenado a seis meses de priso, passou a cumpri-los no crcere do mosteiro.

No  desprezvel curiosidade a indagao dos passos de uma

causa-crime nos tribunais monsticos. Brevemente se nos apropositar a lano de nos determos a examinar as peas de outro processo mais funesto para o malquisto beneditino.

Seis meses de crcere, exceptuadas as horas de coro; privao de livros, tirante o brevirio e a regra do patriarca de S. Bento; solido e incomunicabilidade; jejuns quotidianos, e confisso no primeiro domingo de cada ms: eis a sentena.

Frei Toms comeou a cumpri-Ia animosamente. Dizia-lhe o

confessor frei Jacinto de Deus que se lanasse aos ps do dom abade, suplicando perdo. O frade respondia:

-Se mereo a pena, sou obrigado a lev-la at onde ma impuseram; se a no mereo, dever eu  misericrdia o que me deve a justia, no quero.

O aspecto do preso significava conformidade, sossego e at contentamento de mrtir. Quando entrava no coro, ia de rosto alto, sereno e como a transluzir a interior alegria. Inclinava-se levemente diante do prelado e mais jerarquias do mosteiro'.

1 Chamavam-se jerarquias, alm do dom abade, o prior, o subprior, o mestre de irmos, os professores, etc.

42                CAMILO CASTELO BRANCO

Orava com aparente recolhimento, murmurava os salmos sonorosamente como se recitasse a prazer versos virgilianos, saa do coro a passo mesurado e descia ao crcere.

Ao segundo ms de priso, foi-lhe permitida licena de pedir alguns livros para estudo e devocionrios. Frei Toms respondeu que sabia o padre-nosso, orao composta por Jesus Cristo. Que no queria outra cincia nem outra orao.

Pediu o preso licena para escrever a seu pai. Concedeu-se-lhe condicional: a carta iria aberta  mo do prelado primeiramente. Aceitou o partido o colegial. Escreveu assim:

Meu pai, estou preso porque no sou bom frade, O crcere no poder corrigir os aleijes da minha ndole. Serei sempre mau religioso, e nunca poderei ser bom homem. Peo-lhe que concorra para a minha sada do convento. Em sua casa poderei ser um homem til e respeitador da religio em que fui criado. Aqui, onde entrei contra vontade, lutarei sempre contra a violncia; e serei, ao mesmo passo, escndalo e vtima. Jesus Cristo no me quer assim, nem eu posso servi-lo dignamente. Se u filho

Toms de Aquino

O dom abade leu a carta aos frades mais autorizados e pediu conselho. Acordaram em que se deixasse passar ao seu destino, acompanhada de um monge informador.

O pai de Toms, lida a carta e ouvidas as informaes, entrou num quarto, donde o frade informador saiu com esta resposta:

Meu filho, quem no serve dignamente o Senhor na sua casa, entre santos e respeitveis ministros, tambm o no pode servir c fora, entre moos contaminados e corrompidos da podrido deste sculo. Sei que j l te chegou a peste dos inimigos do altar e do trono. Choro a tua molstia, e fio a cura da piedade de

A BRUXA DE MONTE CRDOVA                           43

Deus e misericrdia de teus mestres. Agora mais preciso  que as suaves leis dessa venervel religio te cortem as asas, e te reduzam  cordura, Ai de ti, se te deixassem voar agora, Irias direito ao abismo onde o demnio leva os perdidos da tua condio. Com o meu consentimento no irs, meu filho. Essas contas no mas h-de pedir Nosso Senhor.

Humilha-te diante do teu santo prelado, a fim de que ele te d por acabada a justa punio de tuas faltas. Sei que o virtuoso dom abade te perdoar, Depois, no recaias no pecado da soberba, que foi o que despenhou os anjos no inferno, Sem mais. Recebe a minha bno e a de tua me. Teu pai

Simeo de Aquino

Lida a resposta, frei Toms dobrou a carta lentamente e disse ao confessor que lha levara:

-Est bem redigida. Meu pai, nesta carta, s tem o merecimento de bom copista. Quando ele me escrevia de sua lavra, as expresses eram rsticas, mas at certo ponto paternais. Neste palavrrio emprestado rev a dureza hipcrita... de algum dom abade...

-Sio!-sibilou o padre confessor perfilando o indicador com o nariz.

Frei Toms sorriu-se e murmurou: -Que me importa a mim espies? Bem sei que me escutam. A lepra deles tresanda de longe. Dou sempre f quando as

duas bestas regaladas do mosteiro se espojam por perto deste crcere...

 de saber que frei jacinto de Deus tinha d sincero do colegial. Em confisso e fora dela, o trato ntimo com o preso afigurara-lhe uma alma, rebelde sim, todavia sem mancha nem culpa de gravidade que precisasse cauterizada por to fundo. A rija tmpera daquele esprito cuidava o reflectido monge que valeria mais o jeito e a caridade a quebrar-lhe as asperezas; ao mesmo passo que as soberbias da inteligncia cumpria dobrar-lhas

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com armas da razo, alumiando-lhe as veredas da f e desfazendo-lhe os argumentos colhidos nalgum livro racionalista dos que por l estavam mal escondidos na livraria 1.

Estas generosas ponderaes inclinaram  piedade o nimo do velho monge, que a mido visitava o preso, motivando esta assistncia com razes espirituais. Por amor de suas advertncias  que o prelado se amaciara e pendera a dar-lhe alta da culpa, pedindo perdo na presena da comunidade ofendida. Frei Jacinto de Deus instava ao justo acto de humildade o colegial; e, rebatido sempre com argumentos de pundonor, no sabia decidir-se entre repreender-lhe o orgulho, e maravilhar-se tacitamente de to desusados brios.

A compaixo gerou a estima. Frei Toms de S. Plcido sentiu-se querido do monge mais grave do seu mosteiro. Recebia-o j com alvoroo, abraava-o com veemente transporte, e s de ver-se olhado com amizade e d no podia ter as lgrimas.

O ancio fechava-se com ele. Dava-lhe largas ao desabafo, atalhando-o to-somente, se a voz alterada pelas comoes do dio podia chegar  cela do dom abade, mediante os espies. Debatiam placidamente em controvrsia religiosa. Frei jacinto sabia a Suma de S. Toms; o colegial sa a ao combate com as vidrentas armas da sua razo. Era luta desigual; todavia to renhida e de to incerta vitria que no seria fcil ao auditrio, se os

dois o tivessem, decidir qual dos contendores denotava melhor engenho em baldear a verdade do poo. Por fim de longas e inteis pelejas, os controversistas apartavam-se. O frade velho saa triste; e o novo ficava, alm de triste, opresso da angstia da dvida, olhando como aterrado para o golfo da descrena,  volta

1 Alguns livros franceses do sculo XVIII se tinham derramado pelos mosteiros beneditinos, enviados desde o Gro-Par, pelos anos de 1760, por o bispo dom frei Joo de S. Jos Queirs, frade da Ordem de S. Bento. Possumos a carta autgrafa que acompanhava a remessa ao Mosteiro de S. Bento de Lisboa. Honra, porm, se faa ao cauteloso bispo, que ferventemente recomenda que os

livros proibidos se devem vedar aos espritos novos e incapazes de os digerirem e remastigarem, sem dano da f.

A BRUXA DE MONTE CRDOVA                          45

do qual havia de regirar os longos anos de sua escura vida de monge.

O condodo confessor, escondendo do dom abade os sentimentos afectuosos que o alianavam ao preso, e bem assim a censura  injusta sentena, apenas, como director espiritual dele, inculcava ao prelado o bom natural do moo, capaz de virtudes, se a malquerena lhes no secasse os embries, assoprando na alma do colegial desestimado a chama do dio.

No quadrava este juzo ao parecer do prelado; todavia, o venerando confessor tinha por si meio sculo de bom frade e juiz previsto das conscincias, no obstante a pecha de tanto ou

quanto jacobino. Por amor, pois, de frei Jacinto de Deus  que o

dom abade se descera da sua severidade e amolecera tanto que se

no contentou com menos de mandar sair do crcere frei Toms de S. Plcido, sem ressalva de perdo pedido em joelhos, nem

penitncia leve em comutao da pena.

O colegial, quando um donato lhe levou a boa nova, perguntou:

-Vem para aqui algum preso incomunicvel? -No senhor. -Ento, se no  preciso que eu ceda a casa a outro, deixem-me estar, que j me habituei a isto. Os inimigos no descem at aqui, e folgam de me c terem. Melhor  que nos no vejamos.

Estomagou-se o abade com o menospreo da sua indulgncia. A maioria dos conventuais votava que se deixasse o insolente preso acabar a sentena, e depois fosse removido para outro mosteiro. Contraveio frei Jacinto, patrocinando o colegial. Dizia ele que se acautelassem os bons religiosos de estar com demasias de justia humana piorando a condio e gnio de um mancebo que tantos inimigos granjeara com simples imprudncias de sua idade.

Vociferaram os queixosos contra o velho, impedindo a continuao da defesa. Frei Jacinto escutou-os com pacincia de pomba e sorriso de piedosa lstima. Enfim, aplacado o falario irritado

46               CAMILO CASTELO BRANCO

dos monges negros, o confessor, voltado ao dom abade, concluiu:

-Razo tem frei Toms. Est mais com Deus, e menos

com os homens, quem se afeioou  solido do seu crcere, Deploremos do corao que um crcere seja o melhor abrigo na

casa de So Bento.

Frei Jacinto, ao outro dia, foi mandado residir no montanhoso Mosteiro de Alpendorada. Frei Plcido chorou, quando lhe disseram que o piedoso ancio se no despedira dele, porque o

prelado assim lho ordenara sob santa obedincia.

vi

A PROLA E LUSTRE DA CASA

Verdadeiramente religiosos so aqueles que vivem conforme  razo, e no se deixam tiranizar dos sentidos e das paixes.

PADRE JERNIMO LVARES (Vida do Bwto Lujs G.oug.)

Cumprida a sentena, frei Toms de S. Plcido recebeu ordem de preparar-se para, no termo de trs dias, mudar para o convento de Santo Tirso. O colegial respondeu que dispensava o excedente de trs quartos de hora: que estava sempre preparado. Redarguiu-lhe o abade, mediante o prior, que recebesse e no glosasse as ordens. Procedia a delonga de no haver frade que quisesse, sob sua responsabilidade, acompanhar o colegial:  que receavam que ele projectasse fugir. Alvitrou o prelado que o

acompanhassem dois frades. Nem assim. Em honra, porm, da comunidade de S. Miguel de Refojos,  justo estremar da nota desairosa de covardia dois monges que se ofereceram, cada um

per si s, a conduzir frei Toms, com os braos inteiros ou quebrados, a Santo Tirso. Eram frei Antnio do Vale e frei Joaquim do Sepulcro, o filho do marqus de Ponte de Lima. O prelado no condescendeu: um dos valentes era seu sobrinho; o outro

era a prola e lustre da casa.

Comeava a inquietar-se o dom abade, quando frei Joo do Socorro, o leigo, se lhe foi oferecer para conduzir o filho de seu

amo a qualquer parte.

-E frei Joo afiana-mo? -disse o prelado. -Sim, nosso Padre Reverendssimo; ponto  dizer o senhor frei Plcido que vai.

-Veja l, frei Joo! Olhe que ele, se fugir,  logo trazido aqui pela justia, e o irmo leigo  expulso. Convm-lhe a condio?

-Sim, senhor dom abade.

48                CAMILO CASTELO BRANCO

-Pois v dar-lhe parte que amanh  a sada. Frei Joo, privado seis meses de conversar com o colegial, quando agora o abraava, rompeu a represa das lgrimas e das expresses cariciativas. O moo consolou-se de ver o seu comovido criado; e, galhofando dos infortnios prprios, forcejava por aquietar os transportes do velho, pasmado e consternado da magreza do seu menino.

- Sabe alguma cousa de Anglica? - perguntou ele ao ouvido do donato.

-Ai!, senhor! -murmurou frei Joo. -Tenho muito que lhe contar... Aqui no... Amanh pelo caminho.

-Pois que ?-atalhou impetuosamente frei Toms.
- Falou-lhe? Ela sabia que eu estava preso?...

- No me pergunte nada nesta casa... Eu j me tinha ido daqui, se o menino c no estivesse... Tenho sido mortificado pelos dois senhores que tudo mandam...

-Frei Antnio do Vale e... -0 filho do fidalgo... Esteve l fora dois meses com licena... O senhor frei Joaquim chegou a querer roubar Anglica da casa dos pais com uma malta de malvados. Veja que frade! ... Amanh, amanh lhe contarei tudo...

Ora, corno provavelmente o leigo perde a ocasio nica de contar ao enraivecido colegial o rapto malogrado de Anglica, sumariemos o que foi, a fim de que a razovel curiosidade do leitor no corra os azares da de frei Toms.

Passara assim o caso. Frei Joaquim do Sepulcro fora apanhado fulminantemente pela formosura da rapariga.

Estas paixes de fateixa, se no andam muito contadas a respeito de monges negros, so sabidas, e por tanta maneira triviais, que j nos romances, correm perigo de no darem pgina que preste. De frades, e do efeito dos amores de afogadilho sobre eles  que nos escasseiam notcias.

O amor rebentou como postema na arca do largo peito de frei Joaquim. Qualquer outro colegial, menos afoito dos seus caprichos e menos bajulado  conta de sua origem, ou abafaria a paixo, ou com esperanas a iria alimentando at soar a hora de

A BRUXA DE MONTE CRDOVA                         49

atirar o monstro fora do sacrlego seio. No eram raros os abortos desta raa que saam e devoravam  tripa-forra. O filho do marqus, porm, escaldadas as artrias de sangue velho, e por isso,  imitao do lcool, mais inflamvel, pediu e obteve logo licena para ir passar uma temporada com sua me, na vila da Barca; mas, antes de ir a sua casa, deteve-se na vizinhana da cas do Picoto, hspede duma famlia aparentada de seu pai.

Viu Anglica, de perto, mais adorvel, mais estimulante. Buscou azo de encontr-la ao alcance das mos que se atreveram a passar maciamente nas faces da moa. O stio era deserto, no recosto dum pinhal, onde a pegureira vigiava o gado. Anglica, mais irada que temerosa do insulto, lanou mo da tamanquinha ferrada e prometeu cambiar com ela as carcias do frade. Sobrava em frei Joaquim amor para perdoar tamanha injria. Queixou-se da ingratido, desentalou-se da vergonha, suspirando, e falou to ardentes cousas  rapariga, que uma s nos basta para entender a pujana da cobia libidinosa do monge: prometia-lhe ele anular os votos, e casar, se ela quisesse acompanh-lo para Espanha e de l para Roma, onde iriam pedir dispensa ao Padre Santo.

Anglica escutava, fiando serenamente, a parlenda do frade. Se ele, na veemncia declamatria, avanava um passo, recuava outro a rapariga, olhando de esconso sobre o calhau mais ajeitado para a defesa. Quando frei Joaquim arredondava o perodo com uma pergunta, tal como:

-Anglica!, meu bem!, porque me no ama, se eu quero faz-la minha esposa?

A moa respondia:
- V-se embora, homem... Deixe-me! Ousou ele, j enfadado e vexado da resistncia, amea-la de nunca mais ver frei Toms. Anglica, abraseada em clera, olhou  volta de si e exclamou:

-Estou aqui estou a dar-lhe com uma pedra na cara. V-se com Deus ou com o diabo, e no me aparea mais!

O monge negro balbuciou algumas palavras com afectada pacincia, e retirou-se no seu trajo de taful caador.

A vergonhosa repulsa no valeu a cicatrizar-lhe a chaga cada hora mais apostemada. Confidenciou aos parentes e scios de

50                CAMILO CASTELO BRANCO

suas manhas o xito infausto da tentativa. Disseram-lhe que a

moa era inexpugnvel: o mesmo foi ervar-lhe os acicates do amor. O frade raivava; chorar no podia; que as lgrimas no se

apuram de sangue empestado por desejos bestiais.

Lembraram-lhe histrias dos seus avoengos -umas histrias que as crnicas no contam: raptos, violncias, escaladas s alcovas maritais, desonras chatinadas com alguns punhados de ouro pirateados na sia e frica; enfim, lembrou-se que era raa de Abreus e Limas, recheados de costelas reais.

Ia j alto o dia da civilizao. Vinham tardias ao filho do marqus as memrias feudais de seus avs:  que o estpido frade no vira as alvoradas do sculo, saudadas pela revoluo de
1820. L dentro do mosteiro era ainda noite fechada. Hipcritas, fanticos e virtuosos tanto sabiam uns como outros da vida nova do sculo. Os ltimos choravam de boa f, atribuindo aos segundos a catstrofe comum. Os hipcritas, da laia de frei Joaquim, deploravam a queda do mosteiro, forte e luxuosa alcaaria onde se acolhiam a seguro os bandoleiros, a refocilar-se das enchentes da libertinagem, na qual cada frade se reconhecia no s igual a um homem, seno a dois.

Frei Joaquim gizou um rapto, no estilo do sculo XII; um

assalto de servos de gleba com alabardas, uma invaso ao santurio da famlia, o travar da moa chorosa, assent-la no aro da sela, cingi-Ia bem aconchegada do peito, e transmontar vales e montes  desfilada. Isto, para frade beneditino, era arrojadio, e

at original nos anais monsticos da famlia de Abreus e Limas.

No qual propsito, foi para casa de sua me a ordenar a algara, composta de criados pimpes e faanheiros. Ao mesmo tempo, como a filha de Francisco da Teresa se queixasse do atrevimento do frade fidalgo, alvoroaram-se os nimos do boticrio, do escrivo das sisas e do mestre-escola. O boticrio, principalmente, que era liberal e j tinha escrito correspondncias para o

Azemel de Guimares, invectivou contra a desmoralizao dos frades, exemplificando-a com o facto de se andar em trajes venatrios um monge bento apalpando Anglica e solicitando-a com prometimentos absurdos.

A BRUXA DE MONTE CRDOVA                                   51

A botica constituiu-se atalaia diurna e nocturna donde a honra da moa era vigiada. Conjuraram neste zeloso conluio os

trs mulos, como se o defend-la fosse proveito e honra comum de todos. O lavrador precaviu-se contra algum lano dos que no eram raros naquelas terras, assoberbadas de paos senhoriais e dissolutos morgados. Maior medo lhe incutia o velhaco boticrio a ver se o velho se resolvia a dar-lhe a filha ameaada. Nem assim, porm. A palavra dada ao cunhado brasileiro era inquebrantvel.

Os parentes do frade, vizinhos da casa do Picoto, haviam prometido ajud-lo no rapto. Um dos servos convidados para o assalto, como devesse obrigaes ao boticrio e lhe soubesse do afecto  rapariga, segredou-lhe o plano dos fidalgos e a noite da escalada. O farmacutico reuniu gente animosa, e alapardou-se nas vizinhanas da casa, 'esperando conquistar a moa em prmio do herosmo com que ia pr em perigo sua vida na defesa de Anglica.

s nove horas duma noite de janeiro a **jolda acaudilhada pelo frade acercou-se da casa do lavrador. Apenas apearam dos cavalos e se encaminharam para o quinteiro, o sino e a sineta da igreja paroquial tocaram a rebate ao compasso da arcabuzeria do bando do boticrio, que se desemboscara do mato, em grande algazarra.

Frei Joaquim do Sepulcro, aterrado da surpresa, cavalgou e

deu voz de retirada aos seus,  rdea solta, por aqueles barrocais.

Ao outro dia, o filho do marqus de Ponte de Lima recolhia-se a S. Miguel de Refojos, no intento de desmentir o boato, se acaso a nova chegasse aos ouvidos do prelado. A notcia chegou, sem dvida. O que no h  notcia de ser processado o frade'.

1 Encontro,  volta com vrios papis que pertenceram ao Mosteiro de Tibes, a participao desta criminosa tentativa de frei Joaquim do Sepulcro.  o

capito-mor de Cabeceiras de Basto que a remete ao dom abade-geral, fortalecendo-a com o depoimento do boticrio e de outros lavradores convidados para rebaterem o assalto  casa do Picoto. No verso do papel, est escrito: "Devassou-se, e no se esclareceu nada com que se possa ou deva processar o

colegial frei Joaquim do Sepulcro."

Vil

SE FREI JACINTO SERIA SANTO PORQUE ERA BOM

W, a quantas pessoas tem a gente por santas que diante de Deus so nada ou muito pouco, e quantas pessoas a gente no conhece (e porventura persegue) que diante de Deus so umas pedras preciosas!, porque o

mundo julga do exterior em que no est a virtude nem a santidade; mas muitas vezes muita hipocrisia.

PADRE RODRIGO DE DEUS (Motivos Espirituais)

O que o leigo disse a frei Toms de Aquino foi de sobejo para o enfurecer contra o velho inimigo. Espumava de clera e

repelava-se, exclamando:

-E hei-de sair daqui sem vingar-me! ...
- H-de, meu menino, h-de... - acudia o donato. - No acabe de se perder- Vamos embora na paz do Senhor que perdoou aos seus matadores. Ora v tomar a bno do prelado e

receber a guia para Santo Tirso, que de manhzinha l vamos

em busca de sossego e alegria. Depois de l estarmos  que eu

hei-de contar-lhe tudo, se Vossa Paternidade me prometer que h-de ter juzo.

-Frei Joo cuida que eu hei-de estar muitos dias no convento?! - interrompeu frei Toms.

-Pois ento?! -Se me pai me no atender, rasgo o contrato de obedincia... fao o que devo fazer... fujo!

-Foge? Jesus, Maria, Jos! -Sim, fujo; e, se tomar a vestir este hbito... ho-de vesti-lo num cadver! ...

Frei Joo saiu  porta da cela a espreitar e recuou murmurando ansiosamente:

- Cale-se, cale-se, que o escutam!
- Quem?

A BRUXA DE MONTE CRDOVA                          53

-Eles... os espies... Frei Toms, desprendendo-se a repeles dos braos do leigo,

saiu ao dormitrio, viu os dois colegiais, remeteu com eles e rugiu por entre o ranger dos dentes:

- Vilssima canalha!
O filho do marqus avanou galhardamente para o provocador e disse:

-Engula a injria, seno racho-o de meio a meio!
- Do-se-lhe quatro biqueiras de sapato... - ajuntou o sobrinho do dom abade galhofando do insulto.

Frei Toms j a este tempo tinha o leigo filado ao hbito; no obstante, sacudiu-o com tal carranca e desabrimento que o

velho cobrou-lhe medo e afastou-se.

Cruzou o colegial os braos e disse: -Eu no engulo as verdades que cuspo na cara dos infames. -Olhe que lhe corto a lngua! -tornou frei Joaquim do Sepulcro.

-E eu vou buscar a tesoura -acrescentou frei Antnio do Vale, correndo  cela'.

-Que dois miserveis covardes! -redarguiu frei Toms. -Covarde eu! -replicou o filho do marqus, correndo tambm para o seu quarto.

Saam dos cubculos respectivos os dois frades. O do Vale, ou por chancear ou por intenes sanguinrias, trazia a tesoura de costura; o outro vinha com um varapau. Frei Toms esperou-os imvel.

- Desdiz-se? - exclamou o do pau com a pancada feita. -No me desdigo, seu biltre! -respondeu o colegial. Desceu o pau. Frei Toms moveu a um lado a cabea e recebeu a bordoada no ombro esquerdo. Entretanto, com a mo direita, escondida no hbito, arrancou dum punhal e cravou-o duas vezes no peito de frei Joaquim. O sobrinho do abade gritava e fugia. O filho do marqus apalpava-se e despia o hbito.

1 Textual do processo que tenho presente, e veracssimo tudo que diz respeito a este conflito.

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Frei Toms, alvo corno cera e trmulo, encostara-se a um colunelo da galeria, esperando ver cair morto o ferido.

Revoluteava a fradaria como se o incndio crepitasse nos

quatro ngulos do edifcio. Reboavam clamorosamente os ecos

dos dormitrios. O grito espavorido era que estava agonizante frei Joaquim do Sepulcro, esfaqueado por frei Toms. Os colegiais, mandados pelo prelado, atacaram, reunidos, o criminoso que lhes no fez leve resistncia. Desceram-no ao crcere e prenderam-lhe o p direito no olhal do cepo que monasticamente se chamava "tronco",

Ora, as punhaladas tinham sido benignas. O ferido no dava receios.

Dois dias depois, como a causa cabia a superior jurisdio, frei Toms de Aquino foi enviado a Tibes escoltado por doze milicianos.

Vejamos, agora, os trmites do processo. Tenho presente o Auto de Devassa e Ferimento Grave com Efuso de Sangue entre os Irmos Frades Colegiais Frei Joaquim do Sepulcro e Frei Toms de S. Plcido.  lavrado o auto na cela do dom abade. O escrivo autoa o que o abade expe. O estilo  como c fora: principia ano do nascimento, etc. Segue o auto de corpo de delito. Os peritos que examinam os ferimentos so quatro frades. Dizem que frei Joaquim do Sepulcro "tem duas polegadas abaixo da primeira costela uns golpes de esfarpadela da carne por modo de buracos maiores que de verrumas, os quais buracos lanam sangue que corre pelo pescoo, porm no varam at ao corao; estas feridas mostram ter sido feitas com ferro algum tanto agudo, pelo que delas se pode conjecturar", etc. No se pode negar idoneidade cirrgica aos frades, em vista dos termos facultativos com que eles redigiram o exame, Aquelas esfarpadelas de carne por modo de buracos maiores que verrumas no so ferimentos muito vulgares nos hospitais; o sangue a correr das costelas para o pescoo, tambm no  trivial: boa razo para que eu, numa cousa ftil como  a novela, d que pensar e aprender  cirurgia militar.

Ao auto sobrevm o depoimento das testemunhas. So vinte

A BRUXA DE MONTE CRDOVA                         55

e trs. Dizem todas harmonicamente que frei Toms de S. Plcido apunhalou o irmo frei Joaquim do Sepulcro, no propsito de o matar. Nenhuma diz 'que o ru foi primeiro espancado. Algumas acrescentam que o preso tem pssima ndole e tendncias revolucionrias, manifestadas em discursos viperinos contra o altar e o trono.

O dom abade-geral recebe o auto em Tibes e despacha deste teor imaginosamente ortogrfico e gramatical: Ovrigam as **tt.desta devassa ao R. Fr. Toms de S. Plcido o M. R. P. M. (muito reverendo padre mestre) Promotor Fiscal ofrea o libelo acusatrio. D. Ab.e Geral. No se sabe quem as testemunhas obrigam. Devia de ser o promotor fiscal. Tirante gramtica e ortografia, os beneditinos portugueses eram poos de sapincia.

Segue-se o libelo acusatrio do promotor fiscal.

Comea: Diz como A. o Promotor Fiscal da Congregao de S. Bento contra o ru o irmo frei Toms de S. Plcido, colegial filsofo do Mosteiro de Refojos, por esta ou pela melhor via de direito, e

sendo necessrio,

Provar primeiro... etc.

E termina: Protesto por todo o necessrio e requeiro seja retido no crcere ad cautelam at final sentena.

Vo os autos conclusos ao geral. Manda o reverendssimo ao ru que contrarie o libelo, sendo primeiro notificado para constituir procurador. Frei Toms nomeia seu procurador e defensor frei Jacinto de Deus. O ancio desce do Mosteiro de Alpendorada. Do-lhe os autos para que responda. Entra no crcere, e sente no rosto as lgrimas ardentes do seu pobre amigo.

Frei Toms conta-lhe o sucesso sem quebra da verdade. O monge espanta-se e lastima que as testemunhas da devassa hajam jurado falso. Solua com o rosto entre as mos e murmura:

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-Isto vai acabar. Deus no nos quer assim. O contgio que apestou o ar saiu dos mosteiros.

Eis a defesa escrita por frei Jacinto de Deus:

O ru frei Toms de S. Plcido no tem que opor ao libelo acusatrio que contra ele apresenta o M. R. P. Promotor Fiscal. Todos os factos nele contedos so substancialmente verdadeiros: outros, que l no se encontram, basta que Deus os veja. Ele ru confessa os de que  incriminado, e desiste de toda a defesa; e se tiver apelao da sentena recorrer ao tribunal de Jesus Cristo.

Frei Jacinto de Deus - Frei Toms de S. Plcido.

Conclusos novamente os autos ao geral, saram com a sentena seguinte:

Vistos estes autos oferecidos pelo M. R, P. Procurador Fiscal, resposta do ru, etc. Mostra-se que este, esquecido da santidade do seu estado e dos deveres de crsido, ps mos violentas no colgio frei Joaquim do Sepulcro, fazendo-lhe com um punhal duas feridas no peito em que houve efuso de sangue, o que se prova com toda a verdade no s pelas testemunhas da devassa, mas pela publicidade do facto e pela confisso do mesmo ru, que na sua resposta d por verdadeiros todos os crimes de que  acusado. O que tudo visto, segundo as disposies do direito comum e particular das nossas Constituies, Christi nomine invocato, julgamos ao ru incurso nas penas que a mesma Constituio determina em semelhantes casos, e o condenamos a que o ponham com os ps no tronco at o primeiro dia de captulo, e

da o tiraro e levaro ao captulo diqnte do convento, despido da cinta para cima, deitado o escapulrio sobre a carne, e dois molhos de varas  maneira de cruz diante de si, e como entrar prostre-se diante do prelado, e sendo dele repreendido, afeando-lhe seu crime e escndalo que deu assim ao convento como a quem o soube, mande a quem lhe parecer que tome um molho daquelas varas e lhe d uma disciplina que a sinta; e dali o torna-

A BRUXA DE MONTE CRDOVA                           57

rdo ao tronco, e comer po e gua somente, e estar preso um

ano; findo o qual, ter por crcere as claustras altas, e se meter na sua cela sem licena de falar com nenhum, e andar o derradeiro no convento, e no levantar no coro salmo, nem antfona, nem dir verso, nem ter nenhum ofcio, nem voto em nenhuma eleio, enquanto o seu prelado por misericrdia lhe no levantar a pena. E mandamos que esta nossa sentena se publique em plena comunidade, e se cumpra com nela se contm, ficando guardada no arquivo da congregao at  morte do ru.

Tibes, 16 de Maio de 1829

D. Abade-Geral

Foi lida em comunidade e depois ao ru a sentena quase literalmente copiada de umas Constituies publicadas em 1590, no captulo XLV, que diz: "Da pena que se h-de dar aos monges fugitivos", etc.

Frei Toms de S. Plcido escutou serenamente a sentena, e disse:

-Agravo do geral da congregao para a Providncia Divina.

-Isso, meu filho! -acudiu frei Jacinto de Deus, que entrara no crcere.

O intimador da sentena saiu. O monge deportado em Alpendorada ficou.

-Que ano vai ser este da minha vida! -murmurou o sentenciado. -Sei que o no levarei ao fim...

- Levars, pobre mancebo! - atalhou frei jacinto. Apelaste para Deus: de l te h-de vir bom despacho. Mandam-me sair amanh daqui, frei Toms. Deixo um leigo encarregado de te dizer o que no tribunal divino correr com o teu processo.

Frei Toms encarou no velho com ar desconfiado da sanidade de sua razo. Que vinha a ser um encarregado de dizer-lhe o

que passava o seu processo no tribunal divino?

58               CAMILO CASTELO BRANCO

Frei jacinto entendeu a confuso do preso e disse-lhe: -Meu filho, no me julgues algum visionrio. Se as minhas oraes valerem, sairs daqui. No pude defender-te diante do geral dos bentos; mas diante do escrutador das almas sei eu que as minhas lgrimas ho-de ser eloquentes.

- Sairei daqui? - exclamou frei Toms com alvoroo.
- Saireis todos, bons e maus, padecentes e algozes... todos os que viveram  hora em que as cinzas dos frades mortos em

amor e temor de Deus estremecerem debaixo dos ps afrontosos desta gerao pestilencial. Saireis todos, e tu primeiro que todos, se Deus inclinar ouvido piedoso s minhas preces. O mundo no te dar mais venturas das que te deu o claustro. Infeliz hs-de s-lo sempre, filho, porque no levas s tempestades de l a ncora dos naufragantes -a f. Vais nu da sagrada armadura da pacincia aprendida em Jesus e nos seus. A filosofia monta pouco. Ensinamento aprendido de homens  nada,  alardo vo de fora de alma que um revs derruba. H uma s filosofia:  a de Cristo; e essa mesma suou sangue no horto e

queixou-se do desamparo na cruz. Enfim, moo, abraa-me, que eu no tomarei a ver-te. Deixo-te no comeo dos trabalhos. Se alguma hora pisares a claustra de Alpendorada, no decurso de tua vida, diz entre ti: "Estas cinzas conheci quase frias naquele frade que se finou dando razo aos revolucionrios que aluram o mosteiro. " Porque eu, filho, protesto contra teu pai que te meteu os ps nos olhais desse cepo. O teu punhal  menos criminoso que esse madeiro nas mos do frade. Os que te condenaram, quando levantam a hstia, erguem um pior patbulo a Jesus Cristo...

Vill

FUGA

Muitas cousas obram os demnios pela virtude de sua

natureza com as quais nos deixam mui admirados.

FREI JOS DE JESUS MARIA (Mtodo de Exorcizar)

Um cronista indito dos Anais de Tibes entre 1770 e
1830, relata dois casos de fugas de frades criminosos e sentenciados a tronco'. A histria do primeiro no diz ao nosso particular intento; a do segundo  a notcia da fugida de frei Toms de S. Plcido.

O frade arquivista conta em linguagem ch casos admirativos do poder do demnio, e observa que as legies infernais saram dos abismos, mais desenfreadas que nunca, a por 1820. E deste desenfreamento limpamente infere frei Barnab de Santa Gertrudes que  chegado o Anticristo.

A tal propsito, impugna o parecer de frei Manuel Homem, dominicano que, em 1643, num sucoso discurso, demonstrara que os Portugueses no haviam de acompanhar o Anticristo, autorizando-se com os profetas Ezequiel e Daniel, sujeitos que tomaram  sua conta defender os Portugueses de semelhante aleivosia.

No obstante, frei Barnab investe contra os profetas e contra o frade de S. Domingos, provando que os pedreiros-livres portugueses supliciados em 1817 e 1829 eram a guarda avanada do filho do demnio ncubo.

No tocante  filiao de Cacodemo ou Anticristo, **clucida o

1 Estes Anais so escritos at 1812 por frei Joo de Guadalupe; deste ano

em diante escreve-os frei Barnab de Santa Gertrudes, alvar condigno de suceder ao primeiro cronista.

60                CAMILO CASTELO BRANCO

frade a gente idiota que o presume filho de freira e frade. A me, segundo frei Barnab, h-de ser uma desavergonhada, a qual receber maritalmente do demnio os espritos generativos, torpe concbito de que h-de sair o monstro a escoucear o gnero humano, at que o filho de Deus, saindo a cavalo do cu, desfar os esquadres do precito; e, dardejando sobe o monte Olivete um raio, fulminar o patifo.

Insiste o esclarecido monge em esquadrinhar e provar a liga em que os sectrios do Anticristo andam preitejados com o diabo. Estabelecido solidamente o princpio, malsina frei Toms de S. Plcido de sectrio do Anticristo e pactrio de Lcifer, pai do mesmo, logrando desta arte o cronista explicar racionalmente a

fuga sobrenatural do dito frade.

Refere ele, pois, que o energmeno colegial de Refojos sentenciado a um ano de crcere e tronco, de jejuns e disciplinas, na vspera do dia de captulo em que havia de ser chibatado, segundo a sentena, desaparecera do crcere, sem ter sado pela porta nem pelo postigo cujos ferrolhos estavam fechados. Amplia o frade a diablica magia da fuga, contando que um monge muito espiritual e contemplativo, estando na mesma noite, 15 de Junho de 1829, na janela do seu cubculo adorando os orbes luzentssimos do Senhor que recamavam o cu, ouvira uma pancada soturna imitante  irrupo de demnio que rompesse a casca do globo, comunicando as trevas inferiores com o mundo subsolar. Remata frei Barnab escrevendo que ao outro dia o leigo acostumado a ministrar po e gua ao preso fora  casa do dom abade-geral dar parte de que frei Toms no estava no crcere, nem deixara diminuto vestgio de fuga.

Publicado o sucesso, diz mais o cronista que todos, professos e novios, desceram ao crcere, localizado na parte quase subtrrea do edifcio, indo ele frei Barnab de sobrepeliz e estola e o dom abade com o Sacramento em custdia, segundo o ritual dos exorcismos 1.

'  o que est prescrito no Brognolo recopilado por frei Jos de Jesus Maria, nomeadamente no captulo que diz: "Exorcismo para casas inficionadas com duendes ou perturbadas com aparies de demnios e malefcios. "

A BRUXA DE MONTE CRDOVA                         61

Conjurados os poderes satnicos, espreitaram os recantos do crcere. Algum mais afoito saltou dentro duro quadrado de cantaria grossa, obra comeada cem anos antes para aumentar as prises, e saiu dizendo que lhe cheirava a enxofre. Choveu gua benzida do hissope no lugar sulfuroso, bem que o geral e outros, entestando as ventas com a abertura do lbrego recinto, declararam que lhes no cheirava seno a matrias superabundantes em

azote. O que era verdade.

Desprezando por tolas e difusas as consideraes que ao intento escreve o frade, substanciemos o que importa.

Sem embargo de se haver em captulo decidido que a fuga do preso no era da ordem natural, saram logo avisos s justias circunvizinhas. E, como no surdissem efeito, decorridos meses, dizia o atilado frade que para ele fora desnecessria mais esta prova de que frei Toms tinha sido arrebatado em corpo e alma por manhas do Anticristo.

No nos bandeemos na alarvaria dos beneditinos de Tibes. Respeitemos o diabo, que no perdemos nada com isso, visto que tamanhos poderes a cristandade lhe atribui; todavia, dispensemo-lo de intervir na fuga de frei Toms de S. Plcido.

A verdade  esta: Em 1807, o dom abade-geral da congregao de S. Bento, frei Manuel da Conceio, informado de que o invasor Junot, aquartelado em Abrantes, punha a saque as povoaes portuguesas, sem ressalva dos mosteiros, cuidou em arrecadar as riquezas e ao mesmo tempo minar um caminho por onde os frades, no derradeiro aperto, pudessem escapulir-se e sair a seguro com elas, nalgum bosque afastado do convento. Um donato, que feitorizava a cerca de Tibes, alvitrou o acerto de se abrir um alapo no lajedo do segundo crcere principiado, e procurar-se um aqueduto que em eras remotas levava gua ao primitivo mosteiro situado numa baixa do monte de S. Gens, sendo provvel que as obras da canalizao antiga, feitas a expensas dum rei godo, se conservassem ainda slidas e capazes de serventia. O leigo asseverava ter andado mais de

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cinquenta passos por debaixo de abbadas que no gretavam a menor fenda '.

Aproveitou o geral o bom aviso. Levantou a laje, profundou at encontrar as padieiras convexas do aqueduto, rompeu-as e

mandou explorar o trnsito. O encanamento delongava-se por extenso de quatrocentos passos, e rematava num pedregal emaranhado de silvedos e estevas, por onde o ar filtrava escassamente ao subterrneo. O chavascal em que rematava o encanamento, de todo seco, pertencia ao mosteiro. O dom abade, contentssimo do descobrimento, calou-se com o segredo, receoso de que, de portas a dentro, algum frade suspeito de jacobinismo denunciasse aquela segura avenida de refgio de vidas e riquezas. Ajudado pelo leigo e por mais alguns poucos de sua confiana, desobstruiu a sada pelo lado do bosque, e desentupiu alguns respirculos que recebiam o ar das minas paralelas nos almargens mais baixos da cerca.

As preciosidades do mosteiro e outras ali depositadas pelos cautelosos habitantes de Braga e fidalguia alde dos arredores, mandou o geral recat-las no aqueduto, fiando do donato e do prior o segredo.

Os franceses no chegaram os seus rapacssimos grifos a Tibes, em alguma das invases. A guerra acabou; e os caixes de baixela e ornatos sagrados de ouro e prata voltaram a enriquecer a pompa dos altares e os armrios dos fidalgos minhotos. O alapo do esconderijo nunca mais se levantou; e dos frades de
1807 apenas existiam dois ou trs em Tibes, e esses mesmos esquecidos ou ignorantes do aqueduto coevo do rei Teodomiro e de S. Martinho de Dume. Vivia, porm, ainda o leigo que insinuara ao geral a convenincia de deslajear o crcere: esse leigo era o condutor da gua e po a frei Toms de S. Plcido; vivia

' Do primitivo mosteiro, fundao do rei Teodomiro e S. Martinho de Dume, diz frei Leo de S. Toms: "Fundou-se na costa do monte de S. Gens, que vem descendo para a parte do norte, em uma plancie bastante para os edifcios dele, e cercada toda de um grande arvoredo, que a rodeava por espao de uma lgua, por onde ficava o mosteiro escondido e encoberto aos olhos do mundo, mais do que hoje o vemos. " Benedkt. Lusit., Part. 2.,, pgs. 377 e 378.

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tambm o frade que, a ocultas da comunidade, ajudara a levantar as pedras e correra o encanamento: era frei Jacinto de Deus, o confessor e patrono do colegial algemado ao tronco.

Leigo e frade entrequeriam-se como amigos de infncia e parentes; compartiam das tristezas anlogas em ambas as almas; choravam juntos, quando raro se viam, a desolao do mosteiro,

e a imputavam  degenerada f e caridade dos monges e a lucrativa Roma, que abrira seu telnio sobre o sepulcro de Cristo, baque irremedivel dos mosteiros.

Frei Jacinto, sondando o nimo do leigo a respeito do sentenciado iniquamente, no usou grandes salvas e rodeios. Disse-lhe:

-  preciso arrancarmos este moo do suplcio. A sentena  atroz e vergonhosa. Protestemos ns, Manuel. Salvemo-lo. Deixemos na memria deste desventuroso rapaz uma lembrana saudosa de dois velhos que ainda vestiram seus hbitos sem ndoas.

-Pois salvemo-lo -assentiu frei Manuel da Redeno. E o monge, vindo de Alpendorada, recordou ao donato os comuns trabalhos de 1807 no encanamento, e a fcil fuga do preso, sem responsabilidade e culpa de outrem.

- Isso foi h vinte e dois anos - disse frei Manuel. - Quem nos diz que o aqueduto no est j arruinado?

-No est. Contava nove sculos quando o examinmos e parecia construdo naquele dia. Se, porm, o fugitivo topar embarao invencvel, retroceder.

-E chave com que abrir os olhais do cepo?-perguntou frei Manuel.

- Hei-de eu mandar-ta de Alpendorada. Tu me dars o molde em pasta de cera, e eu a mandarei fabricar  nossa aldeia.

-Que grandssimo amor tens a este moo! -observou o donato.

- amor  justia, e compaixo daquela pobre alma doente e incapaz de reconhecer Deus nos ministros que o perseguem. Este rapaz no pode ser frade. Praticou a rara virtude de vestir o hbito por obedecer ao pai, quando o amor mais contraditrio deste outro violento amor de Deus o atava  liberdade, aos pra-

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zeres inocentes de ser amado, e de crer que a Providncia boa e

adorvel era a que lhe enchia de graa a mulher da sua ternura. Porque entendi eu a alma deste moo?

-Bem sei... -disse o donato. -Ainda tenho lgrimas... Ainda as sangra o corao de setenta e oito anos... No posso ainda... -exclamou ele com tremente excitao-, no posso ainda orar por alma de meu pai, que no veja aquela mulher antepor-se ao fantasma do velho e dizer-me: "Eu acabei de paixo por ti: reza por minha alma. "

Vencidos os soluos, frei jacinto prosseguiu: -Toms no v da religio de Cristo seno o lado repulsivo que lhe deram os homens. No tem f... Tambm eu a no tinha. Quem pode sustentar a f no inferno onde no h esperana? E que  isto, seno um oprbrio das almas cndidas que entram enganadas nestas senzalas de hipcritas, que nem a si mesmos curam de enganar-se?... O desgraado contou-me a

sua vida. Medi-lhe o tamanho do seu cfix de amargura. Pedi a Deus que lho esvaziasse e consentisse que ele o enchesse de lgrimas, a ver se a esperana nascia no seio desabafado com o chorar. Pedi por ele aos maus confederados em perd-lo; criminei os desumanos obdurados pelo fanatismo, admoestei humildemente os hipcritas com as palavras do Divino Mestre... Deportaram-me: foi enorme a vingana; porque me apartaram daquele enjeitadinho faminto e nu de consolao. Aqui tens. O desgraado chamou-me. Para qu, se ele no queria defender-se? "E porque te no defendes?", perguntei-lhe eu. "Folgo de ser esmagado", disse ele, "quero saber se h Deus, se h Providncia. Agora  que eu vou experimentar. " E eu quero que ele se convena de que h Deus, ouviste, Manuel? Quero que o leves fora dos muros da cerca, e lhe digas: "Daqui em diante reconhea e confesse Deus."

-Ser feito o que desejas -disse o donato. Volvidas semanas, o preso disse a frei Manuel: -Foge-me a vida: morrerei sem ter visto o poder superior da justia divina. A iniquidade dos homens e irresponsvel... No h Deus.

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- H - disse o leigo. - Espere.
- Amanh serei chibatado no captulo... Cantarei ento o

Gloria in excelsis Deo -tomou, chasqueando amargamente, o preso.

- Tambm os mrtires cantavam - retorquiu o leigo - e padeciam e morriam porque apostolavam a igualdade e a caridade. No h a morrer mais inocentemente.

-Os mrtires injuriavam os deuses do paganismo, e eu curvava a cabea diante dos dolos dos catlicos. Nunca escarneci os interesses sagrados destes faquires; o que fiz foi castigar os desonradores do mosteiro. E por isso vou amanh, nu at  cintura, receber urna disciplina... que se sinta, como diz a sentena.

-No vai: diz frei Jacinto de Deus que no ir. -Onde est frei jacinto?! -Em Alpendorada. -Que pode ele?
- O poder que Deus lhe d: a inspirao  a fora... Frei Toms conhece os arredores de Tibes?

- Conheo. -Sabe caminho que o leve fora de Portugal em dois dias? -Sei. Entrarei em Espanha sem dormir uma noite em Portugal... Pois eu vou sair daqui? -exclamou o frade, pondo as

mos, e esbugalhando os olhos banhados de jbilo. -Deixa -me fugir? E os ferros? Quem me abre as portas?

-Ningum. As portas no se abrem. -Quando ?... As portas no se abrem?... Ento... -Esta noite.
O donato abriu os olhais do tronco, e disse ao frade: -Frei jacinto de Deus mandou esta chave. Comea frei Toms a conhecer os agentes medianeiros entre a Providncia e os infelizes a quem a sociedade piorou a condio. Siga-me.

O colegial entrou depois do leigo entre as quatro paredes que serviam de vazadouros do lixo aos encarcerados. Desviou frei Manuel uma rima de lascas e vigas do tecto abatido. Esmoitou a

ramaria de malvas que verdejavam acostadas ao muro; desterroou com as unhas at descobrir uma argola; e, sacando de sob

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o hbito uma alaprema curta, abalou a pedra, sacudindo-a pelas junturas. A cobertura do aqueduto cedeu aos empuxes de frei Toms, baldadas as diligncias do donato septuagenrio.

-Sair por aqui esta noite, quando eu voltar-disse o leigo. -Com o po da ceia hei-de trazer-lhe uma lmpada. No tema o comprimento da jornada subterrnea. So seis ou sete minutos de caminho. Eu hei-de de v-lo descer para assentar a pedra, se passarem dez minutos e frei Toms no voltar.

-Voltar! -atalhou o frade com espanto.
- Se o aqueduto estiver aludo?
- Ah! -exclamou frei Toms alanceado pela hiptese. -No se assuste. Frei Jacinto disse que o trnsito est livre. Eu creio mais nas visualidades dele do que na evidncia que meus olhos vem e minhas mos apalpam. Ainda me no perguntou se h-de fugir com esse hbito de So Bento...

-  verdade... como h-de ser? - sada do encanamento encontrar um homem, um amigo, encontro de maior preo que o de cem homens aparelhados para o defenderem.

-Um amigo! Dois sei eu que tenho... quem  o terceiro? -0 leigo frei Joo de Socorro, que j no  leigo:  o velho criado de seu pai: o Joo Antnio que aqui vinha chorar quando frei Toms noviciou. Aqui voltou chorando agora mais agras lgrimas.  ele que o espera com os seus antigos vestidos...

-E meu pai?... saber que eu fujo? -No sabe: seu pai... abandonou-o. No lhe pernoite em casa, que se arrisca a ser reconduzido ao tronco. Adeus. Esta demora pode ser notada. At  noite. Aqui tem a chave: prenda-se ao cepo.  hora em que eu houver de entrar esteja ao p do alapo.

Conforme o costume, o donato carcereiro abriu a porta, deu entrada a frei Manuel e foi trasfegar com o cozinheiro duas garrafas de vinho, transfuso ordinria com que os dois seroavam sua meia hora por noite, apimentando as lnguas eloquentes com as talhadas de paio que j no cabiam nas calugas dos abstmios beneditinos.

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A meia hora dava tempo e sobras a que frei Toms de S. Plcido descesse dos braos do leigo ao aqueduto, e o leigo se detivesse quinze minutos com o ouvido colado  boca do encanamento escutando o sonoro bater dos ps no pavimento grantico, e enxergando, at de todo se esvair, o claro frouxo da lanterna.

Depois, saiu fora do crcere, chamou o donato, que respondeu pelo gargalo da garrafa, e disse-lhe:

-Frei Lus, venha fechar que preciso ir para cima. -A vou. Chegou bolinando o leigo  saleta anterior do crcere, guinou contra a porta, deu as boas-noites para dentro, rodou a chave, e  disse com quanta comoo pode diz-lo um estmago cheio:

-Tenho grande compaixo deste frade! Nem uma pinga lhe deixam beber! ...

Este leigo frei Lus dos Serafins andava to privado no conceito do geral que, no dia seguinte, ao divulgar-se o desaparecimento do preso, nem sequer foi interpelado sobre se tinha a evidncia de o ter deixado no tronco, ao fechar a porta.

Aqui est compendiado o caso que frei Barnab de Santa Gertrudes relata em quinze pginas de folha, debaixo desta epgrafe:

De como um frade pactuado com o

demnio foi arrebatado em corpo

e alma, do crcere deste Mosteiro de Tibes, pelo Anticristo, na noite de

15 de Junho de

1829.

IX

COMO O FUGITIVO ACHOU DEUS

Ld soledad siguiendo rendido a roi fortuna me voy por los camir)os que se oferecen.

GARCIl-AS0 DE LA VEGA

 boca ensilveirada de uma caverna que os pastores de S. Gens julgavam ser acolheita de lobos, esperava desde o lusco-fusco o velho ex-leigo de S. Miguel de Refojos, guiado ali por entre rvores e penedias pelo donato de Tibes.

Assim que a lmpada lhe tremeluziu no negrume cavernoso, e o cavo toar dos passos veio reboando por sob a abbada, Joo Antnio comeou a desgalhar com uma fouce o tapigo de silvas e azevinhos que se emaranhavam  entrada da toca. Frei Plcido, temeroso do sbito estrondo, quedou-se. O velho, escutando e no ouvindo os passos nem vendo o claro da lanterna, meteu dentro da mina a cabea e bradou numa soada que podia aterrar o fugitivo, se ele no estivesse prevenido do encontro:

-Pode vir que eu c estou! Joo Antnio deu a esta inocente chamada um tom ribombante e clangoroso que propriamente lhe esfriou a espinha dorsal a ele.

Surdiu finalmente o frade  boca da caverna. Joo Antnio, rompendo o saral, abraou-o pelos joelhos e assim o levou nos braos at o pr em terra escalvada de sargaos.

- Oh! -exclamou frei Toms-, que sade e vida eu respiro!, que bem me faz este ar! ... O cu! ... h que tempos eu no vi o cu, sem amaldioar os homens! ...

- Tire o hbito - atalhou o velho. - Agora no  ocasio de estar nessas prticas. Vista-se e vamos embora daqui. s trs horas  dia claro, e ns precisamos estar l por essa serra da

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Falperra, quando amanhecer. O menino vai para Galiza, no  assim?

-Sei eu dizer-lhe para onde vou, frei Joo! ... -No me chame frei Joo, que eu j no estou nessa vida. Sou o Joo Antnio do tempo do seu av; sou o Joo Antnio que criou seu pai e o meu menino Toms. Vamos a saber: vai para Galiza ou no? Olhe que seu pai no o defende nem recolhe em casa. Os frades fizeram-no mau como as cobras... Est feroz que nem um tigre contra os liberais... Em que est a pensar?

- Em meu pai - disse com amargura o frade. - No o verei mais... E minha me tambm me no recolheria?

-Sua me manda-lhe a sua bno e esta saquinha de peas. A esta hora est ela a rezar para que Deus o guie a salvamento.

-Minha santa me!... -murmurou Toms. -E no poderei eu beijar-lhe a mo antes de me desterrar?

- Salve-se, menino, quanto antes, que no pode dar outro

prazer a sua me.

-E Anglica?! Que  feito dela? Sabe a minha vida? -- untou o frade.

-Sabe tudo o que se passou. -Est solteira? -Pois no est?! O tio brasileiro chegou h quinze dias. O pai aprontou os papis para o casamento, leram-se os banhos trs vezes, e ela desapareceu na vspera do casamento. Procuraram-na, e ainda ontem souberam que ela estava a servir no Convento de Santa Clara no Porto. Eu j o sabia desde que ela fugiu.
O pai partiu ontem para l a fim de a trazer; mas a rapariga me

disse a mim que no saa de l seno morta. No h memria de um amor assim de rapariga!...

-Se algum dia lhe falar, diga-lhe que eu no posso ser nada para ela neste mundo. Pea-lhe que viva, que se case e que me esquea.

Durante este dilogo, o frade despojara-se do hbito e vestira os fatos que despira no primeiro dia de novio.

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Caminharam por fora dos povoados, ladearam Braga, subiram  Falperra e por ali se esconderam durante o dia.

O insuspeito Joo Antnio descera a uma aldeia a comprar alimentos. Na volta para uma garganta da serra, em que deixara embrenhado seu amo, topou no escuro de um carvalhal quatro homens armados. Considerou-se perdido, ou eles fossem salteadores ou quadrilheiros enviados no encalo do fugitivo frade. Ouviu-se chamar por seu nome. Maior pavor o senhoreou. Acercou-se deles a tremer: reconheceu um cavalheiro de Fafe, condiscpulo de seu amo.

Era um dos muitos liberais daquela terra, perseguidos pelo rancor poltico. Ele e trs correligionrios, escapados ao furor da plebe e aos esbirros do corregedor de Guimares, iam fugindo para Galiza, passando os dias alapados nos fraguedos.

Joo Antnio contou o seu segredo ao condiscpulo de Toms. Correram todos ao escondedouro do frade. Comeram juntos e pactuaram seguirem o mesmo destino at encontrarem o ncleo do exrcito liberal.

 noite, apartaram-se de Joo Antnio. Toms chorou nos

braos dele e disse soluando:

-V  Alpendorada e diga a frei jacinto que eu achei Deus, e o confessei com o rosto cheio de lgrimas.

X

O SOLDADO

Aqui peleja Com corao e nimo invencvel.

JERNIMO CORTE REAL (S.,essoeg..do Cerco de Diu)

Os cinco homiziados vingaram entrar inclumes em Galiza. Entregaram as armas no territrio espanhol, e seguiram at  Corunha, cantando hinos ao Senhor por no terem sido assalteados e roubados pelos vassalos de Fernando VII,  semelhana dos portugueses emigrados, depois da infausta revoluo do Porto em 1828.

Da Corunha embarcaram para Falmouth e daqui para a Terceira numa escuna das que mercadejavam fruta nos Aores.

Toms de Aquino j no levava trao que indiciasse o frade. Encabelara-se-lhe a coroa e sara-lhe um espesso bigode negro. Ganhara cores, robustez e jovialidade. Era um galhardo moo de vinte e trs anos, com rutilantes olhos, aspirando com sfregas delcias aquele ambiente acre de plvora, que embriagava de esperana os dois mil e trezentos peitos de bravos defensores do rochedo, em que assentava o trono de D. Maria H, rodeado de incertezas e pavores, os quais quebravam contra os valentes coraes como as ondas que lhe espadanavam em volta.

Alistou-se Toms de Aquino na Sexta Companhia de Voluntrios da Rainha. Poucos dias se ensaiou nos exerccios das manobras.  instruo dos recrutas naqueles dias bastava o entusiasmo. A disciplina obediencial aos chefes era o amor entranhado s bandeiras,

A Sexta Companhia de Voluntrios foi urna das que repeliram  baioneta o inimigo na vila da Praia, no dia 11 de Agosto daquele ano de 1829. Toms no se distinguiu; igualou-se aos

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seus camaradas. No havia estremar bravos assinalados, onde to~ dos o eram, salvante os que morriam feridos de frente; que esses sobrepujavam a glria dos vivos.

O voluntrio, mero soldado raso, tendo em conta de nada o lustre da linhagem e dotes de esprito, no mostrava, nem as tinha, aspiraes a postos, bem que os seus quatro companheiros de emigrao o incitassem a requer-los. Acaso, o seu comandante Manuel Joaquim de Meneses o encontrou em debates sobre assuntos religiosos e polticos com o capelo do regimento, e

reparou segunda vez no letrado que j lhe tinha prendido a ateno na rija refesta da vila da Praia. Ento interrogado, Toms de Aquino contou ao comandante o eptome de sua vida, e deixou de si no nimo do valente coronel afectuosa vontade de o engrandecer. O general conde de Vila Flor conformou-se com todas as propostas,  medida que a bravura do voluntrio se acrisolava nos recontros de Velas, Urzulina, Calheta e Ladeira Velha.

Toms de Aquino, quando a expedio libertadora aproou s praias de Portugal, era j alferes de lanceiros, bem que esta arma

dependesse de cavalos que se haviam de conquistar ainda em

Portugal. O frade beneditino escolhera aquela arma, por ser a vivaz aspirao que lhe aformoseava os sonhos desde a primeira infncia. O corao a tirar por ele para o escarvar dos esquadres, e o pai a empurr-lo para as salmodias monsticas! No obstante a sua promoo, Toms de Aquino trajava ainda a farda lisa de voluntrio da rainha e no cedera o seu nmero na Sexta Companhia.

Esto no Porto os amigos do imperador. Toms de Aquino, assim que uma hora de repouso lhe vagou, ao segundo dia da chegada, perguntou o caminho do Convento de Santa Clara. Disseram-lhe que o maior nmero de freiras fugira, tirante as amigas da liberdade, e as que, atidas  idade e achaques, confiavam na inviolabilidade de suas virginais isenes, bem que os frades do alto do plpito trovejassem que os celerados pedreiros-livres no respeitariam sexos nem idades. Esta

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segunda parte da proftica ameaa fez exsudar o rubor da castidade entre a pele e os ossos de muita freira escanifrada a quem j os franceses tinham respeitado.

Chegou o voluntrio da rainha  portaria do Mosteiro de Santa Clara. Estava a porta fechada, e, no primeiro andar do convento, por detrs da grade, unia velha corri a touca significativa de criada. Perguntou ele se algum podia descer  portaria para lhe responder a uma pergunta.

A velha quedou-se alguns segundos a olhar muito fita no soldado, retraiu-se para o escuro da cela, e deu-lhe com as portadas

na cara.

- Vossemec que queria? -perguntou do outro lano do convento uma criatura mais afoita, criada talvez de freira constitucional, que tambm as havia, especialmente umas que contavam ser defendidas da incontinncia dos liberais por adorveis mpios da mesma satnica seita. - Sio! -tomou ela, vendo que o soldado no a ouvira. - Vossemec quem procura?

Toms olhou, remirou, afirmou-se e disse de si consigo: -Aquela  Anglica! Avizinhou-se o soldado mais do edifcio e respondeu: -Faz favor de me dizer o seu nome? A voz de Toms no impressionou levemente Anglica Florinda. As ms noites do mar e o ardente sol da marcha desde a praia do Mindelo ao Porto, haviam-no enrouquecido. Escusado  dizer que o bronzeado do rosto e as longas barbas tornavam imperceptvel a mnima feio do estudante que a rapariga amara ainda imberbe, plido de cera, magro e definhado pelos estudos e tristezas do violento destino que os pais lhe prescreviam.

Ora,  moa figurou-se-lhe atrevida a pergunta. Que importava ao soldado saber-lhe o nome? Vontade de o impontar com

m resposta no faltou  rapariga; porm, susteve-a o medo de provocar algum insulto ao mosteiro. Indecisa entre dar-lhe ou no dar-lhe com as portas na cara,  imitao da outra serva de Deus, deu tempo Anglica Florinda a que Toms lhe dissesse:

- Tu s de So Pedro de Alvite... Tu s Anglica do Picoto...

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- Sou... - disse ela sobressaltada sem atinar com a razo de alvoroar-se. -Sou a mesma... Donde me conhece vossemec?!

- Conheo-te desde que me conheo... Triste cousa  que me no reconheas... Ainda no?, ainda me no adivinhas, Anglica? Ser preciso que eu corte as barbas e vista um hbito de frade bento, para que vejas em mim o teu amigo da infncia, aquele pobre Toms...

-Santo nome de Jesus!... -exclamou a moa forcejando por entremeter a cabea nas rexas do gradeado. -0 senhor parece-me que  ele pela voz... Valha-me a Virgem!... Diga-me se ... diga-mo em verdade por alma de sua me! ...

-Ento minha me  morta?! -perguntou muito comovi~ do Toms; e, tirando o leno do seio da fardeta, limpou os olhos e abafou os soluos. Quando levantou o rosto  grade j no viu Anglica. Passados minutos ouviu o ranger da chave na porta~ ria, e entreviu pelo resqucio das portadas abertas escassamente, uma servente do ptio que o chamava e o conduziu ao locutrio.

Levava Toms o seio trespassado de saudades de sua me. A presena de Anglica, muito mais formosa do que a deixara, doida de jbilo, sufocada de lgrimas, trmula de paixo, nada valeu a desafog-lo da sua angstia. O que ele tinha diante dos olhos embaciados era sua me; e, como se estivera s, tirou do seio a saquinha em que ela lhe mandara as peas por Joo Antnio, e sofregamente a premiu aos lbios, beijando-a e lavando-a com lgrimas.

Anglica Florinda contemplava-o silenciosa e subitamente demudada em triste e afligida.

- Desculpa-me - balbuciou Toms. - Perdi minha me... e vinha na esperana de a ver. Oh!, como isto  horrvel e irremedivel! ... Est morta! ... Quando morreu? H muito?

-0 senhor aflige-se -tartamudeou Anglica.-No lhe digo nada... No faltar quem lho diga  ... Se falar com o senhor Joo Antnio, ele lho dir.

- Diz-mo tu, Anglica, se o sabes   ... Dor maior j eu no sei que a possa haver para mim... Que podes tu dizer-me? Est

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dito tudo; morreu! Que importa saber quando e porqu?... Diz, Anglica... por quem s...

- Pois, sim... tanto faz ... tem de sab-lo. A sua mezinha morreu de desgosto, quando    ... valha-me Nossa Senhora... no posso dizer...

-  Anglica!... - disse maviosamente o soldado -, que hesitao  essa?... Morreu de desgosto, disseste tu.

-Quando mataram o senhor Simeo de Aquino...
- Pois mataram meu pai?! - exclamou Toms. -  meu

Deus!... Meu pai a ningum tinha feito mal seno a mim... Mataram o meu pobre pai! ...

- Est enganado... Fez muito mal a mais algum... e

perdoe-me por lhe dizer isto... Ele era meu padrinho e eu tambm lhe queria como filha; mas o que o senhor Joo Antnio me contou a a chorar nessa cadeira no podia ser mentira.

-Que foi? Diz tudo... -Meu padrinho era muito amigo do senhor Dom Miguel e

no podia tragar os amigos do senhor Dom Pedro. H quatro anos, quando a tropa fugiu para Espanha ou l para onde foi, o

senhor Simeo ajuntou uma guerrilha e comeou a prender e a

bater nos outros que no eram do seu partido, e a jurar contra todos dizendo, pelos modos, cousas que no eram. O senhor queira desculpar-me, se eu digo o que me disseram...

-Diz, diz tudo, minha amiga. -A cadeia do Porto estava cheia de pessoas da nossa terra que ele para c trazia; e, por mais que lhe pedissem as mulheres e os filhinhos dos presos, aquilo era uma alma de pedra, Deus me

perdoe. Minha madrinha, que est no cu, botava-se-lhe de joelhos aos ps a pedir-lhe que se deixasse de fazer mal a quem lho no fazia, e se metesse em sua casa. Era o mesmo que nada. No fazia caso da senhora, a quem as mulheres dos presos iam pedir que lhe valesse aos seus maridos. Meu padrinho andava por toda a parte a gritar que era preciso levantar duas forcas em

Basto para acabar com os malhados. Amanhou com isso muitos inimigos, que andavam l pelos montes a fugir  tropa e  guerrilha do senhor Simeo. Um dia, seu pai e mais os guerrilheiros

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que andavam com ele encontraram-se com uns fidalgos de Ribeira de Pena que iam pela serra do Ladrio a fugir  justia. Comearam aos tiros uns aos outros, e ento meu padrinho morreu atravessado do peito para as costas com um tiro. E vai depois, quando entraram com ele morto por casa dentro sobre uma padiola, sua mezinha no tugiu nem mugiu. Ajoelhou-se com as mos erguidas, esteve assim o tempo dum credo, e caiu pra diante com o rosto no cho, sem dar mais acordo de si. Aqui tem a desgraa como foi. O senhor Joo Antnio  que contava isto, que fazia chorar as pedras. Foi um dia de terror em Alvite! Eu j l no estava; ainda bem que no vi estes horrores...

Toms de Aquino, esforando-se por desoprimir o nimo atropelado por dois to inesperados embates, sofreou os soluos, e disse:

-Vim saber de ti, Anglica... No me esperavas ver mais.. .

-Esperava, senhor Toms, esperava. Dizia-mo o corao...
O soldado, abstrado e como surdo  resposta de Anglica, perguntou com veemncia:

- E o Joo Antnio? Sabes dele, Anglica? Tambm morreu?

-No, senhor; ainda aqui esteve h quinze dias e me disse que o senhor Toms estava na Terceira.

-E quem lho tinha dito?! -Aquele fradinho de Refojos que foi para Alpendorada, onde ele vai muitas vezes saber novas do senhor frei    ... Eu ia dizer frei Toms; mas o senhor acho que j no  frade    ... ou ?

-Nem eu sei o que sou... Ento frei Jacinto de Deus ainda vive! ... Algum tenho ainda neste mundo! ... Louvada seja a Divina Providncia! E sabes tu se ainda vive um leigo de Tibes?...

-0 frade que lhe deu escapula? Tambm est vivo... -Resta saber se os verei!... Bem pode ser que eu primeiro acabe por aqui... Se vencermos, poucos dos que viemos ho-de ver a vitria. Viemos para grandes trabalhos, e j agora no h

A BRUXA DE MONTE CRDOVA                         77

remdio seno morrerem uns para ajudar os outros a vencer, ou morrermos todos vencidos.

- o que toda a gente diz!... -conveio Anglica, muito consternada. -A minha ama  muito apaixonada da rainha, e por isso no quis fugir do seu convento; mas diz ela que as tropas do senhor Dom Pedro vo ficar todas feitas em postas.

-0 que Deus houver determinado... E ento tu, Anglica... ests bem aqui?...

- Estou... estou a servir... Meu pai deu tudo que tinha a

meu irmo e no quis mais saber de mim... Isso  o mesmo...

Deus no me tem faltado com a sade...

-No seria melhor que tivesses casado com teu tio? -- perguntou Toms, longe de supor que magoava to dentro do corao a sacrificada moa.

- Seria melhor... seria... - respondeu ela com brandura de lgrimas, generoso esforo com que pensava esconder o seu despeito.

Calaram-se ambos por alguns segundos. Toms estava-se como relembrando da sua infncia, e das saudades daquela gentil rapariga, no ano de noviciado, e da paixo ressurgida em mortais nsias no Mosteiro de Refojos. Admirava-se, talvez, de se

estar ali to outro do que fora, ou que ela no tivesse poder de lhe divertir a alma das saudades de sua me.

Volvidos poucos segundos, tomou ele: -Seria eu causador da tua pobreza, Anglica? Ests servindo por amor de mim?... E foi por amor de mim que teu pai deu toda a casa ao outro filho?...

-No, senhor: eu recebi o recado que o senhor Toms me mandou pelo senhor Joo Antnio... Estava j desenganada h muito; mas deixei-me estar aqui... porque no mudei de pensamento; hei-de ser a mesma at morrer... e oxal que seja cedo.

-s to infeliz que desejas morrer? -redarguiu o professo beneditino, apartando o esprito das dores que o contorciam. -No me culpes, Anglica. Bem sabes a minha posio neste mundo. Eu no posso fazer-te seno mal. Professei: fiz os

trs votos, que foram bastantes a tolher o futuro do meu cora-

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o. Se eu conseguir anul-los, poderei ainda experimentar os contentamentos do amor honesto e dos afectos imaculados. Se no, h-de ser preciso que eu me considere ainda vestido na minha mortalha de frade. Compreendes-me, Anglica?

Sobejamente o entendia ela. Trs anos de convento, e prtica familiar com senhoras de bom trato e polido fraseado, eram sobeja ilustrao  moa para perceber metade das palavras que no adivinhasse com o corao. Sinceramente respondeu ela que o compreendia; mas, por conta da demasiada perspiccia que tinha adquirido na convivncia de sua ama namoradia e de outras mui espertas em desfiar enredos amorosos e desleais, subentendeu ela cousas e intenes que as palavras do alferes de lanceiros no sonegavam.

Por feio que,  pergunta ingnua dele, respondeu a formosa de S. Pedro de Alvite:

-Compreendo muito bem... O senhor Toms esqueceu-se de mim por l, e fao-lhe agora pena porque no pude esquecer-me. Antes queria achar-me casada com o tio brasileiro, em vez de criada de servir sem outro remdio seno s-lo sempre, que no tenho legtima nenhuma de que me sustente. Mas no tenha pena; que eu ainda me no arrependi. Aqui, bem estou enquanto me deixarem. Se puserem a gente na rua, irei com minha ama para onde ela for. Um bocado de po, bom  de ganhar, e  quanto faz mngua para viver...

-Ests falando como ofendida, Anglica! -interrompeu Toms de Aquino, at certo ponto, diga-se o que  deplorvel verdade, lisonjeado do agastamento da moa. - Que querias que eu te dissesse? Que situao cuidas tu que  a minha?

Sufocada de soluos, Anglica respondia com a mais tocante expresso das almas apaixonadas. Se os lbios em vez de gemidos articulassem vozes que poderia ela dizer? Que queria ser amada, porque merecia ser recompensada das lgrimas, saudades, mortificaes, humilhamentos de criada e privao de recursos ao futuro.

Neste lance, soaram as trombetas a reunir. Toms saiu precipitadamente, cortando com um "adeus" o triste dilogo.

A BRUXA DE MONTE CRDOVA                          79

O imperador resolvera naquele dia atacar o exrcito realista em Vila Nova de Gaia.

Os voluntrios da rainha no aquinhoaram da glria da coluna de Schwalbach; mas, como vissem hasteada a bandeira bicolor no zimbrio do convento dos cnegos da Serra, a emulao dos bravos fundiu num brado comum de esperana.

Os tmidos e os desesperados viam ali o anjo da vitria naquele dia. O medo figurava-lhes triunfos com bem pouco dispndio de vidas. As janelas iluminaram-se na noite deste dia; porm, o

entusiasmo dos cidados era para to pouco e to pela rama, que,  volta do menor revs, v-los-emos enfardelar os cabedais para se transferirem ao seguro de mais poderoso exrcito, ou soterrarem-se nos recncavos armazns com os cofres, deixando nas janelas a flamejar o seu "liberalismo" em luminrias de azeite de purgueira. Os filhos e netos destes cidados cautos e ladinos so uns que, hoje em dia, inflam as bochechas e assopram tufes de patriotismo, blasonando com o seu "paladium e baluarte da liberdade" como se tivessem visto as trincheiras do Porto antes de arrasadas pelas granadas, j quando no se arriscavam a mais que resvalar-lhes o p no pedregulho.

 bom que, dobrados trinta e cinco anos, comecemos a carrejar achegas para a histria. No se deixe ir a tradio vingando levar aos livros srios do futuro umas bazfias superlativamente prvoas que desandam em desprimor e afronta dos que cimentaram com os ossos o baluarte da liberdade portuguesa.

Pede-se vnia do extravio, e promete-se continuar com os

olhos postos no programa de frivolidade que determina a boa e aceitvel misso deste escrito.

xI

REFLORESCE O AMOR

Feriste-me, minha querida alma, feriste-me este meu corao, sinal certo de vos amar muito, porque corao ferido  fonte manancial de que sempre est correndo amor.

ISIDRO DE BARREIRA (**Tmtado d@ Significaes das **Plawas)

As rpidas intermitncias de descanso ia pass-las no Convento de Santa Clara o alferes de lanceiros. Avivou-se-lhe com a memria do amor antigo a plenitude de sentimentos afectivos, de saudades e esperanas que noutros dias o deliciavam e angustiavam. Se segundo afecto houvesse sucedido ao primeiro, naturalmente a imagem de Anglica no voltaria  luz em que Toms a tinha visto; porque tanto perdem da graa e cor nativa os quadros restaurados, como as imagens desbotadas no ideal pelo atrito de outras que lhes ganharam, aos olhos do verstil amador, a primeira luz. Toms de Aquino, porm, durante o espao que demorou nos Aores, ao invs dos seus camaradas, quase todos empenhados, por igual fervor, nas lides marciais e cupidneas, no procurou nem foi assaltado de impresso que lhe apagasse da lembrana o idlio de sua escurentada mocidade. Posto que o tempo, no limiar de quatro anos, gastasse da memria dele os relevos da bela rapariga, sem todavia lhos volver mais ou menos aprimorados em outra,  todavia certo que, depois da terceira visita ao mosteiro, o alferes andava perguntando aos estadistas e legisladores se os votos da profisso monstica seriam anulados, logo que as armas dos livres vingassem arrasar as instituies mais nocivas  liberdade.

Bem  de entender que Toms de Aquino albergava no seio, ainda incontaminado das licenciosidades militares, polticas e civis do tempo, tenes virtuosas a respeito de Anglica Florinda.

A BRUXA DE MONTE CRDOVA                          81

Ela, de per si, demonstrou quanto podia a felicidade de sentir-se querida: parecia no saber expresses com que mostrar-se grata ao generoso propsito do seu amado. O que de si consigo Anglica no acreditava at certo tempo era que o frade de S. Miguel de Refojos pudesse ainda ser seu marido, sem enorme ultraje e

afronta das leis da Igreja Catlica. As velhas mais antigas do convento diziam-lhe que nunca se vira semelhante cousa; sua ama, porm, com ter visto menos que as velhas, era de parecer que sim, que podia ainda casar com o frade; visto que passar de monge bento a alferes de lanceiros valia tanto como passar de frade ou alferes solteiro a frade ou alferes casado.

Assentadas estas esperanas no corao dos dois, j ambos tinham com que rebater os argumentos da virtude, se ela os quisesse impedir nalgum expediente desonroso. Mas aconteceu -e no h nada singular no sucesso- que, estando Toms de Aquino a pensar no grave lance de tirar Anglica do convento, a virtude receada e receosa talvez, no lhe saiu com argumento importante, que merea notar-se; e bem assim, com relao  rapariga, deu-se o caso de estar ela vigilantssima sonhando que o

seu alferes a convidava a deixar a triste e baixa condio de criada, e no sentiu o rosto mais aquecido que o ordinrio, ou porque o rubor do pejo no costuma mostrar-se sem espectadores, ou porque o fogo mais intenso do amor ultrapassou as ardncias do outro. De qualquer das maneiras, Anglica Florinda tomou como agouro feliz este devaneio que a trazia inquieta e mais linda; que, se bem me lembro do que eu via quando tinha que ver, h uns alvoroos de mulher que dobradamente as aformosentam:  quando elas, voluntariamente prometidas para o noivado que a religio abenoa, ou para as npcias da sua escolha que a

religio condena, se contemplam na hora de serem avinculadas a uma outra vida j de antemo espiritualmente duplicada na sua.

O jbilo que as estremece e faz palpitar  um febril anseio. Sai-lhe ao rosto alegria que as purpureja; bate-lhes no peito arquejante o corao: h ali doidice feliz e encantadora. E haveis de notar que sobretudo vos cativa nessas adorveis louquinhas umas parecenas e realces de pudor, que elas entrernostram, de

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quem as observa naquela donosa quadra! Isto passa tambm, como disse, nas que festejam assim as vsperas de um desatino. jubilam por igual com as outras que vo do altar ao tlamo. No se estremam; nem entendem como  que estola e o latim do padre endireita o pendor do instinto pelos caminhos santos, onde o corao s consigo no pode ir, nem a sociedade consentir que v.

Isto so questes em que rinhem os sbios de topete suado. Vamos ao ponto. Toms de Aquino, ainda fardado e arregimentado em Voluntrios da Rainha, s trs da manh do dia 19 de Julho estava em

Baltar com o seu regimento debaixo do fogo de guerrilhas. Daqui marchou sobre Penafiel. Foi encamiada a a peleja. O inimigo fortificara-se no mosteiro beneditino de Bustelo. Desalojado, fugiu caminho de Amarante, e fez alto a fim de proteger as

bagagens. Neste conflito, os Voluntrios de D. Maria completaram a vitria, carregando e afugentando muito cortadas do ferro e fogo as tropas e guerrilhas. Toms foi ferido no peito por uma

baioneta: o ferimento era de menor conta; no obstante o curativo tomava-se indispensvel. Diremos de passagem que o ex-monge de S. Bento, ao perpassar por entre os mortos, viu sete frades beneditinos estirados entre a soldadesca. Avizinhou-se e conheceu dois seus companheiros de noviciado em Tibes, os quais tinham sido enviados ao Mosteiro de Bustelo, e de l tinham naquele dia sustentado o fogo contra os liberais, dando um intil exemplo de bravura'.

No dia seguinte, enviou Toms de Aquino um recado a An10 leitor, se procurar notcia destes sete frades, a pg. 497 do vol. 1.1 da Histria do Cerco do Porto, por Soriano, decerto no a v. A pg. 102 da Guerra Civil de Portugal, pelo coronel **O,wen, tambm a no acha.  preciso que algum defenda o romance da calnia de inventar sete frades cados no campo da batalha. Queira o discreto leitor informar-se com o almirante Carlos Napier, autor da Guerra da Sucesso em Portugal, traduzida lastimavelmente por M. J. P. Codina. Vol. l-', pg. 34, diz: "A perda dos miguelistas foi de perto de duzentos mortos e feridos, entre os quais haviam sete frades."

A BRUXA DE MONTE CRDOVA                          83

glica, dando-lhe aviso de que estava no hospital em curativo de um leve ferimento, e passados dias iria v-Ia.

A moa, recebida a notcia, no irrompeu em lamrias. Respondeu ao portador:

-Eu l vou v-lo, logo que puder. Foi  cela de sua ama, contou-lhe o caso, e despediu-se, prometendo voltar.

No hospital anunciou-se como parenta do ferido. Toms saiu a receb-la fora da portaria, banhou-lhe as mos de lgrimas de gratido, de amantssimo prazer, e pediu-lhe que outra vez se recolhesse.

Era um pedido como feito a medo. Anglica respondeu-lhe a

chorar; e, afogados os soluos, disse:

- Deixe-me estar fora do convento enquanto no estiver bom de todo. A minha ama deu-me licena e uma carta para eu estar em casa de umas parentas dela.

-E depois? - atalhou Toms -Voltas para o convento? -Pois eu... -tartamudeou ela.
- Querias ficar, Anglica? Antes querias estar c fora?
- Se eu tivesse a minha legtima - disse ela - alugava uma casinha, e no voltava a servir.

-No precisamos de tua legtima para isso... Ele pensava concentrado, enquanto a moa parecia querer adivinhar-lhe o segredo, fixando-lhe os olhos brilhantes de esperana e receio.

Toms chamou um alferes do 15 de Infantaria, ferido tambm, e j seu amigo desde a Terceira:

-A tua casa-perguntou ele-pode receber uma hspeda? Tua senhora ter um quarto onde possa estar esta moa que  minha patrcia e h-de ser minha mulher, se eu alguma vez

puder atirar fora de mim a costela de frade?

O alferes sorriu-se e disse: -Para casar com uma menina assim, tirava eu as costelas a todos os frades, entrando as tuas na conta. A minha casa  grande: cama  que l no h seno uma. Arranja-se, se no tiveres pr. Minha mulher h-de estimar muito uma companheira que

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h-de ser esposa de frei Toms de So Plcido, alferes de lanceiros... Olha l: esta  a tal paixo em que me falaste na Terceira?

- . -Tens razo, homem! Quem viu esta finda menina, e pde consentir que o fizessem frade, merecia que ela o mandasse  fava! Muito boa , que ainda te procurou, ingrato selvagem!... Ora bem!, eu vou mandar chamar minha mulher.

Nadavam em lgrimas de alegria os olhos de Anglica.
O alferes de infantaria saiu da beira deles. Toms, pegando-lhe da mo com meiga veemncia, perguntou-lhe:

-E ficas, pois, sendo a companheira da minha vida? No ters de te arrepender deste benefcio que trazes a um homem sem parentes, sem afeio alguma que lhe tire aos dias de hoje a negra solido dos dias passados?... Mas... sabes tu o que  este viver de soldado, de batalha em batalha, exposto a morrer

no momento em que mais cara e precisa lhe  a vida?... E, se eu morresse amanh, que farias, Anglica? Buscavas outra vez o amparo do teu convento, no  verdade?

-  conforme... - disse ela. -Conforme o qu?...
- A gente que quer morrer... morre -tornou Anglica, limpando as lgrimas e sorrindo.

XII

ADEUS!

A donde te partes, dulce mi enemigo?

..... ........................ Si es bien que no quieres Ilevarme contigo Mis ojos por eso no habrn de perderte.

D. FRANCISCO MANUEL (Mm & Melodio)

Anglica Florinda hospedara-se dois dias em casa do amigo de Toms de Aquino, enquanto alugava e alfaiava uma casinha das abarracadas que se desfizeram no cimento do circo-bazar-teatro-restaurante-ginstico-pirotcnico, chamado em linguagem enxacoca Palcio de Cristal.

Olhava contra o mar a pequena adufa da casa. Ramalhavam-lhe sobranceiras as corpulentas faias da quinta, onde Carlos Alberto ermou e achou a morte com todas as tristezas da solido. Aqueles silncios das sombras enoitecidas est sendo hoje o que  tudo por onde a indstria gananciosa edifica seus telnios. As aves fugiram dali; a folhagem no rumoreja no cho arrelvado; a

gua dos meandros, repuxada em bicas, j no tem a msica e graa alpestres do seu sodo. Acabou tudo. A poesia e a meditao, as duas asas da alma desterrada, no reconhecem j o cu onde avoejavam, antes que a fumarada das mquinas empestasse as auras que vinham do oceano ao desdobrar da noite...

Que tristeza to fora do ponto vem esta! Se haveria algum de juzo que subscrevesse este protesto contra os mercadores do progresso (a coisa diz PROGREDIOR) que desarraigam as rvores para aplainarem terra onde armem suas tendas de bonifrates e cascavis!

Era, pois, ali a casinha de Anglica Florinda. A modstia, seno pobreza exterior, desdizia da limpeza da moblia. As vizinhas pasmavam-se de ver lustrosas cadeiras e mesas a entrar em

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casa to de pobres. Mais as maravilhava de ver um guapo alferes de lanceiros e senhora to formosa e scia moradores de tal barraca!

Na prxima habitao vivia o camarada do alferes, por ele escolhido entre os bons soldados vindos dos Aores. A mulher do camarada auxiliava Anglica no servio da sua cozinha. Os recursos medianos do militar, acrescidos com a zelosa economia da sua companheira, abastavam  mediania, sendo mui provvel que o amor lhes dourasse o que era pobreza.

Amar, amavam-se quanto podem almas unidas desde a primeira e virginal aspirao: porm, para a felicidade perfeita, ou ainda imperfeita dos bens desta vida, faltava-lhes muito: era a paz, a segurana do dia seguinte, ou se quer o descuido de calamitosas eventualidades.

No podiam iludir-se. Anglica Florinda, cada vez que Toms se despedia, dizendo-lhe "at logo", seguia-o com os olhos cegos de lgrimas. "Quem te diz que o tomars a ver?! ", batia-lhe no corao esta ameaa do pressgio. E ele, voltando sobre ela o derradeiro lance de vista, enegrecia-se-lhe o corao, e do ntimo pedia  Divina Providncia que o defendesse da morte.

Parece que Deus lhe escutava a prece. Os acasos no explicam bem ao seguro a felicidade do alferes nos sucessivos recontros em que arriscou a vida, como se levasse posto o intento em perd-la heroicamente. Ia e voltava, contente de si, admirado dos seus camaradas, e por sobre tanto motivo de alegria nem levemente ferido. As intercadncias de satisfao eram curtas. Ao soar da trombeta, ao estrondear das granadas, desenlaavam-se os braos dos entes queridos, esmaiavam os rostos e rebentavam os prantos. Horas depois revezava-se outro instante de felicidade, sempre medido por to austera disciplina que nunca se viu o alferes Aquino chegar  forma entre os segundos. Anglica, passado um ano, j saa a receber Toms ao voltar da guerra, com um filho nos braos. Desventurosa chegada a do anjo para a vida do soldado! Torn-la-ia como castigo, se a conscincia o remordesse de algum ingente crime; porque o bravo

A BRUXA DE MONTE CRDOVA                         87

alferes sentia~se cada dia esmorecer dos mpetos e rivalidades que lhe davam direito a competir com os mais audazes. Era a criana que lhe enervava o ardimento. Acompanhava-o aquela pequenina sombra, estendendo-lhe os braos na despedida e balbuciando vozes que pareciam splicas. Via-o por entre a cerrao da polvorada. Alvejava-lhe por de sobre as ms de homens retravados a cndida imagem da criana nos braos da me posta em joelhos.

W, mas as alegrias da volta  casinha da Torre da Marca! A me a correr esbaforida ao encontro dele, e a criancinha entre as duas faces que se beijavam e os coraes palpitantes!

Um estranho e talvez repreensvel pensamento lhe martelava na alma ao pobre pai. Cogitava ele no ferrete de desonra que lhe infamaria o nome, se sob cor de enfermidade se esquivasse  vida militar. A conscincia argumentava, afrontando-lhe a vilania do intento. De mais disto, onde iria ele, deposta a espada, ganhar o po de sua famlia? Seu irmo, o morgado, se Toms lhe pedisse o seu patrimnio, dir-lhe-ia que o pedisse ao mosteiro para onde o pai lho enviara no dia da profisso.

Muito alanceada devia ser a alma que, nos curtos entremeios das batalhas, se deixava senhorear de cogitaes to penosas! Que afligido homem, amante e pai, continuamente a recear a

morte, ao mesmo passo que ela, a um tempo, afuzilava de milhares de bocas de espingardas e peas!

Mas, nem assim, chegada a hora de contrapor a vida ao preo da vitria, dava o alferes Aquino a perceber o terror que lhe enregelava os brios. L ia onde os mais atrevidos caam moribundos. De l o chamavam  retaguarda os clarins que davam o

sinal dos vencedores. O corao ia a rojo da honra. O frenesi, com que ele se atirava s balas mais espessas, parecia um querer finar-se to rpido que lhe falecesse sbito o conhecimento do trespasse, para no ver, durante os paroxismos, as imagens de Anglica e do filho.

Coube a Toms de Aquino a sorte seno a honrosa escolha de embarcar na expedio de Carlos Napier sobre o Algarve: era

ele um dos oficiais do destacamento de lanceiros apeados.

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A hora, que precedeu a ltima despedida de Anglica e do filho, foi um longo e expiatrio tormento de delitos grandes, se os havia na vida destes infelizes. Amordaava ele o corao para que a pobre mulher no lhe ouvisse os vaticnios. Apesar do esforo, estas foram as derradeiras palavras que lhe romperam gementes do peito:

-No torno a ver-te, minha infeliz amiga!    ... A de ti e do meu filho!

XIII

O "ADEUS" DOS VALENTES

Que nebrina mortfera ou que vento Murchou a fresca flor de tua idade?

JERNIMO CORTE REAL (Naufrgio)

Abandonada Lisboa  boa estrela do duque da Terceira, general da expedio, Toms de Aquino, convicto de estar a guerra ultimada pelo covarde desalento dos oitenta mil soldados de D. Miguel, sentiu o jbilo de quem simultaneamente recebe, com as delcias duma famlia querida, as douras da paz e o galardo dos servios. Conseguiu ele que as suas cartas, juntas s participaes do duque para o Porto, chegassem a Anglica, levando-lhe alegres esperanas da prxima reunio e tranquila felicidade de suas vidas. Expunha-se a varonil mulher aos azares de ir para Lisboa; mas o receio que lhe incutiam sobre isto, e a

oposio de Toms de Aquino sustiveram-na, atida  certeza de que brevemente estaria desimpedida de inimigos a estrada e franca s famlias dos expedicionrios que quisessem ir para Lisboa.

Com a chegada do imperador a Lisboa, o alferes de lanceiros foi promovido a tenente e condecorado.

s honras da posio militar, to galhardamente adquiridas, sobrevinham-lhe as da estima e amizade dos mais valentes do exrcito libertador. Um dos seus muito afeioados era D. Alexandre de Sousa Coutinho, exemplar dos mais destemidos, cujas faanhas, semelhantes s dum irmo morto em batalha, pareciam apontar a ving-lo, como se o outro no perdesse a vida contra muitas que a precederam na morte.

D. Alexandre, filho do marqus de Santa Iria, um dos velhos e mais venerandos vultos da pliade liberal, aliara-se ao volunt-

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rio de D. Maria H, desde que, nas proezas arriscadas, o viu a seu lado, ou, separados pela diferena das ramas e fileiras, corno que, distanciados, apoffiavam em ver qual dos dois saa com a glria de ter morrido.

Quando o duque da Terceira, em 21 de Agosto de 1833, saiu de Lisboa com urna diviso no fito de inflamar o esprito constitucional dos povos da Estremadura -esprito que nunca

existiu, nem os generais do imperador, de boa f, o receberam em conta das suas vitrias- o destacamento de lanceiros ia em uma das colunas, e na outra o regimento em que militava D. Alexandre. No lano de se dispartirem as duas colunas, uma corri direco a Vila Franca, e outra a Torres Vedras, Toms de Aquino, abraando o amigo, disse~lhe: _ Tinha graa, se nos no tornvamos a ver, Dom Alexandre! ... Morrer como Moiss  vista da terra de Cana! ... _ No penses nisso-replicou o filho do marqus de Santa Iria. -Isto  um passeio militar a ares de campo. O general Bourmont vem ai e ns voltaremos adiante dele, a no ter o duque o bom siso de o no deixar ver estas imaginrias fortificaes de Lisboa. Olha, amigo Toms, se nos aguarda ainda ocasio de nos despedirmos com a desconfiana de nos no tomarmos a ver, a ocasio no  esta. Ela vir... Muitos pensam que  chegada a hora do descanso... Muitos tm ainda de descansar de todo, se no quiserem ver as costas ao anjo da vitria...

De feito, as duas colunas retrocederam adiante do numeroso exrcito do marechal Bourmont. Vinte e quatro mil homens, um chefe de nomeada e prestgio, a notcia de uma esquadra russa aproando a Portugal para fazer desalojar D. Pedro; a esperana realentando os milhares de desesperados sobre quem pesava tanto o ferro como a vergonha, eram ainda o respeitvel inimigo que mostrava os seus esquadres aos postos avanados de D. Pedro,

No dia 5 de Setembro, ao repontar da manh, Bourmont atacava as linhas desde o Arco do Cego at s guas Livres. Uma das trs colunas agressoras moveu~se sobre S. Sebastio da

A BRUXA DE MONTE CRDOVA                          91

Pedreira descendo at ao reduto da Atalaia que defendia a estrada de Campolide.

Nesta conjuntura, Toms de Aquino, a tempo que o seu esquadro perpassava por Caadores 5, a ir tomar o posto indicado pelo general, acenou com a mo um gesto de "adeus" a D. Alexandre. O bravo oficial deu tento do acto e disse sorrindo:

- Agora, sim... vale a pena o " adeus " ...

Os realistas, aproveitando os muros e casas contguas a

S. Sebastio da Pedreira romperam acobertados por aquele ponto, e, rompendo seteiras, cobriram de balas e cadveres as linhas. Caadores 5 abalou das trincheiras  baioneta calada para desalojar o inimigo, que sustentou o terreno, peito a peito, no jardim e

 volta do palcio do marqus de Lourial. A camagem foi, neste ponto, a mais sangrenta que se travou em toda a luta. "Eu nunca vi", diz o conde de S. Vicente, "to activo fogo como o

de S. Sebastio! A casa ficou inteiramente crivada de bala rasa e metralha. Desde o porto at ao jardim, onde estava a bateria, o espectculo era dum horror esplndido capaz de satisfazer os

amadores do gnero". 1

O cadver de D. Alexandre de Sousa Coutinho, trespassado de baionetas e balas, estava rodeado de mortos e agonizantes; se alguns eram os seus que o imitaram na bravura, muitssimos eram o avaro preo daquela vida. A respeito deste moo, to chorado do exrcito, escreveu o coronel Owen na sua mescla de palavras e locues estrangeiras-: "D. Alexandre de modo nenhum podia ter sobrevivido  campanha, conduzindo-a sempre no fogo seu entusiasmo a expor-se excessivamente, e assim j tinha sido gravemente ferido no stio do Porto. " 2

O esquadro de lanceiros tinha apeado, saltando das trincheiras s avenidas do jardim juncado de mortos. Toms de Aquino, j ferido de bala no pulmo esquerdo, remessou-se de encontro ao granizar dos pelouros, dentro do acervo de cadveres, e reco 1 Guerra da Sucesso em Portugal. Tomo Lo
2 A Guerra Civil em Portugal, o Stio do Porto, e a Morte de D. Pedro, pg. 242.

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nheceu D. Alexandre. Curvou-se, levantou pelos sovacos o corpo inanimado, chamou-o, ungiu o rosto do sangue dele ainda quente e forcejou por tir-lo a rastos at s trincheiras. Neste comenos, a cavalaria, excitada pelo intrpido e desvairado francs Lus La Rochejaquelein, avanava a galope desapoderado contra o fraco reduto da Atalaia. Diante deste ponto que o aventureiro sobrinho do general La Rochejaquelein encarava como

dito da sua boa fortuna, acumulavam-se cinco regimentos realistas, assanhados e brios do sangue com que mais de mil dos seus tinham empapado o cho que alastravam. A artilharia inimiga troava desde o alto de Palma cravando as balas onde miravam as pontarias sobranceiras  infantaria e cavalos que remetiam com inslita bravura aos trincheiramentos mal guarnecidos de artilheiros.

Lus La Rochejaquelein entestava j com o fosso do reduto da Atalaia quando o tenente de lanceiros Toms de Aquino assomou na esplanada do reduto com a face arregoada de laivos escuros, porque as lgrimas tinham embebido a poeira da plvora que enevoava o ar.

Toms lanou mo da espingarda que um moribundo aferrava ainda. O desatinado francs, quando alguns supunham que ele ia passar-se aos liberais -to absurdo lhes parecia o cometimento  trincheira -, voltou-se para o esquadro e clamou, apontando com a espada:

- por ali!
O esquadro arrojou-se por sobre o fosso, e instantaneamente viram cair-lhes o chefe os cavaleiros que no caram com ele. Toms de Aquino, descarregada a espingarda, correu ao encontro dos que ainda tentavam executar o funesto alvitre do seu caudilho.

- Firmeza, rapazes! - exclamava o tenente. Neste conflito apanhou-o em pleno peito uma bala rasa. Toms de Aquino foi um dos setenta mortos de 5 de Setembro.

SEGUNDA PARTE

O LTIMO FRADE

1

FREI JACINTO DE DEUS

As casas religiosas foram convertidas em assembleias revolucionrias.

JOAQUIM ANTNIO DE AGUIAR (Relatrio)

Os frades beneditinos de S. Joo de Alpendorada -como

quer que soubessem que os do Mosteiro de Bustelo tinham pegado em armas na defesa do seu convento e alguns tinham morrido entre Penafiel e Amarante -deliberaram imitar os seus irmos, como filhos que todos eram do mesmo patriarca S. Bento. Contra a deliberao belicosa da fradaria de Alpendorada saiu frei Jacinto de Deus, censurando acremente o despejo e ferocidade com que homens de paz, amortalhados, abstrados de todo s cousas do sculo e mortos  vingana dos partidos, em vez de sarem com a cruz a pacificar dios entre portugueses, disparavam arcabuzes dos postigos de suas celas, baralhavam-se com homens de sangue; e j feridos e mortos no campo da batalha vergonhosamente expunham o hbito e provocavam gargalhadas injuriosas  religio.

Conspiraram todas as vozes contra frei Jacinto, chamando-lhe antigo jacobino e moderno malhado. Alguns dos seus contemporneos recordaram-se nesta conjuno de o terem ouvido bramir contra o povo que matara em Braga o general Freire, e

reprovar que os frades se armassem contra os franceses.

-Que negue se pode! -exclamava um velho abade j aposentado. -Que diga que no! ...

-Digo que sim -respondeu sossegadamente frei Jacinto de Deus. -Eu fui quem disse que as Constituies de So Bento nos no facultavam o uso das armas na milcia, quaisquer que fossem os inimigos. O chefe da Igreja Catlica Apostlica Romana

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tinha submetido a sua autoridade  do conquistador; a ns, humildes frades, cumpria-nos ajoelhar diante do Todo-Poderoso, rogando-lhe que aliviasse o gnero humano do peso e flagcio dos seus opressores. Levantei a minha humilde voz na casa capitular de Tibes, quando vi os dormitrios do mosteiro profanados com espingardas, espadas, chuas e facas de dois gumes. Chamei em meu auxlio a regra de So Bento e as Constituies da Ordem, porque l diz o captulo quarenta e sete: "Que  cousa indecente ao religioso trazer nem ter armas, nem por via de recreao de caa nem por se defender; porque assim h-de o

monge que no tenha a quem temer sendo a Deus... 1" E eu, meus irmos, sou daqueles monges que s temem a Deus, por isso me no armo em defesa de inimigos que no temo. As coroas em perigo de carem das cabeas que justa ou injustamente as possuem, l est quem as sustente por oficio e paga que recebe: a ns, soldados de Jesus Cristo, armados de pacincia de Evangelho e de exemplos de humildade, no incumbe destrinar enredos e dvidas sobre a legitimidade dos prncipes.

-Pois h quem duvide da legitimidade de el-rei nosso senhor Dom Miguel primeiro?! -ululou o dom abade por sobre o rugido unssono de quantos frades eram no ajuntamento. -Vossa Paternidade ainda duvida?!

-No argumento sobre legitimidades, Reverendssimo Senhor -volveu frei jacinto sem leve indcio de temeroso. -No discuto, que no  isso de minha competncia. Sou frade. Estudei e ensinei trinta anos teologias. De repblica e polticas sei o

que importa para no malbaratar os meus j pesados e ltimos dias com isso. Nada sei nem quero que me ensinem enquanto me no obrigarem a aprender sob tanta obedincia.

-Est claro como a luz do meio-dia! - regougou o dom abade aposentado aos padres mais vizinhos, espirrando uns frouxos de riso feroz. -No h que ver!  um malhado dos quatro costados! ...

2 Const. da Ordem de S. Bento, 1590, pg. 149

A BRUXA DE MONTE CRDOVA                          97

E, voltando-se para o prelado, continuou  puridade: -Se Vossa Reverendssima quer sustentar a sua dignidade, no consinta que o voto deste frade tenha ingresso nas nossas reunies. Lano de prudente ser mand-lo recolher  sua cela, ou mud-lo de casa; porque no podemos estar seguros com tal espio entre ns.

- Direi a Vossa Reverendssima - respondeu o abade - que o porte deste frade tem sido exemplar no que respeita s suas obrigaes, e ainda o no ouvimos debater matrias de governos polticos; entretanto, eu s por mim no valido a minha opinio: farei o que for decidido em comunidade.

E, dirigindo-se a frei Jacinto de Deus, ordenou-lhe que se recolhesse  sua cela e no sasse dela a entender nas deliberaes do mosteiro.

O ancio abaixou a cabea e disse:
- Meus irmos, de qualquer deliberao que tomeis, no lavo as mos, porque sou frade convosco; mostro-as, porm, a

Deus limpas de sangue; e, se alguma vez se manchassem, seria do sangue dos feridos que eu tentasse curar no campo das batalhas. E, a sairmos do mosteiro, meus irmos, to-somente este oficio nos iria bem; e de modo que, ao depararem-se-nos feridos um soldado de Miguel e outro soldado de Pedro, os tomssemos ambos um debaixo de cada brao. Jesus Cristo ainda vive e reina no esprito de sua lei santssima. O esprito do meu Deus e Senhor manda-me...

-Manda-o bem-fazer aos inimigos do altar? -interrompeu bradando o dom abade aposentado.

- Manda-me ensinar os ignorantes com a persuaso das suas divinas lies.

-E se eles no aprenderem?
- Encomend-los a Deus que lhes faa luz na escurido da alma.

- E se eles vierem aqui dentro e o trespassarem com as baionetas? Que dir Vossa Paternidade? Que faz?

- Perdoar-lhes... e morrer. Cristo era Deus e perdoou aos

que o trespassaram de cravos, espinhos e lanas. O Justo por

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excelncia no se defendeu nem consentiu que Pedro arrancasse da espada segunda vez. Como hei-de eu, indigna lama das sandlias dos justos, defender-me a ferro e fogo? Morra eu inocente, que Deus me chamar a benignas contas. Irei com as mos puras, e direi: "Vede-as, Senhor!, eu no as pus no ferro que matou. Quando maus homens me acabaram, tinha eu nestas mos o vosso estandarte: era a cruz. "

Alguns frades aparentavam de comovidos, se o no estavam de corao. Nas rugosas faces de frei Jacinto, ao proferir as ltimas palavras, derivavam duas lgrimas.

Seguiu-se um breve espao de silncio. O dom abade inexorvel dava aos ombros, resmoneando:

-A velhice areou-lhe o juzo...  tontice dos oitenta anos. No entanto, frei Jacinto de Deus, obedecendo  ordem que tinha recebido, abordoou~se ao seu cajado e foi caminho da cela.

A comunidade prosseguiu a comeada discusso sobre sair do convento em demanda do exrcito realista, ou acastelar-se nele com as guerrilhas levantadas nos seus domnios e esperar o

ataque. Prevaleceu o parecer de se conservarem, e sobreveio a

corrobor-lo a notcia de que as foras liberais, depois da sada sobre Penafiel, se tinham recolhido ao Porto. No obstante, o

mosteiro, requisitando armas aos seus caseiros, ajuntou muitas variedades delas, desde o bacamarte de boca de sino at  baioneta encravada em rijos paus de carvalho, desde o punhal at  foice roadoura. Alm disto, preveniu as freguesias circunjacentes, que no lano de ouvirem tocar a rebate os sinos do mosteiro, convergissem logo quele ponto, fazendo repetir o toque nas sinetas paroquiais.

Frei Jacinto de Deus l passava as horas feriadas do coro na sua solido, escutando em si as prticas da razo com a f, e

tirando do abastardamento do sacerdcio, averso da lei dos mrtires, relevantes provas da divindade do seu fundador. Nas suas horas meditativas pensava ele no destino do colegial de S. Miguel de Refojos e lastimava que o moo lhe no desse alguma nova da sua paragem, posto que ele a soubesse, no por efeito de revelao, mas segundo o natural processo

A BRUXA DE MONTE CRDOVA                          99

com que sucede neste mundo tudo que intende com homens ptimos e pssimos.

Fora o caso que um frade de Santa Maria de Pombeiro, mandado recobrar a sade aos ares dos Aores, sua terra natal, soubera que nas fileiras dos liberais estava um beneditino fugido do crcere de Tibes -sucesso divulgado pelos expatriados companheiros do frade. No propsito de reduzir a ovelha tresmalhada ao aprisco dos arrependidos, o monge de Pombeiro procurou Toms; e, ao v-lo de farda, correame, bon e bigode, sem vestgios da sacrossanta coroa, prerrompeu em clamores e trenos com tamanha catadupa de lgrimas que o soldado de Voluntrios da Rainha no teve mo de uma cascalhada de riso desfechado sacrilegamente na benta cara do monge. Com o que o pvido declamador saiu corrido e j temeroso de que o precito o atirasse s vaias dos mpios. Este foi o frade que espalhou na congregao de S. Bento em Portugal a notcia de estar na Terceira frei Toms -notcia que no demoveu frei Barnab, o cronista de Tibes, de contar  posteridade que o Anticristo arrebatara o preso em corpo e alma.

Muito cogitava frei jacinto no modo de saber se Toms desembarcara no Porto ou acabara nas pelejas dos Aores. Nunca se lhe apropositara o ensejo. Perigoso seria demonstrar vontade de saber novas de um expulso da religio em sequncia de processo instaurado depois da fuga, segundo o determinado no captulo 46 das Constituies.

Volvido mais de ano, no dia 3 de Setembro de 1833, dois dias antes da morte de Toms de Aquino em Lisboa, marcharam do Porto trs colunas, uma das quais ganhou sem impedimento o territrio decorrido at Penafiel. A tropa e guerrilhas realistas desalojaram daquela paragem, debandando desordenados pelas estradas de Amarante e Canaveses. O maior nmero dos que seguiram a segunda direco derramou-se pelas aldeias circunvizinhas, estendendo o terror e o alarme at ao Mosteiro de Alpendorada.

Aparelharam-se os frades para a defesa, salvo frei jacinto, que desceu  igreja, e disse, segundo o costume quotidiano, a sua

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missa. Depois, ficou posto em joelhos, cumprindo as rezas obrigatrias de que os monges aguerridos se deram por dispensados. Nesta posio, recebeu ordem de sair do convento com os demais frades que recusassem tomar a defenso da casa do Senhor. "Quem no  por ns  contra ns", concluiu axiomaticamente o intimador da ordem prelacial.

Frei Jacinto pegou do brevirio e do bordo, foi  residncia do abade despedir~se dos superiores, e saiu com os seus oitenta anos a dobrar-lhe a espinha por aquelas gndaras a baixo, com a mira posta na sua aldeia, vizinha do Arco de Balhe, em terra de Basto.

Ao chegar a Penafiel, disse-lhe a gente das aldeias limtrofes que no fosse avante, que estavam na vila soldados do Porto.

- Deix-los estar. Que tm os soldados comigo? - disse o monge e seguiu.

A soldadesca fez grande alarido, quando viu assomar o frade no alto da rua.

Os mais farsolas correram ao encontro dele, e empeceram-lhe a passagem. Frei jacinto quedou-se, e eles involuntariamente suspenderam o tiroteio das chacotas. O aspeito do monge no era de inspirar zombaria, seno respeito.

Sem embargo, um ilhu de ms entranhas Ps a mo no ombro do velho, e bradou-lhe:

-Quem vive?
- Vive vossemec, vivem os seus camaradas e vivo eu. Agora, quem amanh viver, Deus o sabe -respondeu frei Jacinto.

-No pergunto isso, seu burro!-tornou o farsista. - Quem vive? O Miguel ou o senhor Dom Pedro?

-Vivem ambos, creio eu -tornou o monge. -Tu s malhado ou realista? -perguntou outro j bandeado com o ilhu no escrnio.

-Sou frade. -Isso vemos ns, que s, velhote; mas queremos saber que partido tens, que bandeira segues...

-A de Cristo.

A BRUXA DE MONTE CRDOVA                       101

- Cristo era republicano! - disse um sargento que tinha emigrado e lido muita tolice filosfica.

-Cristo era filho de Deus -tornou o monge. -Fora lorpa! -exclamou o sargento. -Por essas e por outras  que ns aqui andamos a escangalhar o despotismo dos frades. Aposto eu que tu ainda pertenceste aos inquisidores?

- Sou do tempo da Inquisio; mas no pertenci  Ordem de So Domingos.

-Ento que frade s?
- Bento. -Bento sejais, larga os atafais! -gargalhou um soldado puxando-lhe pelo hbito.

- Deixa o velho, vinte e dois! - disse o sargento. - Para onde ias tu? Naturalmente ias pregar algum sermo contra ns...

-No, senhor, ia para a minha famlia. -Que livro levas a?
- Um brevirio. Um soldado tirou-lhe da mo o livro, abriu-o a meio, desobstruiu as goelas, deu  cabea trs vezes, e comeou a cantar:

-Domis vobisco et cum espiritu. E os outros respondiam em coro com burlesca dissonncia:
- Amem. -Vinte e quatro! -disse o sargento-, d o livro ao frade.
- Canta l tu alguma das chalaas que vocs sabem... -insistiu o vinte e quatro, pondo o livro aberto  ponta do nariz do frade.

-Ns no cantamos chalaas -disse com imperturbvel serenidade frei jacinto.

-Leva rumor! -tomou o sargento. -Vamos levar o velho ao major, e saber se o deixaremos passar.

Caminhou o frade entre a chusma de soldados e paisanos bandeados com a tropa dos liberais -a escuma das povoaes que suja todos os bandos. Estes eram os mais insultadores, Um gaiato empurrado por outro foi de encontro ao frade e derri-

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bou-o. O sargento deu uma coronhada na cabea ao rapaz, e frei Jacinto disse:

- Deixe-o, senhor. Levantaram-no e conduziram-no ao ptio do quartel de operaes.

O major interrogou-o deste teor: -Donde vem? -De So Joo de Alpendorada. -Para onde vai? -Para a minha famlia. -Que ideias polticas tem?
- Oitenta anos, senhor. -No lhe pergunto a idade...
- Ouvi bem. Respondi de modo diferente da pergunta para melhor ser entendido e crido de Vossa Senhoria. Aos oitenta anos um monge tem uma s ideia: a da morte.

- Muito bem - tomou o major. - Ir para o Porto. No queremos c fora destes santarres no plpito. Vai na bagagem; e d-se-lhe licena de alugar burro, se quiser.

-Se Vossa Senhoria me permite, escreverei  minha famlia e enviarei daqui um portador. No tenho dinheiro; mas pagarei o meu transporte logo que a minha carta seja respondida.

-Eu abono o frade, meu major -disse o sargento. Frei jacinto olhou muito fito no sargento e disse-lhe comovido:

- Possa vossemec abraar ainda sua me, nos dias da paz.
- Oh!, meu velho - exclamou o sargento, abraando-o. -Olhe que me tocou no corao, que eu no tenho neste mundo seno minha me e a minha bandeira. V l escrever a carta, que eu vou arranjar-lhe cavalgadura.

O monge procurou duas casas conhecidas: estavam desertas e fechadas.

Entrou ao acaso numa loja, escreveu e diligenciou portador com promessa de generosa retribuio. O portador tirou ressalva de que no iria ao Porto com a resposta.

A BRUXA DE MONTE CRDOVA                        103

-No vos peo esse servio. Entregai a carta e voltai para vossa casa.

Saiu em marcha para o Porto a coluna. Frei jacinto de Deus, encavalgado num macho de almocreve com chocalhos, foi durante o caminho o divertimento dos bagageiros e sentinelas. O frade ia rezando as suas horas cannicas, e, de cada vez que se benzia, as risadas casquinavam atroadoramente.

Era aquele o povo cristianssimo deste ubrrimo jardim de Roma, regado com o sangue dos infiis. O pas da Inquisio, dos evangelizadores de frica e ndia, dos quinhentos e trinta e sete mosteiros e conventos!

11

AGONIA

A aflio  porta dos reinos do Cu.

S. GREGRIO

O tenente-general Stubbs no deu mnimo valor ao frade: mandou-o embora depois de lhe perguntar qual era o esprito do povo l nos stios donde ele vinha. O monge respondera:

-0 povo  do esprito de quem vence. Dois dias depois um sobrinho de frei jacinto chegou ao Porto a procurar seu tio, que o esperava no Mosteiro de S. Bento, onde alguns frades liberais o receberam e abasteceram do necessrio.

O sobrinho entregou-lhe o dinheiro pedido, e logo o frade foi em busca do sargento a pagar, e agradecer-lhe a caridade de lhe abonar a cavalgadura, e defend-lo das malfeitorias da populaa de Penafiel.

O oficial inferior deu ansa a que o frade o convidasse a auxili-lo no descobrimento dum soldado do exrcito liberal.

-...Chamava-se ele Toms de Aquino-disse o frade-e pegou em armas na Terceira.

- Se conheo! - acudiu o sargento -, foi dos meus amigos,

e saiu na expedio do Algarve, j promovido a alferes de lanceiros.  dos mais valentes oficiais que por c temos. Assim que entrou em Lisboa o imperador, saiu ele tenente e condecorado. At sei onde mora uma rapariga linda, linda, meu padre, como

as estrelas, de quem ele tem um filho... da rapariga, quero dizer, e no das estrelas, olhe se me entende... Chama-se ela Anglica...

-Anglica... -murmurou frei Jacinto-bem sei... Era

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destino... destino! -repetiu ele, sorrindo. -No h destinos... H o arbtrio do bem e do mal... Mas o que  bem, e o que  mal?... At que ponto  o homem de si mesmo? Onde principia e onde acaba a responsabilidade?...

-Que est a a matutar, meu velho? -atalhou o sargento. -Fala comigo ou com quem ?... O senhor conhece o Toms?

-Conheo e tenho-lhe grande afecto. Entendi sempre que morria sem o ver...

-Ele no morreu ainda, homem dos meus pecados! A guerra est acabada. Isto agora vai a pontaps. Quem havia de morrer j vai. Agora toca-se o hino da vitria, e quem puder pilhar que pilhe. Olhe, Reverendssimo Senhor, eu, sem grosso dinheiro, no tomo a emigrar. Fome na Inglaterra, fome nos

Aores, fome no Porto... e afinal... sargento de infantaria... farelrio, meu povo!  verdade, o senhor frei jacinto quer saber onde mora a tal Anglica e mais o filhito do Toms? Eu vou l consigo. Ainda l estive h quinze dias, que lhe fui levar dez mil ris de mando do meu capito que  muito amigo do Toms. A moa chora que se derrete de saudades. Olhe c: o Toms foi padre ou frade ou que diabo foi?

-Foi professo de So Bento; mas no tem ordens sacras. -Mas no pode casar? -No sei o que as leis novas decidiro. Dantes quem tivesse feito voto de castidade, no podia contrair o sacramento de matrimnio.

-Voto de castidade! -exclamou a rir o sargento. -Que  c neste mundo voto de castidade! Ora o patusco do fradinho est a caoar com a gente! E o senhor tambm fez voto de castidade, hem? .

-Sim, senhor. -E quantos filhos tem,  meu frei Jacinto? Diga a verdade, seno no somos amigos...

-Tenho alguns filhos do corao, e um sereis vs, se o quiserdes ser, moo; mas no haveis de dar tantas largas ao vosso

gnio folgazo. Sede srio, quando cumpre, e gracejai a pro-

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psito, que tudo tem sua quadra. Dizei-me agora com juzo: ireis ensinar-me amanh a morada de Anglica, se tiverdes uma entreaberta no servio, sim?

-s suas ordens, se o diabo do Stubbs nos no mandar fazer alguma parvoce militar fora das trincheiras! Deixaram-nos aqui este velho asneiro, que tem nas veias gua chilra quando as no tem a estoirar de vinho do Porto. Este palerma, qualquer hora, faz cancaborrada bravia! Esto a brigadeiros portugueses, dez vezes feridos na cara, debaixo do comando dum trpego que ainda no fez cousa porque merecesse comer de meias a forragem com o cavalo! ... Raios o partam! Dom Pedro tem meia cabea de heri; mas metade da cabea e do pescoo para baixo vive por conta da caterva que o rodeia... Quer que eu lhe conte, padre, aqui em segredo como se explica a nossa vinda a Portugal? ... Quer saber como nos levava o diabo no exlio, se

no fosse ...

O sargento foi embargado nas suas revelaes pelo toque a reunir.

No dia seguinte, 8 de Setembro, frei jacinto de Deus procurou o sargento, a fim de lhe ensinar a residncia de Anglica.

- Triste nova! - exclamou o militar, quando o viu. Adivinhou, frei Jacinto! ...

-Adivinhei?! O qu?
- Adivinhou... No me disse ontem que no tornaria a ver

Toms de Aquino?

- Pois! ... -Morreu no dia cinco! Agora mesmo vi a relao dos principais que morreram nas trincheiras. L vai um bravo oficial! ... E ela? A pobre mulher com o filho! Como h-de ser isto! Em ela o sabendo! ...

-No lho digais por enquanto... Deixai-me pensar... atalhou o monge descaindo a barba sobre o seio. -Parece que tenho sobre o corao o peso dum cadver... At que ponto fui eu culpado na sorte deste homem, Deus meu? julgai-

A BRUXA DE MONTE CRDOVA                         107

-me pelas intenes, Senhor! ... Ele dizia que no existeis, nem justia, nem providncia! Eu quis que ele vos reconhecesse, fora do seu inferno, e nalguma hora de contentamento vos confessasse criador dos prazeres que geram na alma sentimentos de gratido! ...

-Que est a dizendo, frei jacinto? -interrompeu o sargento. -0 senhor foi quem o mandou alistar-se  Terceira?

-No. Abri-lhe as portas do crcere dum convento... -Fez muito bem. Deu um grande soldado  causa da liberdade! O imperador devia dar-lhe um prmio, frei Jacinto... Mas a triste mulher! ... Saber ela j?

- Vamos agora v-Ia - disse o monge - ou dizei-me onde , que eu irei sozinho.

-No posso acompanh-lo que tenho revista. Procure-a na

Torre da Marca, numas casas baixas  sua mo direita, como quem vai para um pedregulho que deita sobre a estrada da Foz.

- Irei perguntando. Fazei-me a graa de avisar os conhecidos de Anglica para que no lho digam, se ainda  tempo.

O monge tinha visto Anglica na igreja de Refojos. Lembrava-se das feies que impressionavam aqueles filhos de S. Bento, que se no julgavam jarretados no rgo da admirao artstica. Demais disto, Anglica Florinda tinha sido dois anos sua confessada e lhe deixara na memria lembranas de sua inocente vida.

-Pode ser que eu a reconhea... -ia dizendo entre si o frade, quando avistou, com a face encostada  palma da mo, por dentro de uma vidraa, com os olhos no mar, uma mulher que ajustava s suas reminiscncias.

Vizinhou da janela e cortejou-a. Anglica ergueu-se e saiu  porta.

- Sois de So Pedro de Alvite? -perguntou o frade. -E Vossa Paternidade  o senhor frei Jacinto de Deus -- disse ela, beijando-lhe a mo, e levando-o para dentro.

-Claro  que me no achais diferena, filha. Na minha idade, a fouce do tempo no tem j que roar. H dez anos que no

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tenho nada que o tempo desfaa. Este restinho de vida pertence ao@ vermes. Ora, pois, da-me novas vossas.

-Eu... estou... -balbuciou Anglica Florinda corando. -Bem sei que estais aqui e mais o vosso menino... Deixai-mo ver.

-Est na casa vizinha com a ama que o cria. -No o criaste vs? Porqu?! -Faltou-me o leite.
- Deixai-me ver o pequenino... Corno se chama? -jacinto de Deus. -Sim?! Que fineza me fizestes, filhos! Ento, o meu Toms lembrou-se de mim, quando entregou  religio, me sacratssima, a alma do seu inocentinho? Bem hajais vs! ... Hei-de ser-vos muito agradecido... se eu puder e viver... Viverei... Nosso Senhor h-de dar~me mais dez anos! ... Pois no h-de?! Eu tenho ainda foras para os viver, se o anjinho me der a

mo... Ide busc-lo...

Desciam as lgrimas e estancavam nos vincos das venerandas faces.

Anglica Florinda trouxe o menino. O monge ajoelhou, e, com ele nos braos, disse:

-Senhor!, amparai-o! Depois, passou-o aos braos da me, levantou-se abordado e

muito a custo, sentou-se, voltou a receb-lo no colo, e murmurou, como lhe casse no rosto da criancinha uma de suas lgrimas:

- Tambm  baptismo este! ... A Igreja recebeu-te pela abluo do sacramento, e eu te recebo em minha alma pela abluo das lgrimas...

Em seguida, feito um doloroso esforo, perguntou: -Tendes notcias de Toms?
- Tive-as h dez dias. Veio aqui dar~mas com uma cartinha um oficial amigo dele. Hoje quando o vi, cuidei que mas trazia... Esteve aqui algum tempo e disse-me que no tm vindo cartas de Lisboa. Parece que o inimigo tem cortado todos os caminhos e apanhado os correios. Mas ele vinha to triste! ... Per-

A BRUXA DE MONTE CRDOVA                         109

guntei-lhe o que tinha, e s me disse que estava em grande risco a defesa do Porto, se no tomava o senhor Saldanha a tomar o comando da guarnio. Ser assim?

-Creio que , minha filha. Todos os militares se queixam da inaco do general Stubbs.

-Mas eu sem ter notcias dele... -tornou Anglica, e, passados instantes, ergueu-se de salto, ps as mos e exclamou: -Vossa Paternidade  um santo!, pea a Deus que lhe diga se

ele est morto ou ferido... Pea, senhor frei jacinto, pelas cinco chagas do Senhor!

-Santo me chamais, filha! ... No injurieis os virtuosos, que so aqueles que Deus poupa s ingentes agonias desta vida! ... Levantai-vos... Eu hei-de pedir ao Senhor que...

O monge no tinha ideia nem palavras. Soluava. E Anglica, no podendo entender aquela nsia silenciosa, cuidou que ao

frade naquele instante fora revelada a morte de Toms.

-Pois ele morreu? -bradou ela, caindo outra vez aos ps do frade com o filho estreitado ao seio.
1  -Se morreu?... Santo Deus! ... Disse-vos algum que ele tinha morrido?

-No; mas Vossa Paternidade no me responde... -Que hei-de eu responder-vos, filha? Pedis-me milagres? Posso eu saber se Toms est morto?

Neste momento, ouviu Anglica proferir a palavra "coitadinha". Atentou o ouvido, e escutou estas vozes: "Ela ainda o no sabe. " Foi impetuosamente  vidraa e deu de rosto com as duas vizinhas que a contemplavam com os olhos marejados. Correu  porta e perguntou:

-Que ?!, que estavam a dizer?... -Nada, senhora Anglica... -disse uma das mulheres. -Estvamos c falando...

- Vossemecs. disseram que ela ainda o no sabe -insistiu a atribulada me. -Quem  que no sabe o qu?...

No lhe responderam, e iam caminhando com os olhos em terra. Anglica saiu  rua, travou pelo brao de uma e bradou:

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-Diga-me o que ... Diga, que eu morro de medo... Morreu o senhor Toms?...

-Assim como assim, h-de sab-lo-tomou a mulher. -Morreu, morreu o senhor tenente no dia cinco     ...

-  senhor frei jacinto! -exclamou Anglica num tom de voz indiscritvel, correndo vertiginosamente para a porta. -Ouviu?, esta mulher diz que o senhor Toms morreu... Morreu?... diga-me se morreu! ...

O frade, tremente e mal firme nas pernas convulsas, tirou-lhe do seio a criancinha, quando ela ia j tombando sem acordo ao pavimento. Acudiu a ama do menino, expedindo grandes gritos. Entraram ao pequeno recinto os vizinhos, j todos sabedores da desgraa que nem por isso abalava grandemente a

compaixo dos que j tinham chorado amigos, irmos, pais e esposos.

Frei Jacinto pediu aos concorrentes que se retirassem e o deixassem a ss com a sua ama. Despejada a casa, o ancio sentou-se em uma banqueta e puxou para os braos e seio a pobrezinha que arrancava do corao vozes inarticuladas. Por sobre a lvida face dela erguia o monge as mos e mentalmente orava, postos os olhos nas imagens que pendiam das paredes. O menino brincava com as tranas soltas da me, e retraa-se quando ela vociferava uns sons roucos de estertor como os do ralo da morte. Frei Jacinto de Deus continuava a orar; e, em meio de sua orao, disse em alta voz:

-Olhai para este menino, Deus misericordioso! Senhor dos atribulados, eu vos ofereo as minhas angstias de tantos anos pela vida desta desamparada me. No lhe tireis assim o alento, que est ali aquele orfozinho! ...

**HI

MEDICINA DA ALMA

Os anjos consolam aos afligidos e atribulados, para que no desmaiem.

PADRE ANTNIO DE VASCONCELOS (Tratado do Anjo-da-**Gwrda)

Uma alma trespassada de saudades de outra, que passou ao infinito, dois remdios tem somente que a socorram: a religio  um; o outro  de tanta vulgaridade que faz pejo diz-lo:  a distraco, sinnimo de outro vocbulo ainda mais raso: divertimento. As curas operadas pela segunda espcie sobreexcedem muito as do blsamo divino.

A gente, a cada passo, d de rosto em teatros e salas com umas criaturas risonhas de quem, noutros dias passados, lamentmos as desventuras como se fossem nossas.

Poderamos, a olhos secos, ver a jovem viva que perdesse o esposo antes de festejar o seu primeiro aniversrio de amantssima e ditosa consorte?

Que alma no vestiria luto, vendo uma cariciosa me perder um deps outro os seus filhos todos, j criados e formosos, e ficar velha e solitria ela, sentando-se  mesa do repasto, a contemplar vazias as cadeiras dos filhos?

Qual julgareis que devia ser o remate das aflies da irm que viu pai e irmos engolfados na vaga da tempestade que os revessou  praia to menos de cadveres que nem pedaos restaram sobre que a piedade filial pudesse tributar os responsos fnebres em que Deus quer que v no pequeno desafogo?

Pois quem salvou a me, a esposa, a irm que ontem vimos a louanear por bailes, a estadear-se nos teatros, a emular seu quinho de jbilos onde concorrem os felizes ainda no apalpados pela desgraa? Quem as salvou? Foi a distraco, o divertimento.

112               CAMILO CASTELO BRANCO

E porque no seria a religio? No  daquela sorte que a religio cura. As curas do cu so esperanas e conformidade.    Aqueloutras que vedes chamam-se "esquecimento". Onde est o blsamo piedoso est a memria permanente com lgrimas j desacerbadas do amarssimo desesperar, j doces, j suaves e olorosas como a orao.

A "distraco" que vos deu renascidas e vivedouras criaturas, ao primeiro encontro, preadas de sua angstia,  fealdade assim humana que abjecta: h a coisa de nojo e vergonha. A religio cura; mas os convalescidos da mortal enfermidade nunca mais voltam a buscar contentamentos onde eles se recebem em troca da memria doutros, que era sagrado dever no atraioar.

Vem isto como prefcio da restaurao de Anglica Florinda que a cincia de curar almas e corpos prognosticou morta ou louca.

Nem louca, sequer: trivialidade romntica de que no encontrei trs casos bem averiguados no hospital de doidas, onde mais de cem riam e choravam.

Ms e meio assistiu frei Jacinto de Deus  cabeceira de Anglica. Pde ele criar no esprito da enferma a imagem do cu; depois a da esperana; a morte como transformao para a vida infinita; a reunio das almas santificadas pela agonia terreal; a conscincia dos espritos de alm-mundo em coisas deste; a memria e constante viso dos entes queridos que ficaram aqum dos ditos da eternidade, esperando redimirem-se.

O monge tinha crditos de santo no nimo de Anglica. Chamava-lhe filha, e ajoelhava  beira da sua cama, pedindo a Deus que lhe demorasse o dormir das cruelssimas noites. Espertava Anglica, e via as cs do anci o encostadas ao seu travesseiro. O santo dormia, e ela apertava na garganta os gemidos para o no acordar.

 crise perigosa sucedeu a orao. Passava o mais das horas nas igrejas desertas. Naquele tempo a cristandade portuense amortecera. Cheirava o ar  sangueira: quem se afez quilo res-

A BRUXA DE MONTE CRDOVA                       113

pirava mal o fragrante incenso dos templos. As vivas e rfos dos mortos nas trincheiras no encontravam ningum que os

mandasse pedir remdio a Deus. Deus!, para qu? No sabia j o gentio que os conventos, cruzes e Deus ia tudo acabar? E que, vencedora a civilizao, s teriam fome os vencidos? A herica plebe acanalhava assim o progresso. Depois  que se viu que o

progresso, em verdade, no ia longe disso.

Recolhamo-nos, ao ponto. J confiado frei jacinto na resignao de Anglica, falou assim:

-Filha, eu devo a Deus a merc de me dar um bom sobrinho com abundantes bens de fortuna. Foi-me grato. Era filho natural de meu irmo. Adoptei-o, perfilhei-o, dei-lhe a casa que me viera por sucesso. Hoje diz ele que no  dono, mas sim administrador das minhas terras. Pede-me ele que v para a sua companhia, e eu, Anglica, peo-te, que venhas tambm.

-Vou... irei... -murmurou ela. -No vens de vontade, filha? -acudiu o monge inferindo da balbuciao o constrangimento. -Diz ao teu amigo que outro intento tinhas?

-Nenhum. -Mentiste, Anglica! -voltou o frade com severidade. Ps ela as mos e disse:
- Perdoe-me... eu menti.
- Perdoada ests.
- A minha vontade era voltar para o convento.

-Irs, que vais bem. E o teu filho? Deixarmo-s levar...
- O meu filho!... - atalhou ela. - Pois eu tenho de me separar dele?

-Tens: as crianas no so ou no eram dantes admitidas nos conventos... Remediemos, se te parecer bom o meu alvitre.
O pequenino est acabando a sua criao; deix-lo estar aqui at aos trs anos; podes v-lo todos os dias. Aos quatro anos, se eu

ainda viver, tomo conta dele para o mandar educar; e, se eu tiver morrido, meu sobrinho se encarregar de o fazer homem. Isto parece-me bom...

114              CAMILO CASTELO BRANCO

- tudo bom o que Vossa Paternidade ordenar; so ordens de Deus.

-Pois se so ordens de Deus, a vai outra. Recebereis no convento o necessrio para a tua sustentao. No quero que vs servir, porque no tens foras para o trabalho de fabricar doce. Comprarei uma cela para ti, e vivers recolhida como as seculares. A criao do meu jacinto corre c pelo almoxarifado do frade.  galantaria os meus oitenta anos a cuidarem nos incmodos da dentio do pequerrucho. Abrigue-se a violeta debaixo do sobreiro secular. Veremos se consigo tirar prolas de virtudes daquela pequenina concha; e, se conseguir, aparecerei adornado com elas na presena do meu juiz.

IV

EPISDIOS DE FREI JACINTO

Qualquer homem que tem alguma eminente parte, em

que se diferencie dos outros, ou em seu modo de proceder e condio primorosa se distingue... logo vereis todos eles sem algum modo de razo encararem nele os mosquetes de suas traies e malicias.

FREI CRISTVO DE LISBOA (Consolao de Aflitos)

Tudo se facilitou s diligncias do solcito monge. A freira, que tinha sido ama de Anglica, cedeu-lhe parte de sua casa; e, alm do afecto antigo, recebeu-a com respeitosa compaixo de sua desgraa. Perto do convento, nas escadas do Codeal, alugou o frade um sto para a criadora do menino, a qual j se disse que era mulher do camarada de Toms.

Feito isto, frei jacinto foi para a sua aldeia, deteve-se alguns dias festejando os filhos e netos de seu sobrinho, e saiu caminho de Tibes em busca do leigo frei Manuel da Redeno, por conta de quem correra a fuga do colegial de Reiojos. O frade porteiro, quando reconheceu frei Jacinto de Deus, fez p a trs e exclamou:

- Vade retro, Satans! Como o mpio malhado ousa bater s portas santas desta casa! Vem espionar o que se passa?, quer ir dizer aos do Porto o dinheiro e as alfaias que h em Tibes?

- No, meu irmo - disse o monge. - Eu venho saber se ainda vive frei Manuel da Redeno.

-Era dos da sua laia... Morreu... j o levou o diabo, assim como o outro seu amigo que fugiu para a Terceira... Todos tm

o pago...

- assim, irmo, ; todos tm o pago. Fique-se o nosso irmo com a graa de Deus.

Afastou-se caminhando morosamente o frade at cavalgar a

116              CAMILO CASTELO BRANCO

mulinha que o esperava ria estrada. A notcia de tal visita reboou nas claustras e ainda alguns frades encanecidos tiveram a fortuna de ver frei jacinto a distncia de o injuriarem com palavras e apupos.

-  o mosteiro que est nas agonias do brio que se afoga em lama -disse o monge a dois netos de seu irmo que o acompanhavam.

Dali jornadearam, por terras de Basto, desviando-se j de um, j de outro bando. Chegados a S. Pedro de Alvite, vizinhana de S. Miguel de Refojos, o frade pediu novas da famlia de Toms de Aquino. Estava o irmo mais velho na casa de que era senhor. Pediu que lho chamassem. Desceu o morgado ao terreiro da casa, reconheceu o amigo de seu irmo e disse-lhe sacudidamente.

-0 doido l o atravessaram as balas em Lisboa. Foi a desonra da nossa casa. O pai morreu na defesa do altar, e o filho acabou na fileira dos ateus.

-Seu pai defendia o altar? -perguntou frei jacinto. -Pois no sabe que os liberais de Fafe o mataram no Ladrio? Vossa Paternidade est-se a fazer parvo!

- Constou-me que o mataram; mas disseram-me que o senhor Simeo de Aquino andava agarrando homiziados para os entregar quele grande ministro chamado Joo Branco, o qual decerto no era ministro do altar.

-Pudera no! -tomou o irmo de Toms com certo jbilo de ver j notcia a dedicao de seu pai. -E Vossa Paternidade, se pudesse, no os agarrava tambm?

-Agarrava para escond-los do pai de Vossa Senhoria. -Que tal est o patife do frade! -exclamou um oficial de grandes barbas, arrastando a espada, e coriscando dos olhos scuas de clera.

Frei jacinto de Deus encarou serenamente no temeroso homem, diante do qual todos se afastavam e descobriam, e disse:

- Vossa Senhoria o senhor Pita Bezerra, se me no engano.

- Sou.

A BRUXA DE MONTE CRDOVA                      117

-Conheci-o muito novo e dcil menino em casa de seu tio o senhor capito-mor de Cabeceiras, Serafim Pacheco dos Anjos.

- E da? - bradou o celebrado carnfice. - Cuida que no o

mando despir e chibatar, seu indigno frade, que ousa dizer que escondia os malhados do justo castigo que os espera?

-Apoiado! -exclamou o irmo de Toms de Aquino.
- Eu lhe direi, senhor - redarguiu o monge -, esconderia da ira inconsiderada do seu inimigo todo homem em aflio; esconderia no meu hbito o senhor Pita Bezerra, se amanh os seus inimigos viessem bradando que era justa vingana mat-lo. A todos esconderia, a mim  que me no escondo dos homens; esconder-me~ia s de Deus, se pudesse. Pode pois Vossa Senhoria mandar-me chibatar, se nisso lhe vai satisfao.

-No mo pea segunda vez! -bradou o capito de Infantaria 13. -Cadeia com ele e com estes que o acompanham!

-Estes so inocentes, que ainda no proferiram palavra, senhor Pita Bezerra! -disse o monge. - Parece-me justo que os

no prendam.

-No me pregue lrias! Ferros com eles, antes que os mande passar pelas armas! ...

Alguns milicianos de Guimares rodearam o frade e os sobrinhos com ar de constrangidos. Pita Bezerra, como os visse frouxos na diligncia, bradou:

-Querem ir todos a pontaps? Os presos entraram ao anoitecer na cadeia das Pereiras. Os mancebos choravam e o tio frade dizia-lhes:

-Ento, rapazes! Chorar!? Que pusilnimes sois! ... No vos envergonham os meus oitenta anos! Eu tambm nunca pernoitei entre estes ferros; mas, se me no engano, o sono das conscincias quietas no estrema o crcere nu, de uma boa alcova cortinada. Se Deus vos deparar uma cama, muitas graas lhe daremos.

Pouco depois, chegava  cadeia um velho carregado de colches. Lanou-os ao cho e ajoelhou-se a beijar a mo do frade.

118               CAMILO CASTELO BRANCO

- Estou-vos conhecendo... - disse vacilantemente frei Jacinto.

- Conhece Vossa Paternidade em mim o leigo Joo do Socorro, o criado e amigo do senhor frei Toms de So Plcido que Deus tem.

-Se conheo! ... no vos vi eu em Alpendorada, pouco h? Ento h ainda mais uma terceira pessoa que chore o nosso infeliz Toms! ... Bem-vindo sejais irmo!... Deixastes de todo o

hbito? Servi a Deus sem ele. Visitai os encarcerados como agora fizestes, dai-lhes uma palhas para que o frio das pedras os no tolham, e isso vos valer muito para a salvao diante do Senhor, que no pesa na sua balana os hbitos, Viveis com os parentes de Toms? Mau homem me pareceu o irmo!

-No, senhor. Fui expulso porque defendia o nosso infeliz das aleivosias do irmo. Levo minha vida em negcio de colmeias, e graas a Deus, no tenho fome nem frio. H ano e meio que comecei, e j posso oferecer a Vossa Paternidade algumas moedas de ouro, se me faz a esmola de as receber e pagar-mas em missas por alma do senhor Toms.

-Meu irmo, eu vos direi as missas, se viver, e vs me dareis como esmola o prazer de sufragar por vossa conta a alma do nosso amigo. Levai nas boas horas o vosso dinheiro que nos no

 mister. Ide em paz, que ainda me falta mais de metade da minha reza.

Ao outro dia, os filhos do sobrinho de frei jacinto foram postos em liberdade. O monge, porm, ficou para responder pelo crime de ter sado de S. Joo de Alpendorada com o propsito de se ajuntar, como de feito ajuntou em Penafiel, aos rebeldes.

Levado a perguntas, o ru respondeu singelamente que fora despedido...

- Porqu? -perguntava o juiz ordinrio.
- Por no pegar em armas.
- E porque no seguiu o honroso exemplo dos outros frades ?

A BRUXA DE MONTE CRDOVA                        119

- Porque o exemplo no era bom. -E preferiu unir-se aos rebeldes? -No me uni: levaram-me preso, escarneceram-me, derrubaram-me facilmente na lama da rua; mas ainda assim houveram-se com caridade comigo. No me caluniaram.

-Que fez durante o tempo que esteve no Porto?
- Algum acto bom que Deus Nosso Senhor me descontar

nos maus.

-Responda inteligivelmente. Em que se ocupou?
- Exercitei o meu oficio. -Que oficio?
- O dos viadores neste desterro: a caridade. -De que modo? -Do modo ensinado por Jesus: fiz bem a amigos e inimigos. No me saiu, porm, a sorte feliz de bem-fazer seno aos que me estimavam e amavam.

-Aos liberais? -A uma famlia desamparada pela morte de um liberal. Mandaram-no voltar para a cadeia, e no dia seguinte deram-lhe liberdade, porque muitos cavalheiros realistas de Basto conjuraram a favor do monge, que tinha renome de bom homem, algum tanto estonteado pela grande velhice. Salvou-o a fama de tresloucado.

Abrigou-se o frade no seio da famlia e descansou alguns meses. Ultimada a guerra e chegado o lano das retaliaes polticas saiu a pedir e orar caridade e misericrdia com os vencidos. Apaziguados os tumultos no seu concelho, tornou ao Porto, onde o chamavam saudades de Anglica e do seu pequenino jacinto.

Anglica apareceu-lhe j de todo desformada da beleza com

que ainda entrara no mosteiro. Observou o padre que a linguagem dela era refinadamente mstica com seus entremeios de crendices disparatadas. Dizia maravilhas dos Exerccios Espirituais de Afonso Rodrigues, e contava os milagres feitos por freiras mortas e vivas daquela casa, muito mais inverosmeis do que

120               CAMILO CASTELO BRANCO

os contam as crnicas franciscanas. Frei jacinto de Deus escutou-a largamente e disse:

-Muito bem, minha filha, folgo de vos encontrar to espiritual; sinto, porm, que a matria se vos converta em esprito mais que o til e necessrio. Estais muito acabadinha.

-Os jejuns e os cilcios.. . -murmurou ela. -Quem vos inculcou a preciso de jejuns e cilcios
- Um fradinho muito santo da Arrbida que est em casa duns fidalgos e vem aqui confessar algumas santinhas.

-0 frade  santo, e as freiras so santas... -volveu o egresso, coando a calva. -E diziam que a liberdade vinha empobrecer o futuro calendrio de Portugal! Ser essa gente bem santa, minha filha? Se tu quisesses, reflexionvamos um pouco sobre o que cada um deve a Deus, a si e ao prximo. Estes deveres bem cumpridos produzem excelentes qualidades em quem os pratica. Formam-se com eles a mulher boa e o homem bom. Quanto a santos, isso  l com Deus que os v, e com o Esprito Santo que os canoniza.

-Pois no  santo o fradinho da Arrbida?- replicou ela com espantado reparo.

-Que sei eu do fradinho da Arrbida, minha pobre Anglica! Ser santo, e todavia no jejuar at ficar em osso, e talvez no ande mortificado com as rosetas dos cilcios...

- Afl, se anda! ... e toma todas as manhs uma disciplina.
- Conta-vos ele essas penitncias?
- Dizem-no as fidalgas.
- Pois bem pode ser que ele precise das penitncias; mas tu, filha, no tens pecados que...

- Eu! ... Me de Deus! ... H maior pecadora do que eu fui! -exclamou ela gesticulando  feio de muito aflita. -Por causa do meu pecado  que o senhor Toms morreu... fui eu a causa da sua morte... Seu eu o no fosse desafiar ao convento, estava ele vivo... e assim est morto e talvez para sempre nas

penas do inferno!

-Isso disse-to o fradinho ? -Sim, senhor frei Jacinto; e eu, esperando que Deus no

A BRUXA DE MONTE CRDOVA                        121

condenasse ao inferno a alma do senhor Toms, aplico todas as

minhas penitncias por alma dele a ver se o tiro do fogo do purgatrio.

Deteve-se o consternado monge a contempl-la, e perguntou-lhe:

- Tens visto o teu filhinho? Rompeu Anglica em soluos e gemidos, podendo apenas dizer:

-0 confessor no quer que ele c venha, seno de longe a longe.

Feita uma longa pausa, tomou frei Jacinto:
- De sorte que eu perdi todo o imprio que tinha em tua alma! H seis meses a minha vontade eram ordens divinas. Hoje, eu, em comparao do arrbido, sou nada. Que admira! Se tu deixaste de ser boa me, como havias de ficar amiga do teu velho enfermeiro! ... Pois pudeste, Anglica, obedecer ao fantico estpido que te ordenou que lanasses de ti, e do teu amor, e do teu corao o filhinho de Toms de Aquino? Assim pagas  memria daquele bom pai que tanto amava o seu menino, como tu me contaste? No te disse ele uma vez: "Se eu morrer em batalhas, e te faltar o beneficio dos teus e dos meus parentes, toma no colo o nosso filho, vai s portas dos meus camaradas, e pede bem alto: esmola para o filho do voluntrio da rainha Toms de Aquino! "

Anglica Florinda ofegava lavada em pranto.
O monge prosseguiu: -Visse-te ele assim do cu, do purgatrio ou do inferno, que no teria seno lgrimas para o filho e maldies para a

me! Que quer esse frade que faas  criana? Que te diz? Que o enjeites? Responde, filha!

-No me diz seno que Deus o proteger -balbuciou Anglica.

-Mas no se oferece ele para to proteger? O fradinho santo no querer fazer a caridade de recolher o inocente filho do crime, de modo que nunca o remorso tenha em tempo algum de esmagar o corao da me?! ... Basta de hipocrisia, de bestiali-

122             CAMILO CASTELO BRANCO

dade fradesca e de crueza maternal! -exclamou o monge, levantando-se convulsivo, e batendo rijo com o punho na banqueta da grade. -Basta, Anglica! Digo-te em nome de Deus que esse frade, se no  estpido,  infame!

-Jesus! Santo nome de Jesus! -gaguejou ela a tremer e a enfiar.

- Infame ou estpido! - recalcitrou frei jacinto. - Diz-te que abandones teu filho? Pois sabes tu que as mes descaroadas, as mes que desamam os filhos, no pode haver Deus que lhes perdoe nem cu que as receba. As virtudes das virgens so benquistadas do Senhor; mas as mes, que pensam sanear um crime com outro crime, no restauram com isso o poderem ombrear com as honestas e puras. Aos olhos de Deus hs-de ser sempre a criminosa que cuidaste iludir seus juzos pondo os ps sobre o inocentinho para que Deus to no visse.

A este tempo, Anglica estava ajoelhada, com o rosto entre as mos, soluando e expedindo a espaos uns gritos que chamaram gente  porta interior da grade.

A pobre mulher dera tento de avizinhar-se algum e fazia aflitssimos sinais de silncio ao monge. Ele, porm, duplicando a veemncia da voz, clamou:

-Eu queria fazer saber s senhoras desta casa que  preciso trancar suas portas  peonha que saiu da postema dos conventos! Queria dizer-lhes que est ensopada em sangue a terra de Portugal por causa do fanatismo sacrlego dos frades que pregoaram a caridade das forcas e insinuaram nas almas ignorantes doutrinas sanguinrias, interveno de Deus em baixas misrias do gnero humano, um jogo mpio de cu e inferno para tudo e de tal forma que no haver hoje alma alumiada por um lampejo de razo que possa conceber prmios nem castigos fora deste mundo, em que os visionrios da casta do arrbido tomaram escamecveis todas as coisas sublimes da religio de Jesus Cristo!

O frade cara extenuado na cadeira, apanhando as bagas de suor r@a manga da batina.

Corridos momentos, levantou-se, apoiou os braos nas reixas e disse brandamente:

A BRUXA DE MONTE CRDOVA                 123

- Anglica! ... vou ver teu filhinho ...
- V, v... - disse ela gemente e ansiada. -Queres que o teu velho frade traga consigo a criana?
- Pois sim... - balbuciou ela amedrontada. -Ora eu to agradeo em nome do meu pobre Toms! Ele est contente por ver que no precisas tomar o menino no colo, e clamar s portas dos liberais: "Esmola para o filho do voluntrio de Dona Maria segunda! "

v

A SENHORA MARIA

Qu mujer!

MIRA DE MESCUA (EI Nbm de My@ F,~)

-Ai! Deus o traga! -exclamou a ama, quando viu o egresso. - Ando h dias pra mandar escrever a Vossa Senhoria pramor da me do Jacintinho!

- Aqui me tem, senhora Maria. J sei o que me quer contar.

-j!? Ainda bem! Esteve onde a ela?
- Estive. -E viu como o berzabum da beata est cabra pr filho? Tenho l ido com ele de oito em oito dias, falo  portaria, a porteira manda-a chamar; e ela -m raios! -manda dizer que est muito ocupada! Bedes bs no que deu aquela criatura! Plos modos foram os crelgos que lhe deram volta ao miolo! Tanta choradeira que fazia ao princpio quando eu l ia, e vai depois s duas por trs d em santeira e despreza este menino que  mesmo a formosura do cu! Ora venha v-lo, senhor frei jacinto! Olhe como ele est lindo no bercinho! Se no fosse a caridade de Vossa Senhoria, este anjo ia pr roda!

-Vossemec tem recebido sempre os seus ordenados? -Isso l ainda o dia do fim do ms no est acabado e j o

dinheiro me entra pela porta dentro. Bem no diz o meu homem: "Se os frades fossem todos como o senhor frei Jacinto, a religio no acabava ... "

-Ento por c entendem que a religio acabou, senhora Maria?

-  o que diz o meu homem. Eu bem me custa no ir 

A BRUXA DE MONTE CRDOVA                        125

minha missinha, porque fui criada com ela; mas o meu Bento Gomes diz que Deus est em toda a parte, e que a hstia  po, e o vinho do clix ...

-  vinho - atalhou o frade sorrindo e continuou: - Ento seu homem tambm  filsofo e esprito forte?

- Nada; o meu homem pediu a baixa do servio, e est empregado em guarda da alfndega. Foi ferido cinco vezes e

ganhou doena dos rins, por isso pediu a baixa, e est ganhando trs tostes e dez ris. Graas a Deus, vamos remediando a nossa vida.

- Sempre vossemec vai dando graas a Deus! ... Alguma religio h nesta casa...

-Pois l Deus, isso nem dado nem de graa. Quem fez o mundo?

-  verdade... quem fez o mundo, e quem fez a vossemec...

- Isso foi meu pai, acho eu.
- Tambm eu acho isso; e seu av fez seu pai...
- ol! -E quem faria o seu ltimo av que no teve pai? -Desse no me falava minha av: acho que ela j o no conheceu...

-Nem eu, apesar de ser muito antigo.
O frade dialogava e sorria, ajoelhado  beira do bero, anediando as madeixas louras do pequenino. Depois, descobriu-lhe os bracinhos nus, viu uns garatujos escuros na polpa dum brao, no outro umas armas reais com letras, e perguntou espantado:

-Que  isto?!
- Foi meu marido que lhe fez estas cousas com tinta, que fica para sempre na pelzinha. Neste brao esto duas letras: um

T e um A. No so?

- Parecem-no. -Quer dizer "Torns de Aquino", que era o pai do menino. Nestoutro bracinho est a coroa real da nossa rainha e por baixo estas letras dizem "Viva Dona Maria segunda". No est bem feito?

126              CAMILO CASTELO BRANCO

-Mas isto foi uma crueldade! A criancinha decerto chorou com dores.

- Agora chorou!, no tugiu nem mugiu! A senhora Anglica tambm entrou a barregar quando viu isto... Meu marido encheu-me o corpo destas trapalhadas... Quer Vossa Senhoria ver urna "Senhora da Rocha" que eu tenho na bucha do brao?

-No  necessrio... deixe l estar... -E noutro tenho um "Santo Solimo ", que livra de feitios e maus olhados. Pois no livra, senhor frei Jacinto?

- Sim, senhora Maria, Santo Solimo livra de tudo o que vossemec quiser.

-Est a chalaar Vossa Senhoria!.., -tomou a ama a rir

de velhaca. -Eu tambm no tenho f com isto; mas o meu

Bento quis... v l... Se hs-de ir pr taverna, faz quantos Solimes pr a quiseres.

-Pois melhor seria que ele, em vez de estragar os braos deste menino, fosse para a taverna. Diga-lhe que eu o probo de escrever no corpo da criana... E amanh, senhora Maria, esteja pronta com o menino s dez horas, que temos de ir ao convento. Deixe~me dar~lhe um beijo sem o acordar... At amanh...

-Olhe l, senhor frei Jacinto! -disse a ama-, no sabe que prenderam o Pita Bezerra? Aquele grande carrasco?

-Prenderam? -Mas o povo est na Cordoaria  espera que ele saia do tribunal da Rua da Fbreca para o matar. Eu, se no tivesse esta criana, tambm l ia cortar-lhe uma orelha.

-Que mal fez o Pita Bezerra  senhora Maria? -- perguntou o frade.

-Diabos o arrastem, que nunca o vi; mas matou a gente nesse Porto que no lhe sei dizer. Eu disse a duas vizinhas que l foram:  mulheres, se me trazeis a ponta do nariz desse ladro pago-vos duas canadas de vinho maduro, e mais ele est pelas portas da morte.

-Essa sede de sangue  imprpria duma mulher, senhora Maria...

A BRUXA DE MONTE CRDOVA                       127

-Pudera no! Tomara eu ver todos os caipiras picados como abola de estrugido.

O frade ia dizendo entre si: "0 sexo fraco, do qual dizem que a brandura da alma  o seu particular condo! ... "

Encaminhou-se frei jacinto de Deus  Rua da Fbrica. Quando chegou  Rua de Santo Antnio, viu grande chusma de povo a desbordar da Viela do Correio, urrando "morras" e floreando no ar espadas e chuas. Ao convizinhar da revoluteante m de mulheres, maltrapilhos e garotos ouviu que os gritos diziam: "Morra. o Pita Bezerra." Perguntou onde estava ele e

disseram-lhe que estava a ser julgado e que o esperavam para o matar.

-No seria melhor que o deixsseis ser castigado pelas leis?
- Quais leis nem qual diabo! -bradou um soldado dos batalhes fixos, sacudindo uma espada curta. -A lei  o povo! Ser voc algum burro da panela dele?

- No sou, camarada - respondeu serenamente o frade eu sou um dos que ele meteu na cadeia.

-E ento est a a dar aos taleigos a favor do malvado que tirou um pedao de ndega a meu irmo, salvo tal lugar, aqui! Ora meu velhote, no se v fazer fino com palavreado l para o

meio do povo, que lhe vo  pavana! Tome o meu conselho...

Frei jacinto muito cosido com a parede, pedindo licenas com a maior humildade, chegou at  porta do tribunal, a tempo que Pita Bezerra descia as escadas entre soldados.

Ao verem-no, centuplicaram-se os gritos. Os silvos das mulheres, como os da cobra cascavel, sobrelevavam os rugidos dos tigres, que nada menos se figuravam aqueles homens recurvando as garras para o cevo da carnia.

Pita Bezerra, j condenado  morte, chegou ao limiar do ptio com o sangue j represado no corao. Encostado no alisar da porta estava o frade. O sentenciado, que ali chegara com parecenas de cadver, encarou no homem da batina.

-Sou aquele pobre frade, senhor Pita Bezerra... -disse frei Jacinto de Deus; e, assomando no umbral da porta, disse voltado para o povo: -No queirais manchar vossas mos puras com

128              CAMILO CASTELO BRANCO

o sangue do criminoso. Povo valente, povo magnnimo! Vs destes  justia a vitria; quebrastes as algemas aos legisladores; deixai agora  justia a misso de vos vingar.

-Que diz o asno? -bradou uma regateira. -Fora burro!... - conglobaram-se muitos gritos. -Quem vos fala-tomou o frade imperturbvel- um dos homens inofensivos que este cruel lanou em ferros. Mas no permita Deus, nem a liberdade, que vossos braos conquistaram, que eu vos incite a matar este criminoso sem que todas as suas vtimas o possam ver no patbulo. Sabeis que se mata um homem num momento? Que  pequeno castigo para este matador tirar-lhe num instante a vida, quando ele tantas arrancou vagarosamente com demorados tormentos? No querereis antes v-lo caminhar do oratrio  forca? Cidados!, deixai-o entrar com vida na cadeia; e no lhe deis o prazer de o matar num curto momento; porque ele decerto antes quer a morte repentina com que o ameaais do que a lenta agonia do oratrio e o espectculo da infamante morte. Quantos parentes vossos caram nos baluartes desta cidade acutilados ou varados de pelouros? Morreram, e contudo eram honrados defensores duma causa justa! E quereis vs, imprudentes, que este homem acabe como acabaram os valentes que chorais? Quereis que ele no tenha paroxismos mais duradouros? Quereis que ele daqui a cinco minutos esteja insensvel aos castigos que devem prolongar-se at que o

peso do carrasco lhe aperte a garganta? Cidados, vede o que fazeis! A vida deste homem deve ser cortada fio a fio. Se o matais dum golpe, podereis dizer que no vingastes as vtimas de Pita Bezerra.

-Apoiado! -conclamaram muitas vozes. -Apoiado!, deix-lo ir! No se mate! Diz bem o padre: h-de morrer aos pedaos! ... Ferros com ele! Deixem passar, mulheres!

A escolta abriu passagem. Pita Bezerra ao perpassar pelo padre baixou-lhe um olhar de implorativa gratido. Frei Jacinto no o encarou.

Vinte passos andados, a turba que sobreveio do lado dos Clrigos, e no tinha ouvido a alocuo triunfante do frade, rompeu

A BRUXA DE MONTE CRDOVA                        129

de chofre e ferro apontado contra a escolta, arrancou do preso, acutilou-o, espedaou-lhe o rosto, estrangulou-o com um grosso esparto, arrastou-o esfacelado pelas ruas, e levou-lhe o arcaboio meio escamado  beira do Douro, onde o arrojou, urrando uma

prolongada dissonncia de gritos exultantes, vociferados pelos mesmos que tinham cuspido afrontas s cabeas cravadas nos espeques da Praa Nova em 1829.

Era o mesmo povo. Frei jacinto de Deus, quando viu ir no pendor da Calada dos Clrigos o cadver de rojo, deixando um rasto de sangue, chorou e meditou as palavras do profeta:

"Acaso no punirei eu estes excessos?, diz o Senhor. De uma gente como esta no se vingar a minha alma?

Cousas espantosas e estranhas se tm feito na Terra! "

1 Jeremias. Cap. V, vers. 29 e 30.

vi

O ARRBIDO

Oh!, e vs sois parvo, frade! Dou-t'eu  denio por seu.

GEL VICENIT (Nau de Amores)

Anunciou-se frei Jacinto de Deus na portaria de Santa Clara. Disse a madre porteira que a senhora Angelicazinha passara to m noite que o mdico a no deixava sair da cama enquanto durasse a febre.

- Aquilo  peta - disse a ama desabridamente. - Est to doente como eu. Tem vergonha de falar ao filho, a senhora beata!

- Cale-se, mulher! -obstou o frade; e continuou  porteira:
- Faa-me a senhora a merc de lhe dizer que est aqui frei jacinto de Deus.

-Tanto monta dizer-lho como no -redarguiu a religiosa. - O mdico no a deixa sair da cama.

- o mdico ou o santo fradinho da Arrbida? -replicou mui gravemente o beneditino.

-No foi o fradinho- respondeu de muito boa f a franciscana -, foi o prprio doutor em pessoa que mo disse a mim.

-Havia de ser o frade -interveio a senhora Maria, esposa do esprito forte da alfndega. -Que eu me no levante mais daqui se no foi o machacaz do frade! M ms pr diabo do impostor, que anda aqui a comer as freiras com bichancrices! O meu Bento j me disse que qualquer dia lhe pega pelas pernas e

o estatela numa esquina! Olha a praga que havia de cair neste convento!

-Senhora Maria-tornou o monge entre risonho e se-

A BRUXA DE MONTE CRDOVA                        131

vero-, faz favor de no se meter na minha conversao com

esta senhora?

-No que eu estou passada! -clamou a freira. -Mulher de mais m-lngua nunca se viu neste ptio! Se fosse noutro tempo j estava na cadeia...

-Ouviu? -retrucou logo a ama, levantando-se direita com o locutrio e pondo o p  facaia, e as mos nos quadris. -Olhe! -e com a ponta de um dedo arregaou a plpebra inferior do olho direito.-Ouviu, senhora freira?... Viste-lo? Esse tempo j l vai. Cadeia!, olha a seresma que ainda est apaixonada pelos caipiras! Estas santeiras de borra que os traziam aqui pelos muros da cerca a trepar l pra dentro...

-Perco a pacincia, senhora Maria! -volveu frei Jacinto, vendo que a porteira se retirara receosa de maior insulto. Faz favor de se retirar com o menino, que eu j l vou ter a sua casa.

- melhor, ... -condescendeu a ama sacudindo-se para fora. -No v eu fazer das minhas, que no sei j onde estou!

Chegou-se ao ralo outra vez a madre, e disse muito comovida:

-Esta desavergonhada, cada vez que a senhora Angelicazinha no vem  grade, fica a a dizer injrias ao convento. Vossa Senhoria no consinta que ela c volte...

- No terei remdio, visto que ela  a ama do filho da senhora Anglica.

-E o rapaz que vem c fazer? -tomou a porteira com edificativa intolerncia. - um escndalo andar por estas grades um filho de uma recolhida, demais a mais filho do pecado.

- Seja embora pecado o pai, a me  ela; e ento que tem que o filhinho aqui venha?!

-0 senhor frei Silvestre do Corao Divino no quer; chorou quando soube o abatimento a que desceu este mosteiro to reformado.

- Ah!, ele chorou?
- Sim, senhor... chorou... -Santo homem! ... Quem mo dera conhecer!

132             CAMILO CASTELO BRANCO

-Pois Vossa Senhoria no conhece o senhor frei Silvestre do Corao Divino?

-Por meus grandes pecados, no! -Isso trazem-no a nas palminhas todos os fidalgos! A cara  j de santo. Tudo que aconteceu nesta guerra dizem que ele o profetizara, e agora de futuro j profetizou que o senhor Dom Miguel primeiro dentro de ano e dia est em Portugal.

-De el-rei Dom Sebastio no diz nada frei Silvestre? A seriedade das perguntas de frei Jacinto no deixava reluzir vislumbres de ironia.

-No me consta que ele dissesse nada do senhor Dom Sebastio - respondeu a madre porteira. - Eu cuidei que j ningum o esperava; e Vossa Senhoria ainda cr na vinda do Encoberto ?

-Eu lhe digo, minha senhora... Nisto, exclamou a freira: -Olhe!, a vem o fradinho... Voltou-se para o porto do trio o monge, e viu entrando a passos curtos e mensurados, olhos em terra e braos pendentes, o arrbido com sua batina, sapato de fivela de ao e chapu tricorne.

Oraria por sessenta anos, ainda frescao, cores sadias, entroncado e algum tanto panudo e cachaudo.

- A cara  de santo que no passa mal... - disse a meia voz o monge  porteira. - Ora d-me Vossa Senhoria licena de lhe ir fazer os meus cumprimentos, como agora se diz.

E saindo-lhe ao encontro, abaixou cortesmente a cabea e disse-lhe:

-No perderei esta boa ocasio de saudar o senhor frei Silvestre do Corao Divino.

- No conheo Vossa Merc - disse o arrbido. -Fui frade tambm. Pertenci  Ordem de So Bento.
- Ah!, ser Vossa Paternidade o senhor... o senhor... -Frei jacinto de Deus... - verdade. J uma minha filha espiritual muitas vezes me falou de Vossa Paternidade.

A BRUXA DE MONTE CRDOVA                        133

-A senhora Anglica, secular deste convento. -Essa mesma. Tive hoje notcia de que ela estava           mui doentinha -disse frei Silvestre.

-Tambm agora o soube, vindo aqui para lhe mostrar um

filhinho que ela tem...

-Valha-me Deus, valha-me Nossa Senhora, valham-me todos os santos! - atalhou com santo frenesi o arrbido. - No falemos nisso, que  uma desgraa, uma verdadeira calamidade, senhor frei jacinto, e releve que eu lhe diga, com muitssima agonia do meu corao, que no deve aqui vir mais essa criana, nem Vossa Paternidade consentir que a mulher no leve por diante a sua converso que to bem dirigida vai...

- Dirigida por Vossa Reverncia... - atalhou o beneditino. -Sim, senhor; eu estou contentssimo do efeito dos sacramentos naquela alma transviada do cu; mas  preciso que se

lhe afaste da vista e da lembrana aquele vivo e escandaloso testemunho das suas culpas.

-Vamos a pensar nisso... Vejamos para onde afastaremos a

criana. O menino no tem pai, nem parentes, nem amigo compadecido que o receba. Tem de idade dois anos e sete meses. A ama, que o alimenta, se lhe faltar a paga, abandona-o, porque  pobre. Temos, pois, o pequenino desamparado. Onde quer o senhor frei Silvestre que o levemos de modo que a me o esquea?

-Eu... no sei... -balbuciou o arrbido. -No sabe? A meu ver, o expediente mais sumrio seria mat-lo, afog-lo entre as mos ou num poo. Aqueles anjinhos facilmente voam das mos dos verdugos aos braos de Jesus Cristo, que j neste mundo lhes quis muito: Sinite ad me parvulos venire... Parece-lhe acertado o parecer?

-Vossa Paternidade no fala srio! -replicou o outro.

-Ento no h outro meio bom a escolher, seno o mais brbaro?

-Temos outro-volveu placidamente frei Jacinto.-Alta noite pegamos da criancinha, e depomo-la a na rua. Se ela no morrer de frio e medo at ser dia, acertar de passar alguma pessoa compadecida que a levante das pedras e a leve.

134              CAMILO CASTELO BRANCO

- Ora, senhor! - replicou o arrbido -, isso no  modo de tratar esta matria! Vossa Paternidade est zombando!

- D-me ento o seu judicioso parecer, senhor frei Silvestre. -No est a a roda dos expostos? - verdade. No me lembrava a roda dos expostos. Tem Vossa Reverncia lembranas santssimas.  de justia chamarem-lhe santo, muito mais santo que frei Bartolomeu dos Mrtires. Este virtuoso arcebispo, sabendo que um pastor de almas, um abade, um sacerdote de Cristo e director espiritual de virgens e esposas, tinha um filho a ocultas, disse-lhe com o menino pela mo: "Conhecei-lo?... J que sois pai, ensinai-o bem, e sabei~lhe dar vida, e no ofendais mais a Deus. " Isto foi dito a um ministro que sagrava o po e o vinho, a um recoveiro de almas para o cu, a um archote de luz divina levantado nas trevas da ignorncia das suas ovelhas montesinhas e propensas a encarecer a relaxao do pastor. Ora entende o senhor frei Silvestre que o santo arcebispo induziria uma secular recolhida neste mosteiro a remessar  roda dos enjeitados,  garganta daquele abismo de tenrinhos cadveres, o filho de trs anos, a criancinha tantas vezes ungida pelas lgrimas amorosas de seu pai! Que lhe diz l dentro a sua conscincia, padre! Tem-na contente por ter enchido de terror e fel o corao desta pobre me? Acha edificante lano arrancar-lhe as entranhas maternais, e encher-lhe o seio de imagens do inferno que a trazem espavorida, estpida e at desnaturada dos sentimentos de gratido para mim que a salvei nos meus braos, quando a misria, pior que a morte, a ia talvez levar  voragem das perdidas! Que santo  Vossa Reverncia, que veio aqui fazer o mal que nem as legies infernais confederadas conseguem vingar! Responda, padre, se a vergonha ou o remorso o no estrangularam!

- Vossa Paternidade no me ultraje! -exclamou o arrbido, apertando o passo para fugir ao ancio que tremia mal seguro ao encosto da bengala.

Ainda assim, frei jacinto desandou para onde o outro se escapulia e disse-lhe em voz muito para ouvir-se no interno do convento:

A BRUXA DE MONTE CRDOVA                        135

-Eu voltarei amanh com o filho de Anglica, senhor frei Silvestre. Depois, h-de aqui vir o brao da justia dos homens para arrancar dentre incautas senhoras um difamador da justia e bondade de Nosso Senhor e Pai. Estas bestas-feras, que tm a

caverna nas igrejas, teriam dado de travs com a religio de Jesus, se ela no fosse divina! ...

O arrbido entrava no templo, quando frei Jacinto, concluda a apstrofe, saiu do ptio do mosteiro. As janelas, que abriam sobre o adro, estavam cheias de freiras, seculares e criadas. Algumas choravam de consternadas pelo vexame do seu confessor. As freiras novas riam sob capa e davam palmadas nas

ancas respectivas umas das outras.

As beatas, que foram espreitar do coro o arrbido, viram-no em joelhos, braos em cruz, e olhos levantados a uma imagem do Salvador. Choraram copiosamente. Os soluos de algumas eram arrotos do bolo alimentcio mal esmodo por efeito das aflies do corao e outros intestinos.

Combinaram-se no coro as atribuladas, e endireitaram dali  cela de Anglica Florinda. A enferma estava sentada no leito a chorar, porque j sabia os acontecimentos da portaria. A mais autorizada das religiosas, entrou, louvando Nosso Senhor Jesus Cristo e disse:

-Estamos muito consternadas, senhora Anglica! O santo frade arrbido acaba de ser agora enxovalhado pelo outro frade que a senhora conhece, e que est bem longe de ser o varo de Deus que por aqui se dizia...

-No diga isso, minha senhora; que ele  muito bom homem... -contrariou Anglica.

- Ser; mas ns no queremos que nos venha injuriar o

nosso confessor l o bom homem que a senhora Anglica defende. Se lhe deve obrigaes, ns no lhe devemos nenhumas. E, se a senhora Anglica no pe cobro a isto, o melhor  sair do convento e no estar sujeita a obedecer s donas desta casa que so as freiras.

-Bem sei, minhas senhoras; mas no me culpem, que eu

136              CAMILO CASTELO BRANCO

no sabia nada. Deus conhece quanto me custa o desgosto do senhor frei Silvestre... Ele bem sabe a causa disto...

-A causa disto l a disse o outro frade bem alto. Quer que vossemec v ver o seu filho  grade. Isso no pode ser. Se at aqui os maledicentes desacreditavam este convento, que diro eles agora? Que vem aqui as criancinhas ver as mes! E, depois, ningum pergunta de quem  filho o pequeno. O que eles dizem  "l vai uma criana ver a me ao convento"; e as freiras  que o pagam...

O receio, que esta madre tinha de pagar com os seus crditos, era menos mal fundado. Trinta anos antes dera suspeitas de ter assentido ao preceito da multiplicao da espcie; todavia, bem pudera ela destemer-se da calnia em anos to adiantados e qualidades corporais to persuasivas da continncia que nem o

prprio Anticristo -a ser verdade que h-de engendrar-se em freira - quereria encarnar naquela tinhosa ovelha do rebanho de frei Silvestre.

-Minhas senhoras -exclamava Anglica pondo as

mos -, no me deitem fora desta santa casa, que eu prometo pedir ao senhor frei Jacinto de Deus que no volte aqui, O senhor frei Silvestre h-de perdoar-me, vendo a minha inocncia...

-Pois arranje-se l, e prepare-se que amanh c tem o frade e mais o filho. Ele l o disse a berrar c para as janelas. Um velho daquela idade no tem vergonha de andar com um filho do crime pelas portas duma casa religiosa!  malhado e basta!

Disse e saiu para o coro com as outras a regougar os salmos de David.  sublimadas poesias, desastrado destino vos ps nos beios saburosos destas gosmentas! Se as harpas plangitivas do Oriente cuidariam roufenhar pelos meatos nasais destas madres que vos fazem arpejo s lamentaes com assobios de esturrinho! ...

VII

A PIEDOSA DEMNCIA

De maneira que temos um Deus cuja vista nos h-de meter juntamente vergonha e temor.

FREI JOO CARDOSO (j~a da AI~)

 mesma hora do seguinte dia l surge frei Jacinto e mais a ama e o menino no umbral do porto.

j uma servente o est esperando com a chave de uma grade. O monge subiu e a senhora Maria logo atrs dele, resmoneando:

- Ora graas a Deus! Ia aqui o diabo, hoje, se ela no

viesse c...

-Faz favor de ir calada, senhora Maria! -admoestou frei jacinto.

-No que a gente rebenta se no desempacha a raiva. Urna criancinha to linda! Haver uma me que no quer ver este serafim! Vossa Senhoria h-de deixar-me dizer-lhe duas palavras a ela.

-No a deixo dizer palavra alguma; e, se estiver com juzo, tem uma prenda. Conte com um saiote vermelho.

-Ora est dito! Ainda que d um estoiro, no digo nada... Abriu-se a porta interior da grade e saiu Anglica Florinda acompanhada de uma senhora de meia-idade, j conhecida de frei jacinto. Era a freira de quem tinha sido criada Anglica.

-Eu vim, senhor frei jacinto -disse a religiosa-, movida pela compaixo que me est fazendo esta criatura.

Prosseguia a freira, quando Anglica, enfiando os braos pelas grades, rompeu em gritos, exclamando:

-Meu filho!, meu amor!, meu querido anjo!... Vai para

138              CAMILO CASTELO BRANCO

o cu, filho da minha alma, vai para o cu, e pede a Deus por teu pai, pede~lhe que o no lance no inferno para todo sempre!

Caiu como exaurida de alentos na cadeira e desatou em torrentes de lgrimas.

A religiosa dizia-lhe muitas coisas consolativas; frei jacinto de Deus exprimia graves reflexes acerca do indiscreto medo que incutiram no fraco esprito da mulher quanto ao destino da alma de Toms de Aquino. A ama, estreitando muito com o peito a criana espantada e medrosa,,, resmungava:

-M ms pra ela,, que qper que o filho morra! Tem dez diabos no corpo a criatura.!'....,

Frei Jacinto de Deus,. prosseguindo nas suas reflexes, disse  freira:

-Em suma, senhora, esta, mulher no pode aqui estar, nem precisa estar onde por fora h-de ser mal vista, embora se macere com penitncias e leve o seu ascetismo at-  desmoralizao de renegar o filho. Anglica,  necessrio que te retires deste convento. Irs para outro; eu te escolherei em Guimares ou Braga mosteiro onde possas amar e servir Deus sem romper os laos que te prendem ao teu filho. Queres sair?

Ela no respondia. A ama deu um salto involuntrio sobre a cadeira e bradou:

-Saia da, mulher!, vossemec parece-me parva! -Senhora Maria-murmurou baixinho o frade-, tenha prudncia.

-No me importa c o saiote vermelho! -clamou ela, pondo-se em p e gesticulando vertiginosamente. -Est-lhe o senhor frei Jacinto a dizer que lhe d outro convento, e ela tanto faz como nada! Querer que morra o filho! Praqu? Pra ir a pedir a Deus que tire o pai do inferno? Ora est!, qual inferno nem qual diabo! Deixe-se disso, mulher!, no h inferno nenhum. O inferno  c neste mundo. Quem no tem que comer nem beber, nem umas palhas em que se deite, isso  que  inferno. O mais so arolas dos frades. Deste que aqui est, no. Olhe, se o senhor frei Jacinto lhe diz que o senhor tenente est no inferno! ...

A BRUXA DE MONTE CRDOVA.                         139

-Jesus, que mulher!-disse j impacientado o frade. -Deus me d pacincia por quem !

-Est bom, eu j no digo nada; e... sabem que mais?, o

melhor  eu ir-me embora, e fique Vossa Senhoria c. j viu o

filho?, no o quer ver mais, senhora Anglica? Adeus, passe por c muito bem! Olhe que o menino pode bem com as saudades. Parece que adivinha! Olhou para ela e tomou-lhe medo. Pudera!, no que ela est como se a desenterrassem! Isso  que  estar no

inferno, senhora Anglica... Pagou bem ao senhor tenente... quer-lhe atirar  roda dos enjeitados o filho! ... Credo! ... deixa-me ir daqui, que me ferve o sangue! ...

E saiu com o menino muito abraado nela.
- Que mulher, meu Deus! - disse a freira. - No h nada mais malcriado!

- O que me espanta no  ela, minha senhora - disse o monge. -0 que me assombra  essa outra mulher que a est! Que refinada crueza! Como esse corao morreu inteiro, e to vergonhosamente morreu! Viu sair o filho e nem um brado...

nem um gesto! ... Faz-me horror! ...

E ergueu-se a tremer e a enxugar os olhos. Anglica estorcegava os dedos, enclavinhava-os levantando as mos ao cu, apertava as fontes, escabujava, estorcia-se, expedia ais estridentes.

-Mas que significam todos aqueles frenesis? -perguntava o frade.-Que  aquilo? Esta mulher estar demente, senhora! ...

- No est - disse a freira.
- No estou doida... Pior, mil vezes pior -exclamou Anglica a impulsos de gritos entrecortados de soluos -, estou condenada s penas eternas... No posso j salvar o desgraado que roubei a Deus, nem salvar-me a mim... Perdi a esperana de o encontrar no cu... Nunca mais...

As agonias apertaram-lhe a garganta de modo que fazia d

ver o arquejante esforo que ela punha para respirar.

-No me digam que esta mulher no ensandeceu! murmurou frei jacinto. -Isto  irremedivel! ... A est uma

140               CAMILO CASTELO BRANCO

filha espiritual do santo frade arrbido!  essa criatura que j tem o melhor da vida morto em si: corao e razo morreram! A est! Quem te viu, Anglica!, que pena me fazes! ... Porque me no h-de a Divina Providncia fazer o milagre de te ressuscitar, me morta, e inteligncia perdida! ... Bem!, faa-se a

vontade do Senhor!... Anglica!, eu no tomo a ver-te... adeus! Por pouco que viva o fraco alento que tens, eu irei diante, e pedirei a Deus por ti. Quanto a teu filho, no temas que ele c te volte. Vai comigo, porque  o filho de Toms de Aquino. Eu direi a meus sobrinhos que no desamparem o rfo, e l em cima pedirei ao Senhor que d entranhas de pai aos protectores do menino. O supremo juiz pedir contas ao frade que te reduziu a isso, pobre louca! No temas o inferno, que a responsabilidade de teus crimes j no  tua:  do teu confessor.

As ltimas expresses no as ouviu j Anglica. Tinha perdido os sentidos, acostada ao ombro da religiosa.

Frei Jacinto de Deus ps ento as mos, levantou os olhos e disse:

-Senhor!, se chamsseis a outra vida o esprito desta pobrezinha! ...

E continuou orando mentalmente. Anglica estremeceu. O frade quedou-se breve espao a ver-lhe o rosto nos braos da religiosa, e saiu em silncio.

VIII

PASSOU

Este s el fin del siervo de Dios, y el rernate que tuvieron sus trabajos.

FREI AUGUSTIN ANTOLINEZ (Vida & 5m jn de Sab.~)

Este conflitos pesaram nos dbeis fios da vida do frade. Entrou-se de grande tristeza e paixo. O velho acreditou que Deus lhe entregara aquela mulher e o filho. Era uma iluso da alma excelente, da virtude em sumo gro. Se isto fosse j fraqueza de esprito, bem lha compensava to adorvel robustez de corao.

Restava-lhe o menino em que despender o seu inexaurvel tesouro de caridade. Foi para a sua aldeia. Gratificou liberalmente a ama. Venceu-lhe com ddivas a resistncia, e assoldadou-a por mais um ano de criao.

As mesadas de Anglica no descontinuaram. E ela, apesar do dissabor do frade, no as rejeitava.  que o santo da Arrbida, bem que a reduzisse a escasso alimento, no lhe alvitrou o

modo de dispensar-se totalmente de comer. Anglica recebia a

prestao mensal do beneditino.

A famlia de frei jacinto aparentava alegre condescendncia

corri a dispendiosa caridade do tio: ainda assim, no secreto de suas reflexes, cada um perguntava a si mesmo se o frade quereria dar partilha na casa ao rapazinho que trouxera, sendo que o avantajava aos netos de seu sobrinho em mimos e afagos. Era mais que muito natural o cime e perdovel o reparo. O frade tinha dado tudo,  verdade; mas no lhe remanescia nada que prometer.

Foi-lhe fcil ao monge capacitar-se de que no festejaria o

aniversrio dos seus oitenta e dois. Faltou-lhe o lume e energia

142              CAMILO CASTELO BRANCO

interna de que ele se jactava, dizendo-se moo na alma embora o estojo gretasse de velhice, como antiga caixa de jia que os

sculos no deslapidaram. E usava tambm dizer de si com certo sabor antigo: "Este corpo  gaiola velha de ave imorredoira: no tarda que o gradeado de cana caia de carunchoso, e o pssaro se

v voando s regies do perptuo Estio. "

Em janeiro de 1836, frei Jacinto de Deus forcejou debalde por sair do leito. Sentava-se e recaa contra o espaldar.

-No teimarei -disse ele com imperturbada lucidez e conformidade. -0 corpo est a pedir a posio horizontal do descanso; a alma puxa por ele para cima:  que se est ensaiando para desferir voo para o alto. Agora  tempo de dar  caridade a

sobrevivncia que puder, para que eu no morra todo para o

meu rfo...

E, chamando  beira do leito o sobrinho e filhos, fez-lhes esta prtica mui pausada e num tom sossegado de quem d ordens e

conselhos aos familiares para que a sua ausncia temporria no desordene o bom regimento da casa:

-Meus filhos e amigos, estou para pouco desta vida em que vos deixo. Chego primeiro que vs  outra, porque vou em oitenta e dois anos de jornada. Na estrada que trouxe, encontra~ reis alguns indcios da minha passagem, dos quais tereis motivo de alguma honra, e os mostrareis aos vossos filhos e netos  imitao dos fidalgos que do a ler aos seus infantes as pginas da histria ptria em que figuram heroicamente seus avs. Fidalguia de bons feitos, brases de caridade e aforados todos no livro dos filhamentos da casa de Nosso Senhor Jesus Cristo, isso  que eu vos deixo, meus amigos. Considerai, todavia, que a nobreza quer-se alimentada sempre com o forte sustento que a gerou; seno bastardeia-se e corrompe-se. Se me no continuardes as obras que eu principiei e as no concluirdes conforme a traa que vos deixo, sereis indignos dos benefcios que recebestes de quem vos deixou esta casa e foi com sua voluntria pobreza coitar-se no cubculo de um convento. Em comparao de muito que vos dei pouco vos peo. Ora ouvide as minhas disposies e

A BRUXA DE MONTE CRDOVA                           143

Deus seja testemunha que vos acuse e juiz que vos condene, se as no cumprirdes. Enviareis a Anglica Florinda a mesada que eu lhe tenho dado. Dareis a jacinto de Deus, logo que ele perfaa os seis anos, a educao que tiverem os vossos pequenos destinados  carreira das cincias. Se ele, nesta idade, tender  vida de clrigo, ordenai-o; se  milcia, assentai-lhe praa; se ao comrcio, estabelecei-o. No o aconselheis nem forceis, salvo se na

escolha se denunciar incapacidade mesma de escolher. Pelo que  da me, se ela alguma hora quiser sair do convento e ajuntar-se ao filho, recebei-a; se o filho quiser ver sua me, deixai-o ir; mas vigiai-lhe os passos fora do trilho inocente da vossa aldeia. Estas duas desventuradas criaturas, que deixo no aconchego da vossa caridade, so filhas da minha alma. No mas esqueais; no mescabeis a minha memria, desamparando-as; que eu no vos quero maior tormento que o remorso da ingratido a quem tudo deveis. Desde este momento estais debaixo da vigilncia da Divina Providncia.

O sobrinho e filhos de frei Jacinto disseram que a vontade de seu tio seria religiosamente satisfeita.

O monge ainda viveu alguns meses entrevado. No decurso penoso desta paragem  beira da sepultura, nunca as fortes dores vingaram quebrantar-lhe o pulso da pacincia. Algumas alegrias lhe deu ainda o Senhor. Eram as cartas de Anglica Florinda, escritas sob a impresso da saudade e reveladoras de corao muito agradecido. Realava nelas, porm, o esprito asctico, transviado da razo, infernado em medos e remorsos de ter levado  perdio a alma de Toms de Aquino.

Frei jacinto respondia-lhe por seu punho breves palavras, terminando as cartas com este invarivel exorcismo: "Filha, Deus te defenda de todo o mal e do frade arrbido, que alm de mau  estpido, e, alm de estpido, incorrigvel. "

Corria o oitavo dia do ms de Abril, quando o frade pediu que lhe vestissem o seu hbito de beneditino e abrissem de par em par as janelas do quarto, para poder despedir-se da sua ltima Primavera.

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- O homem vive pouco - disse ele serenamente. - Estas rvores to vestidas de gala j meu pai as plantou. Eu, mui pequenino, j subi a colher a fruta acol por aqueles ramos! Caduquei... e elas florecem como h cem anos. Ainda c ficam, ocas e rodas, mas a florir e frutear. .. Que somos ns, se no produzirmos flores e frutos de amor e benfazer?! Menos que rvores.

Sobreesteve a remirar a florescncia das fruteiras, cogitativo e silencioso. Rolou-lhe vagarosa uma lgrima a desfazer-se nas barbas alvas e arriadas que se lhe espessavam por todo rosto.

Berri que minguada de espritos levantados quele compungido cismar do ancio, a famlia chorava. H uma altssima poesia, to da natureza, e ajustada ao comum sentimento que a toda a alma afervora e lhe aquece os gelos da insensibilidade. Era quadro para enlevo de tristes aquele!

O ancio relanou a vista do cu e das rvores para a formosa cabea do filho de Toms. Estendeu o brao, acenando-lhe; a criana abeirou-se do catre, e sobps a cabea  mo do velho.

-Mal te lembrars de mim, quando fores homem!... -lhe disse o monge. -Olha, filho, repara, v-me bem, nunca me esqueas, no?

-No, senhor padrinho -respondeu o menino.
- Deixai-me s - disse frei Jacinto - e convidai o abade a que me socorra com os sacramentos. So horas de entroixar para a grande viagem.

Aps a comunho e a uno-extrema, o moribundo rezou alternadamente com o sacerdote os salmos penitenciais. Os derradeiros versos a custo os exprimiu silabicamente. Calou-se o abade, cuidando que ele descansava. A respirao era sossegada, mas quase inaudvel. Da a segundos, no vivia; mas aquele estado no podia ser morte. Era, como diz a gente das nossas aldeias, passar: vocbulo sublime que nos vem de algum superior esprito que o achou assim nas suas lucubraes sobre o mistrio da imortalidade, e os latinos o perfilharam para o entesourarem depois os cristos. Transire, "passar, ir para alm", diziam eles. W, no me depareis outro de tanta uno e verdade para vos eu

A BRUXA DE MONTE CRDOVA                       145

dizer como foi o evolar-se daquele grande esprito do monge. Passou. Alm, a luz perptua, a glorificao das inteligncias salvadoras, o foco divino recebendo o raio luminoso que se apagara na terra. Aqum, um rosto glacial, com o riso do adeus ao mundo em que deixara alguma parte de sua essncia de anjo, e 

volta dele a contemplao e o chorar de velhos e criancinhas.

IX

TRS BOFETES, SACRILEGOS

Materia de harta lastima para unos, y risa para otros.

FRANCISCO SANTOS (EI Rey Gallo)

A notcia do trespasse do monge engolfou a recolhida de Santa Clara em tristeza to fechada que no havia admoestaes do confessor nem caridosos desvelos de algumas religiosas que lhe abstrassem o nimo.

Era uma nova fase daquela alma enferma, uma extravagncia de consternao irracional como as outras.

Agora o seu terror do inferno acrescia-lho a falta de frei Jacinto de Deus, de cujas oraes ela esperava muito. O frade arrbido ganhou despeito com esta confiana da sua filha espiritual num petulante que o desfeiteara publicamente, e recusou-se a absolv-la enquanto ela no se acusasse em confisso de ter pecado, ajuizando to incompetentemente eficazes as oraes de frei Jacinto.

Anglica recusou-se clamando que antes queria perder sua

alma que negar as virtudes do seu benfeitor. Frei Silvestre do Corao Divino demitiu-a de sua confessada e disse s outras filhas espirituais que Satans o vencera, roubando-lhe o esprito de Anglica Florinda.

Formou-se conjurao declarada contra a secular. Com visos de lastim-la andavam as freiras msticas insinuando  prelada a necessidade de reduzir Anglica  submisso do fradinho, ou ento dar-lhe o dinheiro com que ela comprara a entrada e mand-Ia  sua vida. A prioresa respondeu que a secular buscaria outro confessor. Custava-lhe  compadecida religiosa compelir a triste mulher a sair do mosteiro num estado tal de esprito que no

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iria longe da loucura. Alm de que a pobrezinha, cada vez mais rezadeira e recolhida, no saa do seu cubculo ou do coro. No obstante, o serfico bando do arrbido teimava por uma das duas satisfaes a frei Silvestre: obedecer-lhe ou sair.

Ora, como a secular no podia ser admitida nem despedida sem votao da comunidade, a prioresa recorreu ao sufrgio, depois de ter perguntado a Anglica se queria obedecer s prescries de frei Silvestre. A resposta foi de lgrimas, porm, o chorar era negar-se a descrer da eficcia das oraes de frei jacinto.

Posto o litgio em escrutnio, decidiu-se por maioria de seis votos, sendo trinta e sete as votantes, que Anglica fosse despedida.

Depois do que, os dois partidos afrontaram-se de insolncias tamanhas que por um til no vieram s mos. As beatas defendiam-se com desbragado tiroteio de remoques  desonestidade das mais novas. Estas, exumando escndalos tradicionais, ricocheteavam as mesmas ignomnias, aceradas pelo escrnio,  cara das velhas. S. Francisco e Santa Clara escondiam, de puro envergonhados, os seus bem-aventurados rostos, l no empreo, por detrs dos rabeces dos anjos.

No entanto, Anglica foi avisada do sucesso. A freira, sua

antiga ama, sobre todas, sara desesperada do acto da votao, e foi dizer-lhe que no sasse ainda que a intimassem; que ela ia fazer um bom servio  paz do convento.

Esta religiosa j se disse que era constitucional. Tinha irmos e mais parentes no exrcito. Escreveu para Lisboa chamando um sobrinho aspirante de cavalaria. O rapaz, amantssimo da freira que o trazia cativo de umas peas de duas caras

com que o brindava s vezes, licenciou-se e apresentou-se no convento. Contou-lhe a tia o caso do arrbido com a secular e a desordem que ele motivara entre as religiosas. O aspirante dispensou a tia de expender o fim para que o chamava.

- Deixe-me com o frade... - disse o rapaz. -Mas no me exponhas... v l como fazes isso... Encarrega outra pessoa...

148               CAMILO CASTELO BRANCO

-No cedo a ningum o prazer de dar duas cambalhotas a

um santo.

Pesquisou o aspirante, e soube que o frade passava as noites em casa de umas fidalgas onde se entretinha edificantemente a coordenar, nuns relicrios, esquirolas de ossos de vrios santos, trazidas do seu convento. Diga-se de passo que o frade proprietrio desta preciosa ossaria tinha distribudo no pas tal poro de falanges dos dedos de S. Bono presbtero e mrtir, que preciso fora ter o santo mais braos que Briareu, para que todos os ossos

fossem dele. Conquanto no vendesse a peso nem a olho estes arcaboios desfeitos, a granjearia de dinheiro que lhe advinha deste comrcio ao arrbido, era tal e tanta que o frade j tinha comprado boas leiras na sua terra, e esperava comprar outras

com o produto de um tornozelo de carneiro que j tinha desfeito em lasquinhas, e consignado a diferentes santos e santas.

Uma noite que frei Silvestre levava num saquinho de veludo escarlate as venerveis relquias de um joelho de S. Cucufate

e um piramidal do pulso de Santa Sinfrnia, saiu-lhe debaixo do Arco de Vandoma um encapotado e falou-lhe com esta conciso:

-Frade, vossemec nunca mais h-de pr as serficas patas no Convento de Santa Clara. Se as puser, leva quatro dzias de cachaes. E para que vossemec faa uma ideia do mimo que lhe prometo, receba j por amostra, e no por conta, esta meia dzia.

No a recebeu inteira o frade; porque ao terceiro estava no cho, com as ventas contusas de modo que, se aproveitasse os

ossos nasais, poderia encamp-los corno nariz de algum mrtir de Diocleciano.

O aspirante escapuliu-se impunemente. Frei Silvestre desandou para casa e concertou as runas do aspeito desenformado. No dia seguinte, esteve a caldos, e enfardelou a bagagem. Ao outro, despediu-se de muitas confessadas, dizendo que um anjo lhe aparecera em sonhos e o mandara sair dentre os malhados que tentavam assassin-lo.

Ao convento no foi. Escreveu  mais espiritual das suas

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filhas, contando-lhe o sonho, e pedindo-lhe as suas oraes, mandando-lhe por esta ocasio uma boa lasca do tornozelo do carneiro, repartido em onze esqurolas, para que, em memria dele, cada uma de suas confessadas ficasse com uma relquia do milagroso S. Cornlio.

As onze beatas berraram de aflio. Ao mesmo tempo, a minoria das pecadoras, espojavam-se a

rir na cela da tia do aspirante. O pacificador do mosteiro ia j caminho de Lisboa bascolejando na algibeira seis sonoras peas que a tia lhe pusera na mo sacrlega.

Anglica Florinda j tinha desafogado a maior opresso dos escrpulos aos ps de mais ilustrado director; mas a chaga cancerara tanto aquela razo enferma que no havia j custico de austera e luminosa religiosidade que lha cauterizasse.

TERCEIRA PARTE

QUINTA-ESSNCIA DO AMOR DIVINO

1

O FILHO DE TOMS DE AQUINO

Este  o verdadeiro amigo.

FREI HEITOR PINTO ~gem da Vida Cristd)

Vejamos a pontualidade com que procedeu a famlia de frei jacinto na execuo dos legados. Do encargo da mesada  secular dispensou-a o brio de Anglica, seno antes a considerao, isenta de orgulho, de que lhe era a ela menos penosa de receber a esmola de sua antiga ama que a de estranhos de quem ela no vira a face sequer. Agradeceu muito comovida  pessoa, que lha entregava, e pediu que toda a caridade, que lhe queriam fazer, a

convertessem no filho.

Esta inesperada felicidade alegrou notavelmente o sobrinho do defunto frade. Quanto ao pequenino, por l andava entre os

da sua idade. Davam-lhe de comer s horas; vestiam-no como ao

comum dos rapazes da aldeia, ou pouco pior: reformaram-lhe as

botas em tamancos, e o chapu de pluma e fitas em carapua vermelha.

Aos seis anos enviaram-no  escola rgia. Morava longe o mestre. Saa o menino de madrugada, levava consigo o almoo frugal de broa estreme, e voltava ao meio-dia, ora queimado do sol, ora a escorrer da chuva. Acariciavam-no assim.

Quando a me, sem pejo de si prpria, perguntava pelo filho, respondiam-lhe secamente que andava estudando.

Aos sete anos, jacinto no sabia cousa de nada; raros dias ia  escola; escondia-se nas devesas a chorar, e lembrava-se muito do padrinho a dizer-lhe: "No me hs-de esquecer, no? "

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E sentia-se mais confortado, se punha as mos e rezava por alma do monge.

O amparador do menino, avisado do gazeamento, castigou-o duramente: pesava-lhe a mo; era bater num ente de todo estranho ao sangue, ao corao,  caridade.

O mocinho no se emendava.  que no tinha vontade de aprender, nem foras para andar duas lguas por dia, s vezes

com fome e no poucas descalo por trazer os ps feridos dos tamancos. Queriam-lhe assim ao querido de frei Jacinto de Deus...

O voto geral da famlia do monge foi que se tirasse o rapaz da escola e se lhe desse algum ofcio. A divergncia j estava somente na arte, Perguntavam-lhe se queria ser sapateiro, alfaiate ou carpinteiro. O pequeno chorava e no respondia.

Urna vez, estava ele sentado  beira da estrada, caminho do Arco. Passavam duas mulheres vizinhas da casa em que ele vivia. Pararam ao p dele e disseram:

Este menino que to asseadinho andava em vida do senhor frei jacinto de Deus, anda agora assim! ...

E, como lhe vissem tremer as lgrimas nos olhos, perguntaram-lhe:

- Ainda te lembras do senhor frei jacinto, pequeno?
- Ainda. -E de tua me? -No me lembra nada. -Porque no vais para onde a ela? -Est no convento. Uma das mulheres deu-lhe um pedao de po, que ele aceitou.

Neste comenos, vinha passando um velho cavalgado sobre um possante macho; e como visse as mulheres muito fitas no lacrimoso rapaz, sofreou as rdeas e perguntou:

-Que tem esse cachopo?
- Coitadinho! - disse uma delas -, tem o pior que pode ter: no tem nada. Estvamos aqui a dizer que este menino h trs

A BRUXA DE MONTE CRDOVA                        155

anos andava vestido de pano fino, e agora traz saragoa cheia de remendos.

-Ele de quem ? -tomou o passageiro. -No tem pai, e me  como se a no tivesse... Quem no

trouve c para a nossa aldeia foi um fradinho que talvez vossemec ouvisse alumiar... o senhor frei Jacinto de Deus.

O cavaleiro apeou-se, prendeu num esgalho de castanheiro o

macho, e achegou-se do pequeno, perguntando-lhe com vivo interesse:

-Como se chamava seu pai?
- Eu no sei - disse o menino -, acho que era...
- Vocs sabem, mulheres? -disse o velho voltando-se para elas.

- Olhe - replicou uma -, eu ouvi dizer a uma criatura ainda sobrinha do senhor frei jacinto que o pai deste rapaz era da tropa dos malhados e que morrera na guerra de Lisboa.

-E a me? -sobreveio muito agitado o caminheiro. -A me o que l dizem  que era uma rapariga de So Pedro de Alvite a de  p de Refojos de Basto; e tambm l me contaram que o pai dele tinha sido frade... mas isso acho que ser mentira.

O velho aconchegou o pequeno muito de si, amimou-o, e

esteve-se algum tempo entalado, antes de lhe perguntar:

- Tratam-no mal nessa casa onde ficou?
O pequenino abaixou os olhos e deu aos ombros.
- Mal! - respondeu uma das informadoras -, pois vossemec no v?! Olhe como o deixam andar pessoas que tm tanto de seu; e mais dizem que o senhor frei Jacinto, Deus lhe fale na alma, morreu com este menino atrancado nas goelas. Pelos modos, quando estava a expedir, botou l uma fala que fazia chorar as pedras a pedir aos sobrinhos que olhassem por este pequeno como se ele fosse de casa. .. De comer sabe o que lhe do?, o que comem os criados da lavoura: po, caldo, e alguma sardinha amarela.

- No h muito - acrescentou a outra - que eu lhe dei um migalho de orelheira e o pobrezinho comia como se tivesse fome

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de trs dias. Agora ouvi dizer que o vo meter no mestre a dar tempo para alfaiate...

-  Com efeito! -exclamou o velho-, bons parentes tinha frei jacinto!

E, levantando-se de salto, foi desprender o macho, abeirou-o de uma pedra, cavalgou, e disse s mulheres:

- Botem-me c para cima esse pequeno.
- Ento vossemec leva-o ?! -perguntaram elas espantadas. -Botem-mo para c! Salte sem medo, menino!
O pequeno no hesitou; sentou-se na dianteira do albardo, e

ps-se a olhar entre alegre e maravilhado no rosto do velho.

-  Vocs, se quiserem, mulheres -disse o passageiro-, vo a casa desses maus homens, e digam l que este menino foi levado por um velho criado de seu pai. Se eles quiserem alguma cousa dele ou de mim, que perguntem por Joo Antnio, negociante de cera e mel em Freixieiro. L estou.

O ex-leigo de S. Miguel de Refojos ia dizendo ao filho de Toms de Aquino:

- V alegre, meu menino, que vai com um amigo de seu pai-

11

CORAO MORTO

Disse Nosso Senhor a Santa Catarina de Sena: @@Cuida tu sempre de mim que eu cuidarei de ti ... " De nenhuma coisa devemos ser solcitos seno de corno havemos de agradar a Deus.

MANUEL SEVERIM DE FARIA (Proniutio Espirimal)

Joo Antnio, primeiro de tudo, vestiu o menino  feio dos mais apontados no vesturio, e foi com ele ao Porto.

Anglica Florinda alvoroou-se, quando lhe deram parte de ser procurada por um velho, que dizia chamar-se o Joo Antnio de S. Pedro de Alvite, e trazia consigo um pequeno.

Foi ao palratrio; antes, porm, de mostrar-se, quedou a represar a veemncia do corao, para no deixar-se arrebatar de pecadora alegria. Venceu-se. Venceu o demnio que por um triz lhe no mete no peito um corao maternal. De maneira que entrou  grade com to carregada sombra e glacial compostura que direis serem o velho e o menino inteiramente estranhos a tal mulher.

Ora o ex-leigo viu-a e no a conheceu. Ia dizer-lhe que procurava outra pessoa, quando ela perguntou:

-j me no conhece, senhor Joo Antnio?... Estou muito acabadinha... Os trabalhos e aflies que a bondade do Senhor me tem mandado...

O velho, enxugando as lgrimas, disse ao menino: -Senhor Jacinto, pea a bno a sua me.
- D-me a sua bno, minha me? - disse o menino. Anglica, sem responder, arquejou em nsias de respirao mal sufocadas, e depois rompeu em alto chorar e gemer, no

obstante abafar a boca, sobrepondo-lhe o leno com as mos ambas.

158              CAMILO CASTELO BRANCO

Durou minutos esta luta da natureza com o ascetismo, do amor materno com o divino amor.

O velho no entendia aquilo ou entendia mal. Cuidou que era estremado jbilo que a fazia chorar, e disse:

- H muito que a senhora Anglica no via o seu filho? Aqueles malvados sobrinhos de frei Jacinto j lho deviam ter trazido muitas vezes. Mas qu!, os patifes no lhe davam que vestir de modo que ele pudesse mostrar-se. Em que estado eu topei este menino! Ele a est que lhe conte as fomes e maus tratos que sofreu... A senhora Anglica nunca devia deixar-se estar tanto anos, mais de quatro, sem ver o seu filho!

-Pois ele... -atalhou ela -j no est com os parentes de frei jacinto de Deus! ?

-Qual!, est comigo. Foi Deus que me guiou para aqueles stios... Achei-o rotinho; levei-o para minha casa, onde, graas ao Senhor, h po de sobra e meia dzia de cruzados novos bem merecidos. Vesti-o do melhor modo que os alfaiates souberam. Ele aqui est, o filho do meu amo, do meu pobre Toms... Desde que o l tenho, parece-me que me entrou em casa o meu amor ressuscitado. Sonho com ele todas as noites... No h velho mais feliz do que eu! Medo no me faltava que os tratantes mo viessem pedir por terem vergonha de lho eu levar. Agora foram eles! Dinheiro dariam os cafrinos por que lho tirassem de casa... Ai!, se a senhora Anglica o visse- _  Meu Deus!... -murmurou ela-, acabai de me castigar que eu j no posso com tanto! ...

-Ento que  isso?! -clamou Joo Antnio. -No queria que eu levasse o menino?... _  Queria... -balbuciou ela. -Eu cuidei que ele era feliz... Mas nada posso fazer em bem dele... Vivo de esmolas, porque no posso trabalhar...

-Vive de esmolas! -interrompeu o velho. -  criatura!, olhe que eu tenho de mais para todos trs! Quer a senhora vir para a companhia do Jacintinho? Est dito! Venha conosco! _  No posso... -disse ela entre soluos-, no posso... A minha penitncia tem de ser grande... A alma do senhor Toms

A BRUXA DE MONTE CRDOVA                         159

precisa que eu nunca mais tenha um dia de contentamento. Se eu no sofrer muito neste mundo no h nada que o alivie do fogo do purgatrio.

O velho abria muito a boca para perceber aquele processo de tirar almas do fogo; e ela prosseguiu, ensartando pios disparates acerca da via purgativa das almas viadoras, e da eficcia da penitncia para o fim de aplacar a vingana de Deus sobre as almas dos finados postas em crisol de expiao purificante.

-- Senhora Anglica - disse gravemente Joo Antnio eu estive dois anos nos conventos de Tibes e Refojos, lidei com

muito frade, toda a vida tenho vivido com eles, aprendi de oitiva o meu tudo-nada de teologia mstica, e nunca at aos setenta e um, que vou fazer, ouvi essas trapalhadas que lhe meteram na

cabea. A senhora anda mal dirigida, ou no tem o juzo muito escorreito, h-de perdoar se isto a ofende...

- No me aflija - atalhou ela em tom suplicativo. - Bem me bastam as mortificaes que eu c tenho dentro desta casa... Mas -prosseguiu ela, feita uma curta pausa, com alegre timbre de voz, e os olhos a rever pranto ao mesmo tempo-, aflija-me, atormente-me, d-me que merecer a Deus em desconto dos pecados do senhor Toms de Aquino... Sou muito ingrata a quem me quer ajudar a tir-lo das penas do purgatrio. Tomara eu

quem me caluniasse, quem me escorraasse... at Deus se compadecer de mim e revelar-me que o senhor Toms est na bem-aventurana!

O ex-leigo absteve-se de contrariar a mulher, por lhe parecer mais mentecapta que boal, e, mais que tudo, merecedora de compaixo.

Perguntou-lhe se era contente de estar o menino em companhia dele.

-Muito bom  Deus que lho entregou-disse ela. -- Escuso eu de ter cuidado no destino deste menino: l est Deus, que  pai, e a Virgem Santa, que  me.

- Isso  verdade - tornou o velho -, mas sempre se lembre de que a Virgem Santa, se  me dos filhos desamparados, no devemos crer que seja amiga das mes que os desamparam.

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- Valha-me Jesus Cristo! -exclamou Anglica-, eu no o desamparei... L foi o santo frade que o levou, e agora vejo que Deus o tem de sua mo, pondo-o na companhia de quem to amigo era do senhor Toms.

-Pois sim, senhora Anglica -sobreveio brandamente Joo Antnio-, o menino bem est; digo-lho eu, e basta. C me encarrego de o arranjar na carreira que ele quiser. D-me a

senhora licena de o governar, sim?

-Deus  quem o governa... -insistiu ela, dando mais relevo  persuaso de que Deus lhe tomara o filho, dispensando-a de ser me, e obrigando-a ao sacrifcio de o no ser, a fim de, purificada da peonha que lhe deixara na alma a gerao criminosa do filho, lhe serem recebidas as penitncias e oraes nas contas do ltimo juzo, assim pelos seus pecados, como pelos gravssimos pecados do cmplice.

Joo Antnio estava constrangido na grade. Anglica fazia certo enojo. O corpo, os olhos, a boca, tudo nela, a trejeitar de um modo tpico de beataria, vaporava um certo fedor da santidade especfica daquela espcie. Da averso do local e da beata, encheu-se primeiro o filho, comeando por dizer a meia voz ao velho:

-Vamos embora... vamos?  terceira rogativa, Joo Antnio despediu-se de Anglica, perguntando-lhe quando queria que lhe trouxesse o filho:

- Quando Deus lho ordenar, senhor Joo. Eu no tenho vontade seno a do meu Senhor e juiz. Bens no lhos peo; penas digne-se a Sua divina misericrdia mandar-mas todas, que eu no me queixarei.

E, fixando no filho os olhos pvidos e chamejantes, clamou, de tal voz e ondear do seio, que parecia trazer o corao a rasto das palavras:

- Adeus, adeus, meu filhinho    ... Pede  Virgem Nossa Senhora que te leve enquanto s novo   ...

-Ser melhor que o leve quando ele for muito velho, senhora Anglica -disse Joo Antnio, afagando a cabea do menino.

IH

AS TRS VIAS

Tal se acha a alma namorada que lhe parece que est Do Inferno ou que o tem em si mesma.

FREI AFONSO DE MEDINA (Da Omo MenW)

Desde aqui ao seu termo, esta histria no pode relatar, seno de fugida e com intermitncia de longas temporadas, os factos que encerram e abarcam no poucos anos. A sisuda observao do leitor dispensa que lhe estejam de contnuo apontando os

mesmos efeitos de um princpio funesto. Se tentssemos esclarecer-lhe o ser moral de Anglica, explicar-lhe uma vulgar demncia que mais de urna vez topmos e no vingmos entender, malograra-se empresa que no teve ainda melhor sada dos laboratrios das cincias fsico-patolgicas. Fez-se mister cavar fundo na vasta livraria da teologia mstica para entender, sequer muito  flor da terra, como os ascticos percebem e definem as vertigens que desconcertaram o entendimento de Anglica Florinda.

Os msticos rejubilam quando enumeram os diagnsticos e

prognsticos das trs vias do esprito, purgativa, iluminativa e

unitiva. Os catecmenos ou principiantes, no estado de purga, defecam~se dos defeitos da vida passada. Os iluminados, que pertencem  segunda via, esses, como j esto purgados pela primeira, adquirem virtudes, engordam moralmente, como sucede aos corpos depois de um bom derivativo. A terceira via  a dos que no pensam j seno em Deus e na sua consubstanciao com o divino (heresia tola que no merece o desfastio da ementa) primeira luz, parece isto fcil de entender, e no saltam os porqus de se nos figurarem doidos os sujeitos que, desde a purga primeira at  unio final com a divina substncia, se vo

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transfigurando. O processo parece natural e bem deduzido: primeiro, limpeza; depois, virtudes; por ltimo, santificao. Materializemos, se  permitido em cousa to gasosa: primeiro, purga; depois, dieta; por ltimo, sade. Ora isto entendem-no no s os iluminados da segunda via; que tambm os sujos, e

sujos to encardidos que nunca poderiam passar bem limpos da primeira.

Saibamos, pois, o que  que estonteia e dementa os inclusos nas trs partes da teologia mstica. No direi sobre o certo o que seja; mas, esquadrinhando, quanto em mim coube, o andamento das trs metamorfoses em pessoas que j l vo, averiguei que a

vida do esprito passa por todos os seguintes trabalhos e glrias, indicadas nos praxistas da matria sujeita:

Noite passiva do sentido; Purgao passiva do sentido, e instrumentos da dita purgao;

Iluminao passiva; Contemplao infusa. Recolhimento. Quietismo. Oraes infusas. Embriaguez sobrenatural. Sono de potncias (todas estas coisas vem encambulhadas de uma assentada);

Vistas dos esposos; As quatro guas e sete moradas de Santa Teresa; Vises, revelaes e locues; Impulso divino, xtasis e rapto; Desposrios divinos; Purgao do fogo ou do amor; Matrimnio divino; Acaba pelo casamento como as farsas da Abelha Mestra, de Manuel Mendes Enxndia, do Medronho, das Astcias de Zanguizarra, e de tudo que tem bom fim.

Que siso comum -siso do que a gente gasta no seu uso de telhas abaixo- queremos que tenha uma alma que principiou na purga e acabou no casamento, com intermitncia de embriaguez, infuses, sono de potncias, rendez-vous com os esposos, guas de Santa Teresa quatro e moradas sete, e ainda, na vspera do casamento, purgao de fogo?

A BRUXA DE MONTE CRDOVA                          163

Cabea que resistisse a isto, tambm eu no queria aparar-lhe a marrada!

No h entendimento, que saia destes laxantes de fogo, digno de entender Deus, segundo a simplicidade com que Ele quis que ns o entendssemos e rogssemos: "Pai nosso, que ests no cu, santificado seja Teu nome, venha a ns o Teu reino,

etc. "

No, senhores. As almas purgadas, iluminadas e unidas chamam  correco dos vcios "purgao";  caridade, "ilumina~ o";  meditao das obras divinas "embriaguez"; ao enlevo nas maravilhas do Criador "sono das potncias";  orao "Vistas dos esposos"; ao desapego final dos bens mundanos que nos fundiram mritos  recompensa divina, "purgao de fogo";  salvao "matrimnio".

Tamanhos transtornos e transposio de palavras, de fora ho-de desmanchar a ordem das ideias. A insnia que da procede no  a que recebe um carto de entrada nos hospitais; mas

goza do privilgio de ter casas filiais do inferno nas famlias onde entra.

Chama-se "beatrio". A palavra assumiu propores de zombaria; mas o que a h de lgrimas e lama nessa palavra no o calcula a chacota nem a indiferena.

Vale a pena ser vista uma dessas enfermas, mais digna de dio que d: aquela mulher que purgou com as passadas culpas as entranhas de me: Anglica Florinda.

IV

COMO LHE ELE QUERIA@

Sentiu tanto este apartamento que entendi em meus

braos fazia a vida a ltima despedida.

MARTIM AFONSO (Tempo de Agora)

Jacinto de Deus e Aquino, aos nove anos, saiu das primeiras aulas, frequentadas em Braga, com louvor dos mestres e muita alegria de Joo Antnio.

Dispunha-se o velho a mand-lo estudar latim, reservando para depois consultar-lhe a inclinao. Antecipou-se, todavia, o

moo, declarando-lha, com receio de magoar o seu benfeitor.

- A minha vontade  ir para a vida comercial do Brasil - disse ele. - Se o senhor Joo Antnio der licena, vou

com dois condiscpulos que tm l o pai.

-Pois sim, menino; se quer ir para o Brasil... v. No me toma a ver ... mas que monta isso? Alguma vez h-de ficar sem o seu velho ... Tanto faz que me veja morrer como saiba ao longe que morri ...

O menino abraou-se nas mos do ancio a beijar-lhas. Joo Antnio levantou-o nos braos convulsos e balbuciou: -No me deixe, meu filho... j agora feche-me os olhos e v depois, que no tardar muito.

Jacinto condescendeu alegremente; o velho, porm, desvelou a noite a cismar na imprudncia de lhe tolher o destino, quando todo seu bom propsito fora sempre aprovar-lho e prestar-lhe auxlios, ainda  custa de se desfazer duns bens que herdara e acrescentara com o seu lavor incansvel. Por sobre isto, meditava ele no valor da suas propriedades, e conclua que o produto delas escassamente bastaria a um mesquinho passadio, Prefigurou-se-lhe que, por sua morte, o filho de Toms de

A BRUXA DE MONTE CRDOVA                           165

Aquino, a no ter ofcio ou emprego, ficaria mal remediado para ocorrer s despesas e necessidades de educao limpa e afidalgada. Superiormente o que mais o movia  reconsiderao do seu pedido ao menino, era o escrpulo de lhe encontrar a propenso e porventura a boa sorte que o chamava ao Brasil.

Deliberado, pois, a emendar a irreflexo, assim que foi dia desafogou-se do cuidado opressor, pedindo ao menino que pensasse no seu embarque e soubesse quando os seus condiscpulos iam.

Foi Joo Antnio com o pequeno informar-se da ida dos outros, e aprazaram a poca de se encontrarem em Viana, donde saa o navio. Nos trs meses seguintes andou o velho ajuntando cartas de recomendao dos brasileiros mais grados da provncia do Minho, e foi ao Porto com o fim de dar conta a Anglica da determinao do filho.

A secular, neste tempo, consoante a opinio das religiosas com quem Joo Antnio falou na portaria de Santa Clara, estava j na terceira via, na unitiva, na purgao do fogo, perto do matrimnio divino, ou identificao com Deus. Em semelhante estado no podia falar com Joo Antnio. Conseguiu ele fazer-lhe chegar  mo uma carta. Anglica no a leu sem que o seu confessor a lesse primeiro, depois a prioresa, depois a escriv e finalmente ela. O velho esperou dois dias que o papel corresse todas estas chancelarias. Ao terceiro foi-lhe dada a resposta por um

padre, onde a porteira o mandou. O director espiritual de Anglica louvou muito a delicadeza de Joo Antnio e a resoluo do menino; quanto  licena, facultou-lha em nome da sua filha espiritual, ajuntando  licena a bno de sua me, que sobre ser

bno maternal era tambm bno de santa.

-Pois muito obrigado a Vossa Senhoria -disse Joo Antnio. -0 que me no agradou  que isto se demorasse trs dias. Pensei que no custava tanto a receber os despachos das santas...

Jacinto de Deus e Aquino embarcou em 1843. Joo Antnio acompanhou-o a Viana e viu fazer-se de vela a escuna. Se o ancio chorava, diziam-no as lgrimas cadas no degrau da

166              **CAMMO CASTELO BRANCO

Capela da Senhora da Agonia, onde ele dobrou os joelhos e permaneceu enquanto enxergou o navio. Aquele menino debruado sobre o peitoril da escuna, com os olhos na capela, quando j no via o vulto do benfeitor, era jacinto de Deus. Chorava de saudades, de arrependimento, de ingratido! s palavras consoladoras dos seus tenros amigos e dos passageiros respondia:

-No o torno a ver! ...
O velho voltou para a sua casa. A  que foram as lanadas mais penetrantes. Soledade irremedivel! No tinha parentes, nem afeies, nem algum que lhe espertasse recordaes dos seus amigos mortos e perdidos. Desconfiou da morte e desejou-a. Orvalhou-lhe o cu, neste aridssimo desapego da vida, uma lembrana consoladora: e foi, se o seu menino, por ser de compleio dbil, voltaria doente para a ptria. A comeou o velho a pedir foras a Deus, a divertir o esprito na lide do seu negcio, a edificar esperanas e a fundi-Ias em certeza de que o seu menino voltaria breve, afugentado pelos ares doentios do Rio de janeiro.

Recebeu carta no primeiro navio que voltou a Portugal. Alguns caracteres da escrita vinham delidos nas lgrimas. O mocinho confessava o seu pesar de ter ouvido os lisonjeiros convites dos amigos. Era a estranheza dos costumes que lhe contristava tudo. Acolheram-no graciosamente os pais dos condiscpulos; mas bem sabia ele que o comeo da sua carreira mercantil ia ser trabalhoso e envilecido, em vista do modo como ele via tratados os que haviam de ser seus companheiros.

Joo Antnio, ao mesmo passo que lastimava o seu infeliz menino, alegrava-se esperanado na vinda. Foi ter-se com os brasileiros seus conhecidos, mostrou-lhe a carta, e a todos encarregou de lhe mandar abono de passagem  mesa do capito, e tudo mais que o menino necessitasse. Dissuadiam-no do intento os ricaos, que haviam comeado a explorar a mina do ouro, ensanguentando as mos nos veios da rocha viva. Admoestavam-no a que no impedisse com funestos conselhos o afazer-se o rapaz aos trabalhos inevitveis de quem principia. No o demoveram. Escreveu, aconselhou, pediu, suplicou ao moo que voltasse.

Quando a carta chegou ao Rio de Janeiro j Jacinto de Deus

A BRUXA DE MONTE CRDOVA                       167

se conformara com a sorte comum e algum tanto melhorada pela influncia dos seus amigos no nimo do rico fazendeiro e negociante em cujo servio ficou.

Assim o dizia ele ao velho, prometendo-lhe, passados alguns anos, vir visit-lo.

"Pois no vens, que vou eu", disse entre si o septuagenrio. E, sem mais pensar nem delongar a partida, vendeu as suas terras e casa em hasta pblica, achou que apurara dinheiro com que viver dez anos sossegadamente, e embarcou sem prevenir jacinto.

Saltou na praia; pediu que o guiassem  Rua da Quitanda, e parou a distncia de um armazm de caf. Viu centenas de pretos carregando sacos para embarque, e entre eles alguns moos brancos, trafegando com os negros. Reconheceu Jacinto de Deus, sujamente entrajado, denegrido e magro. Marejaram-se-lhe os olhos, e disse de si consigo:

-Que honrado s, menino! E assim  que o tratam amorosamente, como ele dizia na carta. Se tu ali o visses do outro mundo, meu Toms! Que contas te daria eu da felicidade do teu filho!

Aproximou-se dele; esperou que o visse. Abriu-lhe os braos ao moo perplexo, e exclamou:

-Aqui est o velho! Agora posso morrer, como Simeo. Pea a seu amo que o deixe vir ensinar-me uma estalagem.

jacinto correu a avisar o patro. Saiu fora um homem de agradvel sombra e conduziu o velho pela mo para sua casa, dizendo-lhe:

-jacinto contou-me a sua vida e as virtudes do seu benfeitor. A minha casa no cede a ningum a honra de hospedar o

senhor Joo Antnio. No lhe faa pena ver o seu rfo a trabalhar entre negros; que eu em minha casa dou-lhe uma cadeira  mesa entre os meus filhos, que so aqueles que vossemec l v fora trabalhando. C, fazem-se assim os homens. Na Amrica  onde mais ressoa o eco da condenao do paraso terreal: "Vivers do suor do teu rosto. " Mas  necessrio acrescentar o que Deus no julgou preciso dizer: "Vivers, e sers honrado, do suor do teu rosto. "

v

A PENITENTE

Despues de aver purgado el alrna, con ]os xercicios de Ia via Purgativa, y alumbfado ele entendirmento con Ia luz de Ia Iluminativa, se sigue Ia inflarnacin de Ia voluntad e unin de to el alma, con el sumo bien que es Dios.

FREI CIRIACO PEREZ (Hem~o de Mo~ate. Exercicios Esp--ks)

Corria o ano de 1855. A exaltao mstica de Anglica Florinda tinha subido ao galarim da via unitiva.

Perfizera a secular de Santa Clara quarenta e cinco anos, com parecenas de sessenta.

A ama, que lhe esmolava a mesada, tinha morrido, legando-lhe com o beneplcito da prelada os seus haveres auferidos no fabrico do doce, os quais avultavam a mais de cinco mil cruzados. Anglica recusou aceitar a herana e pediu, em nome do Divino Esposo, que a entregassem aos parentes da freira. Observaram-lhe que ela ficava sem po; interveio o director espiritual ordenando-lhe que recebesse o dinheiro. Resistiu a pobre, dizendo que no podia ser perfeita sem sentir a penria. O confessor argumentava contra os ditames dos santos padres, dispensado-a desta prova suprema de abnegao. Anglica foi inflexvel. A herana levou o destino que teria, se a religiosa no dispusesse.

Fintaram-se as freiras para sustentar a virtuosa que lhes celebrava e honrificava o seu convento. Anglica impediu-se de se colectarem, prevenindo-as de que a sua sada do convento eram ordens do Divino Esposo.

-Mas para onde vai?! -exclamou a consternadssima prelada.

-No sei, minha senhora. O Divino Esposo  que sabe.

A BRUXA DE MONTE CRDOVA                                   169

Rodearam-na as religiosas, os capeles, os confessores daquele alfobre de santas, j suplicantes, j ameaando-a de lhe impedirem a sada.

- Os anjos me levaro, se as portas se no abrirem -replicou ela tranquilamente s ameaas.

As religiosas mais reformadas, convencidas do sobrenatural impulso daquela deliberao, desistiram de a estorvar. No grassava no convento a crena de que os demnios obedeciam a Anglica Florinda? Ento que muito, se os anjos a vestissem de asas para a fuga?

Quanto  obedincia dos espritos infernais, era crena bem assentada nas maravilhas que a secular operara sobre algumas possessas e crianas maleficiadas do contacto diablico. E, dado que ao perfeito exorcista cumprisse ser sacerdote o director espiritual e o consenso unnime das freiras concederam que Anglica exorcizasse, mediante o Mtodo do arrbido frei Jos de Jesus Maria, frade cujo nome faz concutir as abbadas do inferno, raivoso da inexorvel guerra que lhe fez com o seu Mtodo pondo fora de Portugal quantos demnios o infestaram na segunda metade do sculo XVIII.

No acoimemos de sandia ou sequer visionria a mulher que atacou impertrrita as legies luciferinas. Da existncia dos espritos infernais superabundam as provas nos Livros Sagrados, e

em milhares de livros que, postos na geena do eterno fogo, sobejariam a sustentar a perptua assadura de seus autores'.

Manietadas portanto as freiras pelo receio de serem impecveis s ordens do cu, desembargaram o passo  secular Anglica Florinda, no sem a seguirem, chorosas e clamorosas, at  portaria.

A inspirada, ao despedir-se, pediu a todas de joelhos a sua

' A mais cabal, completa e irrefragvel prova que conheo da convivncia que os demnios tm connosco  um livro latino de autor alemo, Joo Godofredo Mayer. No pude mais duvidar da concomitncia em que vivo com os espritos imundos, sob diversos feitios, desde que li a Histria **di;2boli seu commentatio de diaboli, malorumque spirit~ exsistentia, stalibus, judiciis, consilis, potestale. Tubinga, 1780.

170              CAMILO CASTELO BRANCO

bno, e j fora do penetral da portaria, voltou-se para dentro e disse:

Dem um bocadinho de po pelo amor de Deus  penitente mendiga.

Prorromperam freiras e criadas em altos gritos de pena e edificao de tamanha humildade. Correram todas a trazer-lhe esmolas de po e dinheiro. Anglica recebeu apenas o pouco de po necessrio para um dia, e caminhou muito de passo, coberta de um capotinho de camelo com mangas, debaixo do qual sobraava um fardel com alguma roupa branca.

No Largo da Batalha pediu que lhe- dissessem pelo amor de Deus o caminho de Basto. Guiaram-na para Valongo. Aqui pernoitou no alpendre duma capela, onde recebeu a esmola dum caldo, e manta para se agasalhar. Ao abrir da manh levou a

manta ao benfeitor e seguiu jornada. Acompanharam-na at Ponte Ferreira duas mulheres da casa caritativa que lhe quisera dar boa ceia e cama, e lhe foram perguntando donde era:

-Sou deste vale de lgrimas -respondeu ela. -E como se chama? -A Penitente. -Para onde vai? -No sei, minhas irms em Jesus Cristo. As duas mulheres voltaram, rezando de pararia a coroa, que no rezavam, desde muito, e propalaram na terra que tinha pernoitado em Valongo uma santa.

A seguinte noite velou-a, com intervalos de curto dormir, num lugar chamado Torro. Esmolou albergue no palheiro de um lavrador. Gemeu com dores do frio da noite passada, e consolou-se interiormente deste padecimento novo.

Ao outro dia, por volta da tarde, chegou a S. Pedro de Alvite,  porta da casa onde tinha nascido. Pediu agasalho a uma esbelta moa, que devia ser filha do seu irmo.

Era em Novembro. Nevava. Anglica ia transida de frio. mandaram-na entrar para a cozinha e aquecer-se  fogueira. A volta do toro abraseado estavam doze pessoas. Anglica Florinda encarou em todas e desconfiou que uma das mais

A BRUXA DE MONTE CRDOVA                         171

velhas devia ser seu irmo. A mulher idosa, que devia ser

cunhada, no a conheceu. Fazia neste ano vinte e seis que ela tinha fugido daquela casa. Parecia-lhe, circunvagando os olhos pelas alfaias da cozinha, que tudo estava como ela o deixara. O que ela no via era os dois velhos, seus pais, que se reviam na formosura dela. O mais, tudo. O mesmo escano. A mesma assadeira das castanhas pendente do canio. A mesma trempe de pedra. O mesmo gomil de estanho com vinho. A amotolia pendurada no mesmo pau bifurcado atrs do lar.

O irmo ainda mostrava um resto das feies da mocidade. Estava gordo, alegre e feliz com os seus muitos filhos.

Perguntou-lhe a pobre se todos eram seus filhos.
- Todos e tenho j trs no cu - respondeu ele. - Ainda aqui falta uma cachopa, a mais velha, que est doentinha de mal de olhado. Pegou a no comer, a emagrar e chupar-se, que est na pele e osso. Tem bebido tudo quanto h na botica e no sai dali. Est tolhidinha!

-Se fizesse favor de ma mostrar-disse a Penitente, nome com que ela respondia a quem quer que lhe perguntava o nome.

Conduzida  cama da tolhida, apenas entrou no quarto, Anglica deu de olhos numa imagem do Crucificado. Aquele quarto era o em que ela dormira dezoito anos. A imagem tinha ainda lateralmente umas jarras azuis que Anglica Florinda havia comprado para ter sempre flores da horta ou do monte  sua milagrosa imagem. Quedou-se a contemplar tudo, e desatou chorando porque no pde ter as lgrimas e soluos.

O pai e me da doente agouraram mal daquele chorar: quanto a eles, a virtuosa pobre tinha santidade de ver o futuro, e para logo adivinhara que a doentinha morreria.

- Vossemec que v? - perguntou-lhe o irmo. - A rapariga ir desta?...

Anglica vizinhou da enferma, pediu-lhe a histria da sua molstia, e lhe fez uma enfiada de perguntas, consoante as prescries que o seu confessor lhe tinha dado traduzidas do Ditame VII, de Brognolio. (Signa certa et evidentia Damonaci.) Respon-

172              CAMILO CASTELO BRANCO

diam os pais e a doente. Eram sessenta e uma as perguntas do estilo. A exorcista, porm, s em trs respostas se deteve esclarecendo-se com outros interrogatrios. Foi uma quando a moa disse que sentia s vezes correr-lhe o corpo todo um forte arrepio ou formigueiro, e assim a modo de uma cobra a correr por toda ela. Era de notar esta espcie, porque l vem marcada no captulo dos "Sinais certos e evidentes de diabrural". A segunda foi dizer a moa que no podia esmoer a comida como dantes. Esta anemia de estmago, que hoje se cura com bismuto e ferro, est tambm  conta do pobre diabo, no Mtodo do arrbido 2. Foi o terceiro reparo chorar a rapariga sem motivo, e ter zunidos nas orelhas. Isto  tambm duas diabruras a um tempo 3.

A Penitente mandou sair do quarto as doze pessoas que se

acotovelavam, e ficou sozinha com a rapariga.

Requereu o esprito imundo. A doente no fez algum sinal de obsesso.

-Pensais que o vosso mal  causado pelo demnio? -- perguntou a exorcista.

- Acho que no - respondeu a doente. -Tendes alguma paixo de alma?
- Alguma tenho.
- Vossos pais no vos deixam casar, ou pecastes contra a castidade?

-Agora pequei! ... Meu pai no me deixa casar... ele bem sabe o que eu tenho   ... mas faz-lhe conta dizer que isto  feitio...

E desatou a chorar ...
- O noivo que vs quereis porque o no quer vosso pai? -perguntou Anglica.

' Cum ventus quidam vebemens dscurrit per totum corpus ad modum formicarum vel ad modum serpentis velociter quaqua versum serpit.

2 Quando quis sanes cibem digerere non potest in stomacho lecei in eo habeal calorem.

3 Quando lachrymasploral sine causa el nescit quidpIorei; aul si est rumor

continuus in auribus sine probabili causa.

A BRUXA DE MONTE CRDOVA                       173

- Porque ele tem pouco; e meu pai quer que eu case com
um brasileiro velho que tem muito de seu, e eu antes quero morrer.

-Pois, moa-  pedir a Nosso Senhor que vos d pacincia. No queirais morrer, que  grande pecado pedir a Deus que nos tire a vida para fugirrnos aos trabalhos dela. Rezai comigo.

Ajoelhou-se Anglica defronte da escultura de Jesus, ao qual, na noite da sua fugida para o Porto, pedira que a levasse onde a sua alma se no perdesse.

Feita uma longa orao mental, saiu do quarto. O pai e me da doente perguntaram-lhe se tinha remdio a cachopa.

-Dai-lhe vs o remdio, se lhe sabeis a causa da molstia - respondeu a Penitente. - Deixai-a casar, se o noivo tem somente o defeito de ter pouco.

- Isso  que no! - acudiu o lavrador. - Corno ela contou a sua vida depressa! Se quer casar, est aqui marido que lhe convm, e da nossa escolha. Nada menos que brasileiro...

-Pois Deus vos ensine o melhor... -concluiu Anglica. Deram-lhe ceia e boa cama. Da ceia tomou o po e o caldo. Da cama tirou a manta com que se cobriu sobre o tabuado.

Ao alvorecer da manh, levantou-se e disse ao dono da casa

que, em paga da esmola do agasalho, queria rezar um padre~ -nosso sobre a sepultura dos pais dele.

Admirou-se o filho de Francisco da Teresa de to extraordinria piedade em mendiga. Isto no impediu que ele comovido fosse pedir a chave da igreja, onde entrou a mostrar a campa em que seu pai tinha sido sepultado vinte anos antes, e a me seis anos depois do marido.

Anglica prostrou-se com a face na ljea e derramou muitas lgrimas.

- Vossemec conheceu meus pais?! -perguntou o lavrador, quando ela saiu ao adro.

-Conheci e amei-os muito. -E vossemec como se chama? -j vos disse que me chamo a Penitente. Em seguimento, quis despedir-se de toda a famlia, foi ao

174               CAMILO CASTELO BRANCO

quarto da doente, disse~lhe das virtudes da conformidade e pacincia, consolativos preceitos, e ao sair, voltando-se para o pai, continuou:

-No a obrigueis a casar com o vosso brasileiro. Se tendes memria de uma desgraa da vossa famlia, lembrai-vos de que, h muitos anos, vossa irm Anglica fugiu desta casa,  conta de a quererem casar com um brasileiro, e foi desgraadinha l por esse mundo. Se vosso pai a no quisesse obrigar ao casamento, pode ser que ela hoje desse exemplo de virtudes s vossas filhas...

-E vossemec conheceu minha cunhada?! -atalhou a mulher do lavrador,

-Conheci essa infeliz mulher.
- Inda ser viva? - tornou ela. - H anos atrs ouvimos dizer que ela estava muito santinha num convento do Porto.

-Isso  falsidade! -respondeu energicamente Anglica. -Mulher, to pecadora neste mundo, s a misericrdia de Deus far que ela no seja eternamente condenada. Santa! Em to boa hora contrita e penitente. Nunca quisestes saber dela? - perguntou a mendiga ao irmo.

-Agora quis! Meu pai morreu de paixo, quando soube que ela estava de casa e pucarinho com um frade aqui de perto que fugiu da cadeia de Tibes. No lhe deixou nada no testamento, e disse  hora da morte que me amaldioava do cu ou

do inferno, se eu a tomasse a receber nesta casa.

-Ento fizestes o vosso dever em nunca mais a procurar - aprovou a Penitente. - E ficastes-lhe com grande dio a ela?

-Pudera!, se lhe parece, depois de nos envergonhar com tal vida! ...

-Pois perdoai-lhe... eu vos rogo em nome dela que lhe perdoeis para este mundo e para o outro - acudiu Anglica erguendo as mos.

-Agora isso j l vai h muitos anos -condescendeu o lavrador. -Se ela morreu, Deus bem sabe que lhe no tolho  salvao. Vossemec sabe que ela tinha um filho do tal frade?

A BRUXA DE MONTE CRDOVA                         175

- Sim...
- Pois esse rapaz, que esteve aqui em Freixieiro com um Joo Antnio, que foi criado do pai e leigo no mesmo convento, foi para o Brasil e est l casado muito rico com a filha do patro. Conheceu-o l este brasileiro que queria casar com a minha Mariana, e diz ele que o sogro do tal moo tem mais de dois milhes! ... H diabos que tm fortuna!

- Porque dizeis diabos? - atalhou Anglica. - O menino que culpa tinha nos crimes e pecados da me?

- Isso  verdade! - assentiu a cunhada. - O rapaz no tinha culpa... Deus, que lhe deu boa sorte, l sabe porque o fez! E, se no fosse o tal Joo Antnio, quem sabe se ele andaria por a a guardar cabras! ... So sortes!

-E o tal Joo Antnio ainda  vivo?-perguntou Anglica.

-Morreu l no Brasil-disse o lavrador. -Gostava tanto do rapaz, que vendeu tudo e foi para l. Contou o tal brasileiro, que me pediu a minha Mariana, que ele, no dia em que o rapaz casou, deu  noiva mais de dez mil cruzados em brilhantes...

-Pois ele tinha vendido por mais de doze mil cruzados uns

bens que herdou em Freixieiro... - acrescentou a mulher.

-Boa alma era ento a desse homem... -tomou Anglica. -Ora, pois, meus irmos, ficai-vos com a Virgem nossa

Me e auxiliadora. Sede felizes, e no deixeis estar ali to acabadinha a vossa Mariana. No a obrigueis a casar, e lembrai-vos sempre da vossa irm Anglica. A paz de nosso Senhor Jesus Cristo seja para sempre nesta casa.

E saiu.
- Vossemec onde vai hoje ficar? -perguntou o lavrador. -No vos sei dizer. --Mas que caminho quer levar? -Nenhum... vou indo... por aqui... E separaram-se. -Esta velha-disse o lavrador- qualquer hora aparece morta a pelos caminhos... Deve ter mais de sessenta.

- Isso tem... -confirmou a mulher.

176               CAMILO CASTELO BRANCO

- Ela j conheceu meus pais!... e como ela chorava na igreja! ... Se ela tivesse menos de vinte anos, eu havia de cuidar que ela fosse a Anglica! ...

- Agora!, pois eu no me lembra de tua irm!, ainda era mais nova que eu! ... Se ela vivesse, ainda teria agora pouco mais de quarenta.

-Pois, no , no; mas que ela a conheceu, isso  que no tem dvida. Coitada!, aquilo  uma santinha! Viste como ela disse que minha irm estava no inferno?... Foi pena que a Mariana no ouvisse aquilo...

vi

A BRUXA

Passa tan penitente passa tan solitaria que por regalo sale  ver el dia.

DOM CHRISTOVAL LOZANO (SoIed@des de k V&a)

Ao caminhar por quinchosos, campos e arvoredos da sua aldeia, e tantas memrias ali renascidas de sua juventude, dos seus

amores e saudades, qual seria o sentir da alma de Anglica?

W, passava sem os ver! Era o esquife a transportar o cadver da peregrina, amantssima e saudosa moa que ali vivera. O esprito que ainda impulsava aquele escarando arcaboio ia embebido na ideia da perfeio mstica pela penria, na esqualidez da indigncia como enfeite e gala de noiva para as npcias divinas.

jornadeara o dia inteiro. Anoiteceu-lhe na serra. Confrangeu-a o medo um instante; assim, porm, que a lembrana de ser vista do Esposo a visitou na escurido, fez-se luz de dia do cu  volta da sua alma. Ajoelhou e exclamou:

-Bem vedes a vossa serva, Senhor! Mandai-me aqui morrer, se me haveis perdoado!

Cessou o vento rijo e glacial do norte. Comeou a nevar. E a Penitente, tiritando, falava a Deus dulcssimos colquios.

Foi-se-lhe como vaporando o aroma dos enlevos ao compasso que a neve enregelava e fendia a uma. Perdeu o acordo da sua mstica voluptuosidade por alta noite. No era a morte: era o milagre da vida represada para no sentir as dores: era a cloroformizao do cu.

Ao entreluzir da aurora, passavam almocreves. Viram aquele vulto enconchado entre uma fraga e o cncavo de uma vala. Sacudiram a mulher sopitada: viram-lhe nos olhos luz expirante de vida. Deitaram-na entre uma carga e deixaram-na entregue

178              CAMILO CASTELO BRANCO

aos lavradores da primeira aldeia que toparam. A aldeia demorava s abas do Monte Crdova, serra que se empina e ondeia com suas fragosssimas encostas at  vila de Santo Tirso.

Seria, porventura, a modorra de Anglica uma "purgao de fogo" como dizem o ascetas? Seria; mas, no verbo profano do cirurgio que viu a pobrezinha, chamava-se aquele modo de ser

um ir-se deste mundo.

Prova da incompetncia do cirurgio para entender daquelas fases unitivas, anaggicas, raptos, xtases, ou o que fossem,  que Anglica no morreu.

Volvidos cinco dias estava em p, contando aos caridosos abeges da aldeia que no dera tento do seu desmaio nem sabia como fora trazida da serra.

Aqui principiou a nomeada da santidade da pobre. Logo veremos como aquele gentio das aldeias do Crdova confundir a

santidade com o bruxedo.

Um quarto de lgua distante desta aldeia, chamada Capares, bem no agro e nu da serra, alvejava uma ermida, que as saraivas e sis tinham descaliado. Ao p da ermida erguiam-se trs breves lanos de parede, que tinham formado, com o quarto lano j derrudo, uma arribana.

Contavam os lavradores que, no tempo de antigas guerras de Portugal com Espanha, um fidalgo da famlia dos Brandes de Coreixas, perseguido por ter atraioado a ptria, se escondera ali com hbito de ermito e l se finara santamente. Outros antiqurios, mais esgaravatadores de antigualhas, davam como certo e contado de pais a filhos que um rei fugido da Bomia viera para aquele ermo chorar os seus pecados, e to chorados, que um anjo o levou amortalhado nas suas asas, assim que ele rendeu o esprito'.

De qualquer das maneiras, Anglica to depressa vigorou,

1 Em crnica de que no temos presente  memria o ttulo, j encontrmos esta mesma tradio, posta com todo o seguro de certeza. Os Bomios  que no sabem qual dos seus reis veio ermar eremiticamente e morrer a Portugal.

A BRUXA DE MONTE CRDOVA                        179

subiu ao alcantilado recosto da serra e parou no rossio da capelinha, verdejante de sargao e urzes. Depois de orar, entrou no pardieiro, e quedou-se perguntando a Deus se a deixava acabar seus dias naquele terreal paraso.

Desceu da serra e comeou a pedir esmola para cobrir a casinha sem dono.

Saram  porfia os lavradores a carrejar vigas e colmao para reedificarem a choupana. A confluncia dos operrios foi tal e

tamanha que, ao cabo de dois dias, Anglica foi levada como em triunfo entre os lavradores  sua casa. Deram-lhe a chave da capela, desde muitos anos fechada. Petrecharam-lhe a cabana com o essencial para levantar os ossos do cho estreme, e cozinhar um caldo.

Anglica afligia-se com tanta prosperidade, falando humanamente; as delcias divinas da pobre eram o cho duro, a fome mordente, o frio congelador.

Comearam a procur-la as doentes da alma e do corpo. Era ano aquele de extraordinria invaso de demnios nos sujos corpos das raparigas dos arredores, em virtude de, no ano antecedente, haverem casado duas energmenas, cujos diabos tinham fugido, logo que os pais consentiram que elas casassem com outros mais imundos: o que diz em abono do pundunor afidalgado dos primeiros, que tinham sido algum dia asseados anjos.

Com este exemplo, raras casas ficaram sem uma possessa no ano seguinte. E o mais  que souberam enganar a boa-f e cincia demonfuga de Anglica. Algumas das obsessas tinham todos os caractersticos infernais assinados por Brognolo e pelo arrbido; outras tinham os principais. As endiabradas saam despejadas do satnico recheio das mos da exorcista, umas para casarem, outras para levarem valente bordoada dos pais que, a um tempo, cuidavam vingar-se delas e do diabo. Tal foi a iniciao da Penitente no Monte Crdova.

Bem que no possamos tirar a limpo o contra-senso popular de chamarem BRUXA  exorcista da serra  sem embargo certo que a nomeada que ela cobrou, lguas em volta, era aquela, de todo o ponto inconveniente a uma quebrantadora de influncias malficas, bruxedos e feitiarias, sendo usual, no nosso pais,

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dar-se a estas milagrosas criaturas os nomes bem cabidos de benzedeiras, e mulheres de virtude.

"Bruxa de Monte Crdova" era geralmente o nome injusto seno injurioso, com que ela atraa  choupana no s homens, mulheres e crianas endemoninhadas, mas tambm o gado, ou

mundice, como l dizem, para a todos estes irracionais curar de enfermidades excedentes do alcance das cincias mdicas.

Com suas mos, fabricara Anglica um cruzeiro tosco defronte da capela, e pusera ao lado um banquinho de pedra bruta, sobre duas que lhe serviam de pedestais. Ora dizia-se que, por desoras, a bruxa saa, a evocar dali o demnio, e o colhia s mos com conjrios e sortilgios, e o amarrava  cruz, de modo que todas as suas curas prosperavam enquanto o co tinhoso estivesse preso. Um padre bem-intencionado daqueles stios foi-lhe perguntar se, de feito, ela conseguia ter o diabo em priso. Anglica, mais compadecida que pasmada da pergunta, disse ao padre:

-Se Deus omnipotente o deixa em liberdade, como hei-de eu, pobre pecadora, prend-lo?!

Revelou-lhe o sacerdote que o povo lhe chamava "bruxa". -Que tem isso?-acudiu ela.-Tanta razo tem o povo em me chamar bruxa como santa.

Alguns espritos fortes de Santo Tirso, informados das irrisrias curas da bruxa de Monte Crdova, foram demand-la com o fito de zombar dela. Anglica Florinda, quando os viu  sua porta, saiu a receb-los, e disse-lhes:

-Que quereis, senhores? -Que tire o diabo do corpo deste nosso companheiro -- respondeu um.

Anglica fitou muito atenta no rosto do inculcado energmeno, e disse-lhes:

-j  bem ruim esprito o que vos trouxe aqui, senhores. Vindes zombar; escarnecei-me, se quereis, enquanto eu peo a Deus que vos livre das ms tenes, que tambm so filhas do inferno.

Os folies corridos desandaram. De longe, olharam para a capela, e l viram ainda a bruxa ajoelhada.

Vil

O BARAO DE BURGAES

Nenhuma coisa parece mais prpria  nossa natureza, que pretender coisas grandes e aborrecer baiXCZaS.

DOUTOR DIOGO DE PAIVA (Se-ao)

Em 1863, anunciaram as gazetas a venda de uma quinta, chamada de Burges, no concelho de Santo Tirso. Concorreu comprador que cobriu o lano de todos. Poucos dias passados, o

Dirio do Governo publicou um decreto, alegando os servios de humanidade prestados aos seus compatriotas infelizes, no Rio de janeiro, por jacinto de Deus e Aquino, e agraciando o benemrito portugus com o ttulo de baro de Burges. Logo disseram os licitantes  quinta que o homem  mngua de propriedade, corria o risco de ficar sem ttulo.

O baro de Burges demorava no Porto, com sua esposa e

quatro filhos, desde 1862.

Certo era que, seno saudades, grandssima generosidade de nimo o movessem a procurar sua me. Por sobre isto, lembrou-lhe uma recomendao de Joo Antnio muitas vezes

encarecida nestes termos:

-Se sua me tiver necessidade, lembre-se que seu pai lhe quis muito.

Mandou pois jacinto de Deus perguntar em Santa Clara se ainda vivia a secular Anglica Florinda. Disse a porteira que essa

virtuosa mulher havia j sete anos feitos que tinha sado, sem dizer para onde, nem mandar mais notcias: mas que - ajuntou a

religiosa -por uns sinais que tinham dado uns almocreves da terra de uma freira, a pobre Anglica fora encontrada a morrer

na neve de uma serra l para cima e a morrer ou morta a deixaram numa aldeia.

182               CAMILO CASTELO BRANCO

jacinto ouviu estas informaes com sincero pesar; todavia, considerando inteis outras averiguaes, descuidou-se, distraiu-se e esqueceu-se humanissimamente de sua me.

Era o brasileiro muito rico e pomposo, esmoler e assinante de todos os peridicos em que o seu nome, coberto das bnos dos periodiqueiros, tinha regularmente as honras da primeira local.

Soava, mediante as tubas da imprensa, por longe o seu nome.

Anunciaram-lhe um dia uns parentes que o procuravam. -Parentes?! -disse ele, sorrindo espirituosamente-, que entrem os meus parentes.

Atravessaram com medo e espanto os tapetes de trs salas um velho e um rapaz. Hesitavam em mexer-se como sentindo-se indignos de pisarem a pelcia aveludada do pavimento.

Esperava-os o capitalista no seu gabinete. -Quem so os senhores? -perguntou ele com a testa enrugada.

-Eu-respondeu o mais velho-, saber Vossa Senhoria que sou Jos Pereira de Alvite, irmo da senhora sua me; este  meu filho, para lhe dar gosto.

-Muito bem... E onde est a senhora minha me? -Acho que j morreu.

-Acha, ou tem a certeza? Pois o senhor tem uma irm e ignora se ela  viva ou morta, estando ela no mesmo pas e a distncia de poucas lguas? Pelo que vejo, o senhor no se correspondia com ela...

- Nada, no, meu senhor... -Porqu?
- A falar verdade, como o outro que diz, ns ficmos de mal quando ela saiu de casa...

-E nunca mais quis saber dela, heim?-tomou o ricao carregando cada vez mais a carranca.

- Ela estava c no Porto... com o senhor seu paizinho de Vossa Senhoria...

-E da?

A BRUXA DE MONTE CRDOVA                       183

-E, corno Vossa Senhoria bem entende, nosso pai tinha l

a sua aquela de honra...

-E da? -Por isso no viemos onde a ela... -E depois que meu pai morreu? Procuraram-na, perdoaram-lhe, recolheram-na debaixo das telhas onde tinha nascido? Deram~lhe a sua legtima? Trataram de saber se ela tinha fome? Responda a isto, irmo da senhora minha me!

-Se ela nos procurasse  ... do que ns comssemos havia de comer ela.

-Mas no a procuraram    ... no? -Isso l no, meu senhor. -E porque me procuram a mim? -Isso... l... enfim... Vossa Senhoria... como diz l o ditado...

-Que diz l o ditado? Que os senhores so uns miserveis que mereciam ser chibatados por um lacaio? Diz isso o ditado? Rua, seus viles! Eu sou aquela criana que o senhor irmo de minha me conheceu s sopas caritativas de Joo Antnio, criado de meu pai. Um dia o meu honrado benfeitor passou comigo por vossemec e disse-lhe: "Aqui est o filho de sua irm." Que respondeu o senhor? Recorda-se, seu biltre? Foi isto: "  de m raa. " Rua, canalhas!

Os lvidos palermas saram s recuadas e chegados  rua disseram ambos simultaneamente olhando de esconso com medo dos lacaios:

- Que tal est o ladro!

Dias depois, anunciou-se outro parente, que apeara de um

trem, e trajava casaca, luva cor de pombo e sobretudo dobrado no brao.

-Que espere no ptio -disse o filho de Toms de Aquino ao escudeiro.

Pedro de Aquino, filho do irmo de Toms, como recebesse

184              CAMILO CASTELO BRANCO

to disparatado recado, tirou da carteira um bilhete com armas e disse ao escudeiro:

-Meu primo certamente no sabe quem o procura. Queira entregar-lhe este bilhete.

Volveu o criado. Jacinto de Deus leu:

Pedro de Aquino dos Guimares Oliveira Leite de Barros Andrade e Castro.

E logo ao escudeiro: -No sei quem . Entregue-lhe o bilhete. Se ele se espantar da remessa, diga-lhe que entre os nomes das pessoas que me visitam, e eu prezo, no costumo baralhar bilhetes de pessoas a

quem no aperto a mo. Em suma, se me quer importunar que me espere no ptio.

Isto foi dito acintemente no patamar da escada, em voz que Pedro de Aquino ouviu.

O fidalgo de Alvite saiu vexado dos lacaios que se retiraram como envergonhados do insulto.

Dizia Jacinto  esposa: -A famlia de meu pai  mais infame que a de minha me.
O santo, que me livrou da roda dos enjeitados, foi insultado por eles. Se aqui viesse o pai deste homem, mand-lo-ia azorragar. Assim, ao filho, no sei que generosidade possa haver com ele superior ao desprezo.

Eis aqui a briosa ndole do filho do tenente de lanceiros.

VIII

COMO ANGLICA FLORINDA MORREU

Ya que el tiempo avia Ilegado En que hazerse convenia El rescate de Ia esposa Que duro yugo sofria.

SO JOO DE DEUS (Coplas)

Em julho deste ano, o baro de Burges saiu do Porto a passar o estio sob os arvoredos da sua quinta.

Alm da sua famlia, acompanhavam-no um casal de velhos: a senhora Maria que o tinha criado, e o senhor Bento Gomes, marido da senhora Maria, camarada de seu pai, soldado dos Voluntrios de D. Maria H, o qual andava morrendo de fome, porque o seu lugar da alfndega lhe tinha sido tirado para galardoar um caceteiro eleitoral.

O baro recolheu-os e denominou-os sua famlia.  casa de Burges concorriam os nobres e os ricos daqueles arredores. A baronesa era mais procurada dos pobres, e pagava-lhes a visita com as mos cheias de consolaes, e o corao de alentos. O velho soldado entrava  sala dos hspedes mais cerimoniosos, e,  meia volta, l vinha historiando as batalhas da liberdade, desde a primeira dos Aores at  ltima da Asseiceira. De permeio, enternecia-se at ao pranto, quando comemorava as

proezas do seu tenente.

Em uma tarde formosa de Agosto, umas damas portuenses, hspedas da baronesa, perguntaram a um cavalheiro de Santo Tirso onde  que estava por aqueles stios uma ermitoa que o

povo chamava a "Bruxa de Monte Crdova".

- Oh, minhas senhoras! -respondeu o cavalheiro-, no cuidei que chegava ao Porto a fama da bruxa de Monte Crdova!

186              CAMIL0 CASTELO BRANCO

- Pois no chega?! - volveu uma dama. - Olhe que a

mam, quando o pap esteve a morrer, veio aqui onde est a

tal mulher, de propsito, a pedir-lhe que rezasse pela sade do pap, e...

-E o caso  que seu pap melhorou, minha senhora -interrompeu o risonho sujeito, que se prezava de ter dois dedos de filosofia, segundo a quantidade em que ela est distribuda em Santo Tirso.

- Melhorou, sim, senhor. E quer saber mais? A mam mandou  mulherzinha no sei quantos cruzados novos, e ela pediu ao criado que lhe desse meio tosto para azeite da lmpada da capelinha e no quis mais nada.

- L pela independncia dela fico eu - tornou o cavalheiro. -Sei que a bruxa no aceita, seno algum bocado de po e

couves para o caldo; e acontece, se tem po de mais, repartir

com os pobres que l vo consult-la para doenas, ou pedir-lhe oraes; creio isto porque o sei de bons informadores; mas, se

Vossa Excelncia me permite, no acreditarei que ela curou seu pap.

- E porque no? - redarguiu a senhora. - Ento as oraes das pessoas virtuosas no valem nada diante de Deus?!

- Como quer que seja - interveio o baro -, essa mulher  curiosidade rara nas da sua profisso. Pelo comum, as benzedeiras, bruxas e mulheres de virtude exploram as vtimas quanto podem.

- Quem me dera v-Ia! -ocorreu a baronesa. -Isso  faclimo! -disse o cavalheiro de Santo Tirso. Trs quartos de lgua de mau caminho pela serra a cima. Tem Vossa Excelncia coragem de assentar-se num jumentinho?

- Ai! - vamos -, conclamaram as damas portuenses. -  senhora baronesa, vamos, sim? Quem nos dera ver a criatura que pediu a Deus pela vida do nosso pap! ...

-Que dizes, Jacinto? -perguntou a baronesa.
- Vamos, filha. Prepare-se a cavalgada. Vai o rancho dos pequenos. Vamos todos. Vai a minha ama e o Gomes. s cinco horas da manh tudo pronto. Olha se dispes o merendeiro,

A BRUXA DE MONTE CRDOVA                        187

Amlia. Lembra-te que o nosso apetite l na serra no se h-de regular pela abstinncia da bruxa.

Saram criados do baro a prevenir as cavalgaduras. As damas com a baronesa foram  capoeira escolher as vitimas. Deitaram-se cedo para madrugar; e  primeira luz da manh, desfilava a caravana no seguimento do cavalheiro de Santo Tirso, que ensinava o caminho.

Quando assomaram ao teso da primeira cortina da serra, onde assentava a cabana, viram algumas mulheres maltrapidas  porta da capelinha, com crianas no colo, esperando que a Penitente sasse da sua orao exttica para lhes benzer os filhos.

O rancho de Burges ajoelhou diante da ermida, exceptuados os dois filhos mais novos que entraram por ali dentro, ladearam a velha muito fitos nela, e fugiram s corrimaas, exclamando:

- Oh!, que velhorra!
O pai chamou-os para si e estorcegou-lhes rijamente as orelhas.

A me fez um gesto de magoada e disse aos filhos:
- Sentem-se ali, meninos.
- No se sentem - emendou o baro -, ajoelhem ao p de seus irmos.

Anglica parecia no ter dado conta da invaso e da risada dos meninos. Deteve-se orando por algum tempo; levantou-se e veio de passo mui vagaroso, e encostada a um bordozinho,  porta da capela.

Os visitantes levantaram-se e saudaram-na. Ela respondeu  saudao, dizendo:

-Seja louvado nosso Senhor Jesus Cristo! E, voltando-se s mulheres rotas que tinham os filhos, perguntou-lhes:

-Que tm os pequeninos? Deram-lhe conta dos padecimentos das crianas. Anglica tomou um por cada vez nos braos, foi ajoelhar no degrau do altar, orou breve espao, voltou com o ltimo e disse:

-Estas criancinhas precisavam de melhor alimento, filhas. Vs passais fome, e elas tambm. Pedi uma esmola a estes

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senhores; e, se vo-la derem, ide comer alguma coisa mais sustancial, e assim dareis melhor sangue a estes enfezadinhos.

A baronesa, que era me extremosa, deu todo o dinheiro que levava. O baro esmolou dinheiro que as pobres nunca tinham visto. As senhoras portuenses lastimavam-se de levarem to pouco. O de Santo Tirso esmerou-se em agradar, pela liberalidade, a urna das damas. Os pequenos pediam ao pai dinheiro para dar. O soldado de D. Maria, com marcial entono, exclamou:

-A vo dois patacos; um por mim, outro pela minha Maria. Eu j pedi esmola aos liberais que ajudei a pr no poleiro, e

no me deram outro tanto!

-Bravo, meu Gomes! -exclamou o baro. -Esses quatro vintns ho-de ser mais pesados na balana de Deus que as minhas quatro libras.

- No que eles realmente pesam mais - disse o veterano a rir.

Nadavam em lgrimas de alegria os quase apagados olhos de Anglica. As trs mulheres desciam a montanha rezando em voz alta pela sade e salvao dos seus benfeitores.

O cavalheiro de Santo Tirso usou primeiro da palavra dirigindo-se  bruxa:

-Como se chama? -A Penitente. -Donde  vossemec? -Deste vale de lgrimas. E, a meia voz, disse o cavalheiro ao baro: -Nunca responde outra coisa. E tornou  velha: -Estas senhoras vieram aqui para a verem. -No vieram ver-me- disse Anglica Florinda afavelmente -, vieram guiadas pelos anjos para acudirem s mes doutros anjinhos.

-E ns-disse uma das senhoras portuenses -viemos agradecer-the as suas oraes pela sade do nosso pap. Lembra-se de uma senhora que aqui veio do Porto h trs anos? E que depois lhe mandou um dinheiro, que vossemec no aceitou?

A BRUXA DE MONTE CRDOVA                          189

-Lembro, lembro... era uma senhora que chorava muito... Como no veria Deus tamanha aflio!... Ela ainda est neste vale de lgrimas?

-Est; mas no veio, porque j  velhinha e doente; seno muito gostaria ela de a ver...

-Pois, meus irmos-disse Anglica retirando-se  choupana-, fiquem com nosso Senhor Jesus Cristo. Se querem orar, a est a capelinha; o sol j aperta c fora e faz mal a quem no est afeito.

Entrou no tugrio, e sentou-se a molhar em gua umas cdeas de broa,

O baro postara-se de modo que a entrevia naquele banquetear-se. Pediu-lhe que lhes fizesse companhia ao almoo. Anglica respondeu:

- Muito agradecida. Isto me basta. -Mas faa-nos a fineza de almoar connosco-tornou o baro.

-No posso, senhor; queira perdoar-me... Voltou o baro ao grupo e disse:
- Tem que estudar e admirar esta mulher! Se no existisse Deus, escreveu um filsofo que era necessrio invent-lo: e eu acrescento que era necessrio invent-lo para que algum superior poder desse o prmio a esta mulher noutra vida! ... H quantos anos est ela aqui?

-H sete, pouco mais ou menos, j eu aqui vim -disse o cavalheiro de Santo Tirso. -ramos uns poucos de tolos que vnhamos gracejar com a velha; mas ela recebeu-nos de modo que nenhum de ns pde chalacear. H o que quer que  nesta mulher... Isso  que no h que duvidar...

-H, talvez, uma coisa bem vulgar! -tomou o baro de Burges -, uma grande paixo ou um grande crime, No se

chama ela a Penitente? A est... Remorsos fazem maravilhas de virtude. O que mais singular vejo nesta criatura  ignorarem todos donde ela veio! ...

-Se ela no o diz!  ...

190              CAMILO CASTELO BRANCO

-Nem se queixaria algum da falta dela? -perguntou a baronesa.

-Que eu saiba, no, minha senhora. Esta mulher, a meu

ver,  de muito longe -respondeu o cavalheiro.

Os pequenos puxavam pelo fraque ao pai, reclamando o almoo. Aplaudiram todos a petio, e logo se estendeu a toalha  sombra da ermida. Quem servia  mesa com militar pontualidade era o veterano, praguejando s criadas que lhe no forneciam regularmente as vitualhas. A senhora Maria, que um tempo fora filsofa, e negava ao avesso de Plato, Scrates e Santas Escrituras que existissem demnios, estava agora esperando opor~ tunidade de falar  santa a ver se lhe ensinava cousa que lhe abrisse a vontade de comer. E, de feito, l se esgueirou da scia para dentro da choupana, deliberada a fortalecer as suas serdias crenas com a robustez do estmago, comeando assim nele e

por ele a renascena da sua f.

Comido alegremente o almoo, o rancho das senhoras e meninos foi saltitando de fraga em fraga a colher boninas silvestres que ainda, ao resguardo das rochas, cintilavam aljofradas de orvalho.

O baro, a esposa, o cavalheiro e o soldado ficaram a conversar no terreirinho da capela. Maria, j de volta da choupana, estava comendo com os criados o despojo opimo do almoo, e dizendo:

-  mulheres!, aquela criatura  santa! ... Eu disse-lhe que no comia bem; ela disse-me que esperasse pela fome; e eu estou

aqui a comer como vocs vem! Parece que me cresceu o bucho!

-Tambm a ns, sem irmos  santa-disse uma criada ladina, sonegando um borracho assado  mo da velha Maria que pairava sobre ele corno milhafre.

O baro pediu ao escudeiro o seu culo de mar, e esteve circunvendo o dilatado panorama.

- Isto  magnfico! - disse ele. - Que riqueza de terra! At as montanhas parecem relvedos! O rio Ave como que se vai

A BRUXA DE MONTE CRDOVA                           191

espreguiando de delicioso por entre os seus arvoredos que se

curvam a cortej-lo!

-0 que a vai de poesia buclica, meu baro! -exclamou o de Santo Tirso.

- Aqui, meu amigo, neste Minho, no  habilidade nem

mrito ser poeta. Todos estes riachos so Hipocrenes e Aganipes.

- Olhe que essas guas j se no admitem na cozinha dos modernos vates. Agora, as fontes inspiradoras dos poetas descabeados e descabelados so de conhaque e absinto. Guerra declarada ao Olimpo dos velhos e ao senso comum de todas as idades!

-Qual guerra! -saiu dentre urnas fragas clamando o veterano. - Por aqui no houve guerra que prestasse! Deram-se uns

tiritos a em Santo Tirso, no dia vinte e oito de Abril de trinta e quatro, e mais nada... Fale-me pracol pra Ponte Ferreira, isso sim! -dizia o velho apontando.

-No foi tanto assim, senhor Gomes! -atalhou o cavalheiro. -No dia vinte e oito de Abril, quando o baro de Pico de Celeiros saiu a repelir as avanadas do Jos Cardoso, ainda correu sangue que farte. Valente francs trazia Dom Miguel no exrcito!, o coronel Puisseux,  frente dos lanceiros, deu acol em baixo urna linda carga!  distncia de seis passos arremessou ele a lana s costas de um sargento, e quando a repuxou j o sargento estava morto. L o mataram depois na Asseiceira...

-E morreu bem!-atalhou o voluntrio da rainha.Bravo como um leo!  frente de dois esquadres que pareciam dez milhes de diabos, atacou-nos a direita da linha que nos ps os atiradores, lanceiros, reservas e tudo em papos de aranha! E o outro francs que vinha com ele? O coronel Clacy? Que me dizem ao coronel Clacy que dava urros como um touro! Por este lado a vitria foi deles, e pela linha miguelista fora, no se ouvia j seno gritar: Vitria! Vitria! Vai nisto o Pusseux subiu por uma encosta fora a passo de carga. O Caadores doze estava l no alto e foi de speto apanhado; mas o comandante Queirs tinha fgados! Descarga geral! Os dois franceses afoci-

192           CAMILO CASTELO BRANCO

nharam mortos redondamente, e a cavalaria foi como um raio a fugir que levava demo! Ento, meus senhores,  que se acabou a guerra... mas, quando isto foi, j o meu amo estava morto! ... No sei se foi Deus, se o diabo que o no deixou receber a paga de tanta valentia...

O veterano passou o canho da farda pelos olhos, e prosseguiu, apontando para a serra de Baltar:

- Acol, por acol fora,  que meu amo, ainda com uma farda como esta, despejava fogo que parecia uma granada! Quando ele me disse que estava ferido foi j no fim da batalha... Ainda me lembro de vir ter com ele o senhor Alexandre de Sousa Coutinho, que l morreu no mesmo dia em Lisboa, e dizer-lhe: "Isso no  nada, rapaz! Estas balas do Miguel so de sebo! No faas caso dessa arranhadura, Toms de Aquino! ... "

Quando o veterano proferiu as derradeiras palavras, assomou  porta da choupana Anglica Florinda, com a mandbula inferior pendida, a respirao ansiada e os olhos esbugalhados. O soldado, que tinha as costas voltadas contra ela, no viu a velha em que o baro estava reparando atentamente, e continuou:

- O meu amo fazia l caso da arranhadura! Pois no era para desprezar! Sabe o que ele fez? Seu pai nunca foi  cama, senhor baro. Esteve no hospital porque os cirurgies o no deixavam sair! ... Caramba!, o senhor Toms de Aquino, se vivesse hoje, ou tinha quebrado a espada, ou era um dos mais valentes generais do exrcito portugus! ...

-Que tem ela?! -perguntou o baro, vendo a Penitente caminhar para eles a cambalear, sacudindo os braos, e articulando palavras convulsas,

A baronesa adiantou-se para ela e disse-lhe: -Vossemec que tem, mulherzinha?... Est aflita? -Ouvi aqui falar em Toms de Aquino... -murmurou Anglica.

-Fui eu que falei -disse o veterano. - Vossemec conheceu o senhor Toms de Aquino?!

-Sim... conheci... -tartamudeou a Penitente, agitando as mos, que lhe batiam trmulas sobre o seio.

A BRUXA DE MONTE CRDOVA                        193

-Conheceu meu pai?! -disse o baro com interesse e espanto.

- Aqui tem o senhor baro de Burges, que  filho dele -ocorreu Bento Gomes.

-Este?, este?-exclamou a velha, apontando no rosto do baro, e crescendo para ele.

-Este, sim... -tornou o soldado.
- Este,  Senhor do cu! ?... Este  Jacinto de Deus?... -Sou eu... -tartamudeou o baro sem ainda poder entender o seu alvoroo. -Como sabe o meu nome?!

Anglica chegou-se a ele, travou-lhe do brao direito, regaou-lhe vertiginosamente a manga do fraque, depois a da camisa at cima do cotovelo, examinou as duas iniciais do nome do pai, e exclamou:

... !,  ele,  meu filho! Este , meu Deus!  Virgem do cu! -exclamou a baronesa, ajudando a

amparar Anglica, desmaiada nos braos quebrantados do esposo. - tua me, jacinto!, encontrmos a tua me!. ---Talvez, morta!... -disse o baro. -Minha me! - bradou ele, tocando-lhe na face com os lbios, -Minha me, no queira morrer agora! ... Amlia, pede a Deus que me deixe ainda ouvi-Ia proferir o nome de meu pai...

As senhoras portuenses e os meninos tinham chegado, atrados pelos brados de todos.

- Vinde c, meus filhos - exclamou o baro -, vinde beijar a mo de vossa av que  esta pobre...  minha me, abra os

olhos para ver os seus netos...

O pulso de Anglica ainda batia. O baro mandou todos os

criados procurar mdicos. Saram todos a vrias localidades dirigidos pelo cavalheiro de Santo Tirso. O filho de Toms de Aquino conduziu sua me  tbua sobre que viu uma manta esfarrapada. No havia na choupana outro leito. A baronesa mandou tirar das andilhas as almofadas e cobertas. Afofaram-lhe uma camilha, sentou-se  cabeceira o baro, encostando no seu brao esquerdo a cabea da me.

194               CAMILO CASTELO BRANCO

Maria, a ama de jacinto, com as mos na cabea, e como empedrada ao lado de Anglica, exclamava:

-No pode ser! Esta mulher no pode ser a me de Vossa Excelncia! Vejam l que no estivesse ela doidinha, quando disse que era sua me...

-Eu-ajuntou o veterano-ainda no quis dizer nada; mas... a falar o que sinto, no vejo nada que d ideia da senhora sua mezinha, senhor baro...

-  minha me, e... - exclamou o baro - diz-me Deus que  ela... calem-se, que no v ela ouvi-los.

Volvidos minutos de silncio, quebrado apenas pela respirao ofegante de todos, agitou-se Anglica e fez baldado esforo por sentar-se.

-Minha me! -disse com muita ternura o filho, colocando-se diante dela, sem a largar dos braos. - Diga-me outra vez que eu sou o seu filho... Fale-me de meu pai...

-Ajudem-me a salv-lo-murmurou com muito compassadas expresses Anglica. -Est no fogo do purgatrio... ajudem-me a pedir a Deus que o despene . . . Maria ajoelhou-se muito  beira dos olhos dela, e perguntou-lhe:

- Conhece-me?... Anglica deteve-se examin-la com os olhos meio descerrados e disse:

- Agora... conheo... sois a ama do meu... filho... e o vosso homem?

-Aqui estou, senhora! -saiu o veterano, ajoelhando ao

lado da mulher.

-S ele morreu... -balbuciou Anglica, feita uma curta pausa.

Pouco depois, a cabea da moribunda escaldava e o sangue batia-lhe velocssimamente nos pulsos. Era um incndio febril, a lavareda que pegara nas arestas daquela adelgaada vida.

Dois facultativos impediram que o baro a transportasse em uma cadeira de respaldo, at ao fundo da serra, dando-lhe como

inevitvel a morte no caminho. Tambm no se animaram a

A BRUXA DE MONTE CRDOVA                       195

medic-la energicamente com estmulos custicos, por no lhe acharem vitalidade que reagisse. Alvitraram que se esperasse a crise, cuja demora no podia ser longa.

Todos pernoitaram no Monte Crdova. Abrigaram-se na capela as senhoras portuenses com os meninos. Na choupana ficaram o baro e os restantes.

Por noite alta, a febre quebrou; mas o aspecto da moribunda, esvada a cor febril, era j de morta.

Ainda no. Descerrou as plpebras, reconheceu o filho; apertou-lhe a mo e aconchegou-a dos lbios carbonizados, dizendo em voz clara:

-Os netinhos... Foi a baronesa pressurosa buscar os filhos que dormiam vestidos nos regaos das senhoras. Trouxeram-nos as damas todos quatro no colo, e aproximaram-nos da av.

Anglica deu-lhes a mo a beijar. As crianas estrouvinhadas esfregavam os olhos, sem darem o maior apreo  triste solenidade do acto.

- Coitadinhos! - murmurou a velha. - Aquele... - continuou ela apontando no mais velho, que teria oito anos -, aquele...  muito parecido com o av ... Conheci-o desde a idade dele...

E fechou os olhos para represar as lgrimas, que transudaram por entre as pestanas.

- Minha querida me - disse o baro -, no v deste mundo sem saber que eu apenas cheguei a Portugal a mandei procurar em Santa Clara do Porto.

Ela acenou ligeiramente; e, aps uma nsia de alguns segundos, disse:

- Perdoa-me, filho...!
O baro, compreendendo a grande e recndita agonia daquela splica, rompeu em pranto desfeito, exclamando:

-Maldito seja quem me roubou as carcias de minha me... e a trouxe a esta penria!.,.

Ela agitou a mo at lha poder chegar  boca, e disse:

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- Filho! ... eu quis resgatar das penas eternas a alma de teu pai...

Recaiu em letargia. Antemanh, quando as aves j trinavam sobre o colmao da ermida, volitando de l para a choupana, Anglica Florinda cobrou um lampejo de alento e disse:

-Os sacramentos... A este tempo j o vigrio da freguesia, corno os pobres o avisassem de que estava a ermida e a choupana cheia de fidalgos, tinha subido  serra para examinar o que seria causa a pernoitar gente limpa num stio to desabrigado. Enquanto o sacerdote desceu a munir-se dos santos leos, Anglica disse ao filho:

-Manda-me sepultar na ermida...  s levantar a primeira pedra... A cova j eu a fiz com as minhas mos...

-  minha me... -clamou o baro. -A sua santa alma tem muito valor com Deus... Pea-lhe que a deixe viver mais alguns anos com o seu filho, com minha mulher que est ali chorando, e com os seus quatro netinhos... Pea-lhe, minha querida me...

-No... -respondeu ela, com os olhos fitos no arrebol da manh que via pela fresta da choupana. -Agora  tarde... Vou pedir ao Senhor... vou... mas  a salvao de teu pai... Diz aos

teus anjinhos que rezem sempre por ele...

Com alguns intervalos de letargia e aparncias de final trespasse decorreram trinta minutos at  chegada da extrema-uno.

Deps da umbela do ministro do sacramento subia a montanha multido grande de mulheres, velhos e crianas a entoar o bendito. Os sinos l em baixo tangiam  agonia nas freguesias circunjacentes ao Monte Crdova. Da segunda cortina da serra

vinham tambm descendo os moradores de outros outeiros mais elevados da cordilheira.

Formosssimo espectculo de muitas lgrimas! No cu, porm, azul, sereno, e como de festa para receber uma alma, direis que transparecia o jbilo interno dos anjos.

Anglica comungou e foi ungida.

A BRUXA DE MONTE CRDOVA                       197

Comeou o padre lendo as oraes da agonia. A moribunda, com a candeia na mo, ainda respondeu  ladainha entoada pelo sacerdote. Depois, chegou o padre s primeiras palavras da orao: "Senhor, no vos lembreis das culpas e desacertos da mocidade... " ' Neste lance, a agonizante ps os olhos no rosto de Cristo, que o filho segurava, chorou uma lgrima e estremeceu instantaneamente. O filho de Anglica Florinda atalhou o padre, que prosseguia na orao, dizendo:

-Est morta! Esta palavra ouviu-se fora da choupana, porque fora dita

num arrancar angustioso.

Soou nas quebradas da serra um longo gemido. Ajoelharam todos, alongando a vista pela amplido do cu, como se vissem o trnsito luminoso de uma alma. Depois, no quiseram descer da montanha sem beijarem a mo da defunta.

'Delicajuvenlutis el ignorantix ejus, quwsitmus, non menineris, Domine.

CONCLUSO

Caminhe o servo de Deus por esta segura vereda.

FREI FRANCISCO DA CONCEIO (Dirci-)

A elegante fbrica de Santa Maria Madalena, magnfica e luxuosa capela de Monte Crdova, foi ultimada em 1865.

Com paredes paralelas s da choa onde morreu Anglica Florinda, edificou o baro de Burges uma casa quadriltera, a

qual prende com a capela. No interior deste vistoso miradouro de janelas morabes, est intacta a choupana de Anglica. Dentro, no h andaime, nem alfaia:  a cabana, a pobreza guardada num cofre de granito, aformosentado por folhagens e laarias primorosas. Uma porta de ferro bronzeado abre o passo para um corredor espaoso que circuita a morada da Penitente, e gira entre a choupana e a cantaria exterior, recebendo a luz das janelas circumpostas e de um zimbrio que remata a abbada. A testada deste rico invlucro de pedras toscas  guarnecida em redor de gradaria a fechar a cruz e banquinho que a bruxa de Monte Crdova construra por suas mos.

A capela foi traada por feio que a sepultura de Anglica Florinda forma parte do pavimento do altar-mor, Na mesma pedra que lhe cobre as cinzas, l-se este epitfio: A PENITENTE. Mais nada.

A um lado, entre o altarinho lateral e a porta, ressalta meio palmo do cho uma pedra de nove palmos, onde est escrito: JAZIGO DE JACINTO DE DEUS AQUINO, E SUA FAMLIA. Defronte no outro lado, em uma pedra semelhante, l-se: AS CINZAS DE JOO ANTNIO, BENFEITOR DE JACINTO DE DEUS.

A BRUXA DE MONTE CRDOVA                        199

O baro de Burges, acabada a sua obra, entregou a guarda e

vigilncia da capela a um sacerdote pobre de uma aldeia prxima, a quem incumbe nos dias santos sacrificar. Aconselharam-no a que mandasse sufragar quotidianamente as almas de seus pais e amigos. Reflexionou o filho de Toms de Aquino que seu

pai tinha sido sufragado por vinte e sete anos de penitncia de sua me; que Deus seria injuriado em sua justia por quem lhe pedisse que desse a glria a Anglica Florinda; que os seus amigos mortos estavam santificados pela caridade.

Estas razes escandalizaram hereticamente o clero daquelas terras, e marearam o nome limpamente catlico de que, at ento, se gozara o edificador da Capela de Santa Maria Madalena.

Feito isto, o baro de Burges saiu com sua famlia para Frana a fim de recomear a educao intelectual de seus filhos. A mordomia e feitorizao de casa e terras ficou  merc e probidade do veterano e da senhora Maria, cuja piedade ia aumentando na proporo do apetite, que ela atribu a milagre de Anglica Florinda.

H dois anos que o baro voltou para Portugal com os dois filhos mais velhos, afora dois nascidos em Frana.

Perfaz neste ano trinta e quatro anos o filho do tenente de lanceiros. No vigor da vida, no gozo de vasta riqueza, com um

corao cheio de tristes e ao mesmo tempo sublimes memrias, devem os infelizes contar largos anos com a caridade de uma criancinha que h vinte anos aceitava a esmola de duas mulheres, que lhe mataram a fome, e recebia o agasalho de um velho criado de seu pai.

O baro de Burges conta estes sucessos da sua infncia diante dos ricos a fim de que os saibam os pobres, e no hajam acanhamento em pedir a quem desde o bero viveu de esmolas, at que o trabalho e a honra o resgataram da dependncia.

NOTA CORRECTIVA

Inadvertidamente faltmos ao rigor pragmtico dos tratamentos conventuais da Ordem Beneditina, permitindo que o frade colegial recebesse o tratamento de "paternidade" que s era concedido aos monges que tinham grande idade com exerccio de lugares superiores e to-somente subalternos ao das prelazias nos mosteiros. Era tarde para emendar a falta, quando nos saltou a inconvenincia de tal tratamento.

OBRAS ESCOLHIDAS DE

CAMILO CASTELO BRANCO

Primeiro volume

ANTEMA

Segundo volume MISTRIOS DE LISBOA 1

Terceiro volume MISTRIOS DE LISBOA 11

Quarto volume MISTRIOS DE LISBOA 111

Quinto volume ONDE EST A FELICIDADE?

Sexto volume VINGANA

Stimo volume
O ROMANCE DE UM HOMEM RICO

Oitavo volume AMOR DE PERDIO

Nono volume COISAS ESPANTOSAS

Dcimo volume CORAO, CABEA E ESTMAGO

Dcimo primeiro volume

O BEM E O MAL

Dcimo segundo volume A QUEDA DUM ANJO

Dcimo terceiro volume A BRUXA DE MONTE CRDOVA

Dcimo quarto volume
O JUDEU 1

Dcimo quinto volume

O JUDEU 11

Dcimo sexto volume
O SENHOR DO PAO DE NINES

Dcimo stimo volume
O RETRATO DE RICARDINA

Dcimo oitavo volume OS BRILHANTES DO BRASILEIRO

Dcimo nono volume
O CARRASCO DE VICTOR HUGO JOS ALVES

Vigsimo volume AS NOVELAS DO MINHO 1

Vigsimo primeiro volume AS NOVELAS DO MINHO 11

Vigsimo segundo volume EUSBIO MACRIO/A CORJA

Vigsimo terceiro volume A BRASILEIRA DE PRAZINS

Vigsimo quarto volume VULCES DE LAMA
